segunda-feira, 2 de julho de 2012

ORAÇÃO


Há dias em que apenas a oração é capaz de ajudar a preencher nossos espaços vazios. Me sentia assim ontem, tanto que fugi de boa parte de uma festa de aniversário para ir a uma missa próxima do local da festa. Minha esperança estava em escutar o que Deus tinha para me falar pois aprendi com o tempo a confiar nas leituras programadas para cada dia. Chegando lá me lembrei que, quando a festa dos santos Pedro e Paulo acontece no meio da semana, a transferem para o domingo mais próximo. Assim, as leituras de ontem foram as da festa dos santos considerados "colunas" da Igreja e não as do 13º domingo do tempo comum. Por um lado foi bom ouvir uma de minhas leituras preferidas, aquela em que Paulo, perto da morte, emite sua declaração de missão cumprida ("combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Desde já me está reservada a coroa da justiça que o justo juiz me reservou"). Paulo podia morrer tranquilo pois tinha a certeza de que fez o seu melhor. Ao contrário de me inspirar como tantas vezes fez, a leitura me deixou ainda mais agitado. Tive muito medo de morrer (estou com esse medo ainda), medo não da morte em si, mas de não ter aproveitado a vida para fazer o meu melhor. Ou pior, medo de a vida inteira ter achado que fazia o melhor e, de repente, perceber que tudo foi, não só inútil, como também uma ilusão que me deixou bem longe de poder um dia merecer usar o mesmo discurso de Paulo.

Voltei para a festa vestindo um sorriso que agradou muito meu sobrinho que se fartou de brincar com o tio (bem, na verdade, eu cansei bem antes dele, mas ele é insistente e terrivelmente simpático quando quer algo - risos) e acho que assim sentiu menos a ausência do pai que não pôde ir à festa com ele. Mas o que fazer com minhas próprias ausências, com a minha própria ausência? A pergunta retumbava na mente e, à noite, antes de dormir, a agitação continuava. Recorrendo mais uma vez à oração, pensei em ler o evangelho que teria sido lido nesse final de semana não fosse a coincidência com a festa de Pedro e Paulo. E era uma leitura de cura, de amor, de entrega...

Jesus está famoso, tanto que multidões acorrem até ele. A notícia de seus milagres se espalha. Jairo, o chefe da sinagoga, se joga aos pés de Jesus e pede que o galileu cure sua filhinha à beira da morte. Fiquei pensando naquele homem. Tão poderoso no local, dava ordens que eram cumpridas, era reconhecidamente importante, alguém que representava o próprio Deus diante do povo, mas diante da filha doente se reconhece incapaz, mais ainda, percebe que nada do que tivesse feito até então valeria a pena se não tivesse junto a si, sua filha querida, tão amada e que se encontrava doente. Ele sem ter (ou sem saber) mais o que fazer, se joga diante de Jesus pedindo a cura da filha, é o que lhe resta, entregar-se em oração. Nessa hora me lembrei de uma música católica bem tradicional, das que minha mãe, quando eu criança, cantava para me pôr para dormir e que dizia "a melhor oração é amar; se não sabes amar, tu não deves orar, a melhor oração é amar". Nessa hora, alguns homens chegam com a notícia da morte da menina, mas Jesus, vendo o quanto aquele homem amava a sua filha, diz: "ela não morreu, ela apenas dorme". É certo que os homens não creram nisso e não acreditaram porque eles não amavam. Ainda que aflito, ainda que angustiado, ainda que temeroso, é certo que Jairo acreditou, pois ele amava, sua melhor oração não era a oração das sinagogas, era a oração do amor. E é certo que ele acreditou pois quando Jesus disse à filha de Jairo: "talita cumi" (menina, levanta-te), ela despertou bem, para alegria daquele pai que reconheceu que nada mais no mundo é tão importante como a presença de quem se ama.

Jairo nos ensina que a cura é diária e está relacionada à entrega de nossas vidas nas mãos de Deus, pois ninguém nos ama mais do que Ele. Ele já nos amava antes do nascimento, antes que nos formássemos no ventre de nossa mãe. Por isso, quando deixamos que Deus cuide daquilo que não podemos nós mesmos cuidar e fazemos nossa parte naquilo que podemos cuidar, com fé e paciência, é certo que despertaremos como a filha de Jairo da morte para a vida. E mais uma vez teremos a chance de fazer o melhor e quem sabe, um dia, na nossa hora derradeira, tal qual Paulo, poder se entregar, enfim, definitivamente, nos braços do Pai, certos de termos cumprido nossa missão.

E foi pensando em Jesus, em Jairo e sua filha, e no amor que une as pessoas por todo o sempre, aliado ao cansaço de ter sido pai substituto por um dia, que adormeci, deixando Deus cuidar um pouco de mim e de minhas angústias. Se não acordei mais feliz, ao menos acordei como na música, com vontade de continuar "tocando em frente, como um velho boiadeiro, levando a boiada" e pensando que "vou levando os dias pela longa estrada, eu vou, estrada eu sou..."

quinta-feira, 7 de junho de 2012

MINHA VIDA, MINHA GREVE


Esta postagem é na verdade sobre a greve dos professores das instituições federais de ensino, mas eu ainda demoro um pouco para falar diretamente sobre o assunto, portanto, aos interessados no tema (e sei lá, em saber minha opinião), esperem um pouco. Quem não se interessar é só parar por aqui ou ler outras postagens do blog.

Era uma vez um menino que aos três anos resolveu que queria ir para a escola e já no primeiro ano fez, o que chamavam naquela época de Jardim I e Jardim II no mesmo ano, dado o bom aproveitamento dele. Isso também ajudou seus pais, que receberam uma bolsa do governo nos anos seguintes para que ele pudesse continuar naquela escola, a Escolinha da Mônica, uma escolinha de bairro, mas uma boa escola. 

Ele seguiu com a bolsa até encerrar o primário na quarta série (hoje 5º ano do ensino fundamental) e ao mudar de colégios para fazer o ginásio (hoje do 6º ao 9º ano do ensino fundamental) ele conseguiu "levar" essa bolsa, o que permitiu que seus pais pudessem manter os outros dois filhos nas mesmas escolas. 

Quando estava prestes a ir para o segundo grau (hoje, ensino médio), os pais haviam melhorado um pouco a condição financeira e ele já sonhava em ir para um colégio desses famosos (e caros) porque só assim teria condições de passar no vestibular, rezava a lenda. Mas aí o destino apronta das suas e seu pai perde num incêndio o local onde comercializava suas coisas. Entra o menino, agora um adolescente tímido, na seleção por meio de histórico escolar em uma escola pública das mais concorridas. Consegue, mas vai ao primeiro dia de aula assustado, com medo das histórias que ouvira sobre a qualidade dessas escolas. Lá encontra um grupo de professores prestes a se aposentar, que haviam sido oriundos de uma época em que as escolas públicas eram referência e ser professor delas era atraente de várias formas, tanto financeira como socialmente prestigiada. Naqueles dias porém, o salário já estava em muito defasado, a biblioteca da escola parecia um museu, e sua primeira sala de aula tinha uma assustadora armação de madeira que sustentava o teto para que este não caísse sobre a cabeça dos alunos. Greves eram uma constante, na busca dos professores por melhores condições salariais e de infraestrutura para os alunos, mas surtiam pouco efeito. Contudo, aquela leva de bons professores antigos acalentava ainda esperanças de ao final da carreira fazerem alguma diferença nas vidas daqueles alunos desmotivados por uma péssima estrutura física, e pelas fragilidades de novos professores que foram selecionados "por baixo" porque os melhores professores preferiam ir para outras oportunidades de trabalho onde ganhariam mais, já que negociar com o "patrão" governo era infrutífero. 

Esse adolescente que acabara de completar 16 anos terminou o segundo grau nessa escola e foi um dos dois únicos alunos de sua turma que passou no vestibular para uma universidade pública e federal naquele ano, mesmo ocupando a posição de número 187 em 200 vagas disponíveis (Administração era um dos cursos como maior número de vagas). O menino sabia que a sofrível aprovação teve muito de seu mérito, mas ao encarar as provas do vestibular, viu também que devia muito aos professores que teve, às oportunidades que conseguiu, e a grande maioria delas surgiu de políticas públicas, ainda que paliativas e deficientes. 

Ele jovem, começa a sua graduação e encontra professores naquela época já desmotivados, sem interesse, lutando novamente por melhores salários e recebendo insistentes "nãos" do "patrão" Governo Federal. Muitos dos bons professores foram embora atrás de locais onde pagassem mais, mas felizmente encontrou ainda ali, um bom número dos que tinham prazer no que faziam, que lhe deram verdadeiras lições profissionais e de vida, que se tornaram seus mentores, apesar das dificuldades que enfrentavam para dar seu melhor. Mesmo não conseguindo negociar com o governo, mesmo recebendo "nãos", mesmo tendo oportunidades de buscar fora melhores oportunidades, resolveram ficar e fazer a diferença. Lá ele terminou a graduação, fez seu mestrado e agora faz seu doutorado.  

Muitos desses excelentes professores se aposentaram, alguns bons professores entraram, mas a defasagem salarial certamente afastou muitos novos excelentes professores que foram seduzidos por maiores vantagens salariais. Ele próprio trabalhou na iniciativa privada ganhando mais do que o dobro do que recebe hoje como professor dessa própria universidade federal, e saiu não em busca de estabilidade no emprego, mas sim de autonomia para poder trabalhar, de oportunidade para ajudar os alunos a crescerem, enfim, em busca de um sonho.

Nos três anos que lá está, num campus avançado no agreste pernambucano dessa mesma universidade que estudou, viu coisas maravilhosas, como ter alunos de 14 cidades diferentes da região em uma mesma turma e jovens que sem essa política pública de interiorização nunca teriam a oportunidade de serem os primeiros universitários de suas famílias. Ele próprio foi o primeiro universitário da família, tanto pelo lado paterno quanto pelo lado materno. 

Ele passou por uma seleção difícil, sendo o primeiro lugar dentre 32 inscritos, mas é bom que se diga que a vaga para professor assistente (que pede apenas mestrado) só surgiu porque ninguém com doutorado se interessou em ir para um campus no interior que não tinha nenhuma vantagem financeira extra e que ainda funcionava precariamente num polo de confecções sem uma estrutura adequada à função que deveria se prestar. 

Pouca coisa mudou nesses três anos e é justo esse o problema, ele não sabe ainda o que é um aumento de salário, embora tudo a sua volta tenha aumentado de preços. Ao abastecer o carro ele pagava em torno de R$1,50 por litro de combustível naquela época do concurso, hoje para R$2,76. Ele faz parte de uma comissão de concursos que analisa a documentação dos candidatos e uma vaga para professor na área de sistemas de informação não teve nenhum doutor apto inscrito para esse campus no interior. E quem entrar agora terá um teto para se aposentar, bem abaixo (muito abaixo) do salário final que receberá. 

Ele quer continuar nessa instituição, quer mesmo, ele quer fazer a diferença, ele quer ser como seus excelentes professores, mas teme muito que o nível das seleções continuem a cair, que a carreira fique cada vez mais desprestigiada, que cada vez menos pessoas sonhem em ser professor, apenas porque o governo não está se importando e eles então devam ir atrás de novos "patrões" na iniciativa privada. Ele ainda pôde contar com os arremedos de políticas públicas, mas e os alunos dos próximos anos? 

Ele queria muito estar errado, mas a cada dia que passa percebe que seus prognósticos são verdadeiros e sua conta bancária e os postos de gasolina insistem em lembrá-lo disso. Assim, como ele não quer simplesmente pegar suas coisas e ir embora negociar com "patrões mais simpáticos à sua situação financeira" e porque prefere ainda acalentar seu sonho  e oferecer aos alunos um pouco das oportunidades que teve na vida, ele tem que apoiar a greve, ainda que, infelizmente, traga problemas para os alunos, mas certamente os problemas deles e dos futuros alunos serão bem maiores no futuro.

Ah, desnecessário dizer que o menino da história sou eu mesmo não é? O próprio título da postagem já acabava com o pseudo suspense: "Minha Vida, Minha Greve".

"E Sereis Como Deuses..."


Lembro que o que salvou minha fé quanto à divindade da Bíblia foi a descoberta de sua humanidade. Adaptando citação de Santo Agostinho para o Cristo, mas que se adequa perfeitamente à origem dos livros bíblicos, estes “são tão humanos, mas tão humanos, mas tão verdadeiramente humanos que só poderiam ser divinos”.

O Gênesis é, por exemplo, um grande livro de poesias, o que não o torna menos verdadeiro, ao contrário, pois as poesias têm o grande poder catalisador da verdade imbuído dentro de si e só quem um dia amou verdadeiramente sabe como algumas palavras têm força de realidade.

Pois bem, mas isso é para citar a história lá de Adão, Eva e a Serpente. Deus cria o homem e a mulher, dá a eles o paraíso, apenas pedem que não comam os frutos de uma determinada árvore e Ele, Deus, faz isso não com o sadismo que alguns costumam atribuir a Ele, mas sim como uma mãe que pede que seu filho não coma algo que lhe faça mal, pois a mãe sabe que o filho irá sofrer com aquilo e mais ainda, que ela própria irá sofrer ao cuidar do filho doente, não pelo “cuidar” propriamente dito, ela até prefere estar ali ao lado, mas pela aflição de ver a quem tanto ama sofrer.

A serpente promete aos habitantes do Éden que se eles desobedecerem e comerem do fruto proibido conhecerão a tudo, serão como deuses. Querer ser igual a Deus, esse é o grande pecado original e não a forçada conotação sexual que um bando de moralistas de pouco (ou nenhum) conhecimento exegético e/ou com tendências manipuladoras utiliza. Mas em concordando com isso, um outro grupo pergunta, ironicamente, se Deus não estaria com medo da “concorrência”.  Ora, novamente a superficialidade impera. O pecado nunca é na verdade contra Deus, o pecado é contra si mesmo, é algo que faz mal a nós mesmos e o “não pecar”, mais do que uma imposição contratual é, em verdade, uma prece pela nossa própria felicidade. Como dizia uma canção religiosa antiga, “a melhor oração é amar”.

E não há pecado maior do que querer ter controle, como um deus (em minúsculas), sobre tudo e sobre todos. E o termo “original” associado a este pecado de querer ser como deuses, reside na tendência que todos nós temos de querer controlar todos os aspectos de nossas vidas e também os aspectos da vida do outro, dos outros, do mundo se possível. Esquecemos que mal agüentamos os fardos que a vida nos coloca, as preocupações pequenas, tais como, contas a pagar, e queremos ter controle sobre tudo, passado, presente, futuro, mudando a nosso bel prazer os rumos da história para que se adequem à nossa vontade. Eis a visão do inferno, todos como deuses, adaptando o mundo às suas vontades próprias... “conflitos de interesses” seria ainda um termo muito superficial para o caos que se estabeleceria. Não é à toa que a Bíblia diz que foram expulsos do paraíso, mas não foi Deus quem os expulsou, eles, ou melhor, nós escolhemos isso quando,deixando de aproveitar a vida, passamos a querer controlá-la. Bendito sejam os limites, são eles que nos tornam mais humanos, mais simples e certamente mais felizes.

Recentemente senti isso em condições nada agradáveis, mas é preciso aprender com os limites, na verdade a aprendizagem acontece quando chegamos ao limite. Cuidar de quem se ama quando essa pessoa está doente não é fácil. Ver as consequências da doença na pessoa, a dor, o sofrimento, a tensão, o medo, é algo que mexe profundamente com alguém. Nessas horas a noção de controle não funciona tanto, pois vemos quão pequenos somos e tudo o que desejamos parece ser apenas que a dor da pessoa a quem tanto amamos se dissipe, e quando não conseguimos nos bate um certo desespero e até uma certa culpa, fardo grande que jogamos nas nossas próprias costas. Nessas horas limítrofes nos bate a humanidade e deixamos de lado nossa tentação de a tudo controlar. Por vezes precisamos sair de cena e deixar que alguém, mais adaptado assuma o “comando” e entregamos a pessoa amada a quem melhor pode cuidar dela, que pode até ser um médico sisudo envolto em sua tecnicidade ou mesmo uma enfermeira rabugenta cansada de tantos plantões.

Não é fácil, mas é preciso! E quando nos comprometemos em dar o nosso melhor, respeitando a nossa humanidade, os nossos limites, certamente é mais fácil que deixemos os outros darem seu melhor. E quando tudo funciona bem, quanta felicidade em poder ver o brilho retornar aos olhos da pessoa a quem tanto amamos nos mostrando que ela se recupera, que não sente mais tanta dor. Nessas horas, entende-se que ser feliz depende de muito pouco e não do controle do mundo, do destino, da vida. Isso deixamos para Deus, que por sua vez, sabiamente, pede sempre nossa ajuda até onde podemos ir, pede o nosso melhor.

Amar alguém, estar próximo nos momentos bons é demasiado fácil. Ser companheiro na dor e preferir estar do lado de quem se ama nos momentos difíceis, mesmo sem saber direito o que fazer, mesmo sem poder curar a dor da pessoa, mesmo sujeito a demonstrar tão publicamente seus próprios limites, suas  próprias fragilidades, eis aí o verdadeiro sentido do amar.

sábado, 2 de junho de 2012

TUDO SOBRE VOCÊ * (repost)

* postagem originalmente publicada em maio de 2010, direto do túnel do tempo...


Não me canso de admirar, mesmo que com uma “pontinha” de inveja (da boa), a incrível capacidade de síntese dos poetas e dos compositores, competência que lhes dá condições de falar sobre o infinito em quantidades finitas de palavras.

Dia desses me deparei com uma dessas preciosidades, a música “Tudo Sobre Você” do John Ulhoa e da Zelia Duncan, muito bem interpretada pela própria Zelia. Abaixo a letra da música e um link para quem desejar ouvi-la (recomendo!):

TUDO SOBRE VOCÊ
Queria descobrir
Em 24hs tudo que você adora
Tudo que te faz sorrir
E num fim de semana
Tudo que você mais ama
E no prazo de um mês
Tudo que você já fez
É tanta coisa que eu não sei
Não sei se eu saberia
Chegar até o final do dia sem você

E até saber de cor
No fim desse semestre
O que mais te apetece
O que te cai melhor
Enfim eu saberia
365 noites bastariam
Pra me explicar por que
Como isso foi acontecer
Não sei se eu saberia
Chegar até o final do dia sem você

Por que em tão pouco tempo
Faz tanto tempo que eu te queria

Ouça a música AQUI

Quando se está apaixonado as coisas acontecem mais ou menos assim como na música, cada hora, cada fim de semana, cada mês, cada semestre, cada conjunto de 365 dias é dedicado a saber mais, a conhecer mais a pessoa amada, a pessoa que não se esquece, a pessoa em torno da qual os nossos pensamentos passam a girar.

Quando se ama de verdade, não é preciso pedir ao amante que faça resumos sobre a vida do ser amado,até porque a vontade de quem ama não é resumir, é ampliar.

Quando o amor fala mais alto, exigir freqüência de quem se ama soa até ridículo, pois quem ama está presente até na presença de uma ausência.

Quando se ama de coração, não é necessário pedir que quem ama faça uma apresentação em PowerPoint do seu amor, pois a apresentação está nele mesmo, na alegria estampada na “tela” de seu rosto, no entusiasmo com o qual fala sobre a pessoa que ama.

Quando o amor é verdadeiro, não são necessárias provas, avaliações, testes, pois fica sempre notório que a pessoa que ama é expert quando o assunto é o objeto de seu amor.

Quando a pessoa amada passa a ser o centro de sua vida, não existe nota, muito menos média mínima, pois sempre se quer o máximo, sempre se quer ir além dos limites, ir até onde ninguém foi, romper barreiras, sejam elas geográficas, sociais ou mesmo ideológicas.

Quando o coração bate mais forte à mínima menção do nome de quem se ama, e quando essa pulsação acelerada vem acompanhada de um sentimento de felicidade, não existem reprovações, apenas a certeza de que se tem o essencial e não o supérfluo e, ainda que esse “essencial” seja invisível aos olhos como nos ensina a raposa d’O Pequeno Príncipe.

Se utilizássemos um pouco dessa lógica em nossas salas de aula, nós professores, compreenderíamos que nosso objetivo principal não é o de ensinar o assunto, o conteúdo programático, a ementa, mas sim o de sermos “cupidos” intermediadores entre os alunos e os conhecimentos.

Nosso papel é o de promover, atiçar e eternizar a paixão pela busca do conhecimento. Se fizéssemos isso, resumos, apresentações, seminários, chamadas, provas, testes, simulados, notas, médias, aprovações, seriam termos obsoletos para designar palavras como amplidão, felicidade, prazer, alegria, intensidade, motivação, autonomia, liberdade, admiração, realização, integridade, coerência...

Colegas professores, bem que podíamos ouvir mais músicas, recitar mais poesias, assistir mais filmes, enfim, nos apaixonar mais, pois sem paixão não faz sentido ser professor, não faz sentido ser aluno, não faz sentido existir conhecimento algum, pois não haveria sentido em buscá-lo. Nada faz mesmo muito sentido quando não se tem paixão...

domingo, 27 de maio de 2012

Por Onde Tem Andado Seu Coração?


Quem me conhece sabe que em termos de torcida meu coração se divide entre o vermelho e branco do Clube Náutico Capibaribe e o azul e branco da Portela, escola de samba carioca. Esta noite descobri que o enredo da Portela para o ano que vem irá versar sobre a história da própria escola a partir do bairro de Madureira (a Portela fica entre os bairros cariocas de Oswaldo Cruz e de Madureira). O carnavalesco, que neste ano teve a feliz ideia de trazer a eterna portelense Clara Nunes como o fio condutor do enredo sobre a Bahia, que deu novamente à Portela, uma cara de Portela, vai utilizar o grande Paulinho da Viola, no ano em que ele completa seus 70 anos, como o fio condutor da vez, a partir de sua belíssima música “foi um rio que passou em minha vida”, que se tornou um quase-hino da Portela, cantado sempre nos “esquentas” antes da escola entrar na avenida. (Quem quiser conferir essa maravilhosa canção na voz mansa e contagiante de Paulinho da Viola, basta clicar AQUI).

Tempos atrás, assistindo uma entrevista do Paulinho da Viola, ele explicava de onde surgiu a inspiração para escrever “foi um rio que passou em minha vida”. Ele, mesmo sendo um portelense apaixonado, compôs junto com Hermínio Bello de Carvalho a música “sei lá Mangueira”, que era uma homenagem à outra tradicionalíssima escola de samba carioca, a verde-rosa Estação Primeira de Mangueira. Ao contrário do que muitos pensam, a rivalidade entre as escolas não é como no futebol e o que existe de concorrência entre elas acaba surgindo muito mais da forma de competição baseada em julgadores duvidosos que dão notas aos décimos e premiam mais o “carnaval-aparência” do que o “carnaval-chão", do que mesmo por uma “guerra” entre co-irmãs, mas isso é assunto para outra postagem. 

Porém, é certo que um pouco de ciúme foi despertado entre alguns portelenses, quando Paulinho, já ícone da escola, escreveu esse samba para a Mangueira, sem ter escrito nenhum para a Portela. A situação para o Paulinho se complicou quando a música de exaltação à Mangueira fez muito sucesso e ele se viu meio que na obrigação de fazer algo ainda melhor para a sua amada Portela. O processo de criação é sempre algo difícil de explicar, e Paulinho conta que, buscando inspiração para compor um samba à Portela passou por um letreiro que continha a seguinte pergunta: “por onde tem andado seu coração?” E a música saiu como que em resposta a essa pergunta, tanto que “foi um rio que passou em minha vida” começa com “Se um dia, meu coração for consultado...”

Em meio à sua “resposta”, Paulinho da Viola, confessa que seu “coração tem mania de amor”. Seria tão interessante que a humanidade tivesse essa estranha mania de amar, em todos os sentidos, do fraterno ao erótico, do paterno ao comportamental, do materno ao caridoso. Do amor por um homem ou uma mulher, por uma música, por um filme, por uma poesia, por um animal de estimação. Certamente o mundo seria um lugar muito melhor. Amores que podem apagar, como na música, “a marca dos [...] desenganos” nossos de cada dia.

Não sei se o trecho “o samba trazendo alvorada, meu coração conquistou”, desperta em outros portelenses, como desperta em mim, o saudosismo dos desfiles que a Portela encerrava com o raiar do dia, coroando uma noite de tantas luzes e cores com a luz suprema do sol que com seus raios dava mais vida a cor azul que inundava a avenida como que um rio passando por nossa vida, fazendo nosso coração querer se deixar levar... (#cantarolandoamúsica)

E pensar que a poesia da música começa com esse “por onde tem andado seu coração?”... Pensando bem, talvez toda a poesia da vida surja a partir dessa pergunta. A própria criação do mundo parece ser a resposta de Deus ao seu “por onde tem andado seu coração?” No prólogo de São João, o mundo era sem vida, sem luz, e o verbo, a palavra, o sonho se fez carne. Éramos um sonho na cabeça de Deus como bem já citava Berkeley, o filósofo, e esse sonho se tornou realidade mostrando assim que a humanidade é o coração da ação divina, é a finalidade de tudo que nos cerca, é a declaração de amor de um Deus apaixonado, que se preocupa com cada fio de cabelo que nos cai, que se preocupa verdadeiramente conosco e que nos ensina que amar é preocupar-se também com cada fio de cabelo caído do próximo, com sua dor, sua decepção, sua tristeza, sua dúvida, seu sacrifício, seu sofrimento. Enquanto não formos capazes de sermos solidários na dor, como diz a música do Paulinho, “será difícil negar” que nosso coração continuará andando errado.

Que nossa prece seja para que possamos responder ao nosso “por onde tem andado seu coração?” com uma resposta de solidariedade, de preocupação autêntica com o próximo, enfim, com uma resposta de amor, nos deixando levar pela alegria de fazer parte da vida de outra pessoa, também e principalmente, nos momentos em que ela mais precisar de nós. 

#laiá-laiá-laiá...

segunda-feira, 21 de maio de 2012

A ESTRELA


Têm sido noites escuras, sem lua... Ao menos a procurei esses dias, digo, noites e não a encontrei. Como consolo é possível ver mais estrelas no céu. Mas começo pelo meio, não cheguei ao tema das estrelas pela observância do céu, mas por uma série de fatos que aconteceram esses dias e que culminaram na missa que assisti nesta noite de domingo.

A missa era da solenidade da ascensão do Senhor. Tanto a primeira leitura quanto o evangelho trazem a passagem do Jesus ressuscitado voltando para o Pai, subindo aos céus e dando aos discípulos a missão de levar o evangelho a todas as criaturas. E eu lá, na igreja, pensando exatamente sobre isso, sobre essa missão de cada um de nós.

Evangelho, palavra derivada do grego, significa "boa notícia". E fiquei pensando quão falhos nós somos em espalhar boas notícias. Nos parece ser muito mais fácil falar sobre coisas ruins, falar mal das outras pessoas, comentar sobre tragédias, acidentes, doenças... Não à toa o jornalismo, guiado pelos índices de audiência, acaba por preferir notícias ruins do que boas, já que essas últimas parecem não ser tão "lucrativas".

Alguns acham que a missão dada por Jesus tem a ver com pregações públicas, tentativas de conversão, demonstração de religiosidade ou mesmo martírio. Posso estar enganado e até estar sendo minimalista, mas creio firmemente que essa missão, a de levar o evangelho, a boa nova, passa por levar coisas boas às pessoas, trazer sempre uma luz, uma mensagem de força, coragem e fé, um testemunho do "falar bem" das pessoas, das coisas, dos fatos da vida. E encontro argumentos na segunda leitura de hoje. Curioso que na igreja, pouco antes da missa começar, me pediram para fazer essa leitura. Eu lendo ali, na minha paróquia de origem, é fato que não acontecia há mais de 10 anos, desde que falei "verdades" demais e o padre da paróquia acabou me pondo pra fora da igreja. Mas isso é outra história (e longa), quem sabe um dia a lua não resolve contá-la...

Mas voltando à minha linha de raciocínio, nesta segunda leitura, Paulo pede para que "nos suportemos uns aos outros com paciência, no amor". Pena que na tradução e no nosso modo de falar de hoje, as pessoas não se apercebam que o sentido da palavra "suportar" não é o de "aturar", mas sim o de dar suporte, dar apoio uns aos outros, dar força um para o outro, o que requer paciência, mas sobretudo amor. Aquele que ama sempre fala coisas boas sobre e para o ser amado. Amar uns aos outros é, portanto, apoiar, ser paciente, oferecer ao outro a boa nova da vida que se apresenta, do dom que Deus nos dá a cada nascer do sol.

E o sol é uma estrela e as estrelas que vemos no céu são sóis distantes, alguns até que já não mais existem e que apenas sua luz nos chega até nossos dias. Assim, olhar para o céu não deixa de ser um olhar sobre o passado. Aí pensando em céus, estrelas, sóis, me lembrei de um fato curioso de minha infância. De madrugada, vendo TV, assisti ao final de um episódio daquela série bem antiga chamada "Além da Imaginação". Eram as últimas cenas, e se passavam numa nave espacial que voltava para a Terra após descobrir um planeta que havia sido habitado milênios antes por uma civilização avançadíssima e que havia sido destruído pela explosão de seu sol. A última cena era um padre, que fazia parte da tripulação questionando a Deus o por quê daquele povo ter sido extinto pela explosão do sol, que pelas contas dele [o padre] foi justo a luz da sua explosão que dois mil anos antes pairou sobre Belém anunciando a chegada do Messias. Descobri pesquisando a pouco na Internet (incrível o que se consegue achar no google) que trata-se de um conto chamado "A Estrela" do Arthur Clark, o mesmo autor de "2001, Uma Odisseia no Espaço". Pra quem se interessar, o conto (curtinho!) pode ser encontrado AQUI.

Está bem que é só um conto, mas me veio à memória porque me marcou à época e acabou vindo à tona novamente ao pensar sobre tudo que é preciso acontecer para que algumas coisas se tornem uma "boa notícia". Algumas vezes a boa notícia surge justamente de notícias ruins e que é quase uma opção nossa ressaltar os aspectos negativos (o que acabamos fazendo com frequência) ou buscarmos o lado bom, o lado positivo, o lado luz, que ilumina. Além disso, parte do confiar em Deus encontra-se nesse entregar-se aos seus planos, confiando que mesmo aquilo que aparentemente é ruim, loucura ou contradição, um dia vá trazer luz para alguém. Por vezes nem percebemos, mas sempre há perto de nós alguém que precisa de uma luz, luz que temos dentro de nós e que, em não raras vezes, surge das "explosões" pessoais que acontecem em nossa vida.

Felizes os que conseguem transformar dor em luz, tragédias em sucesso, doença em cura, tristeza em força e confusão em vida, levando ao próximo, à toda criatura, a boa nova do amor.

P.S.: ao procurar uma imagem para ilustrar esta postagem, achei um outro conto (mais lúdico esse) que é bem síncrono ao que acabei de escrever. Quem desejar ler sobre "O Choro da Estrela", leia AQUI.

sábado, 5 de maio de 2012

SUPER LUA


Muito tempo se passou desde a última vez que escrevi neste blog. Passaram-se também muitos acontecimentos que poderiam ter aqui ficado registrado, porém não foram, e se assim aconteceu, foi o melhor que poderia ter acontecido.

Mas hoje é diferente, é preciso escrever. Para alguém que, certo dia, passou a conversar com a lua, que aprendeu a admirá-la e que a teve como confessora de suas ideias, aquelas simples e as mais apaixonantes também, não poderia, hoje, deixar de falar-lhe mais de perto, quando ela própria, a lua, se aproxima do planeta, de nós e, mesmo correndo o risco de parecer um tanto quanto presunçoso, o que realmente não é o caso, de mim.

Os astrônomos têm uma série de explicações astrofísicas complexas para o fenômeno que chamam de "lua de perigeu" e que é conhecido também, mais popularmente, como "super lua". Mas para os que amam a lua, tudo é muito mais simples, ela apenas quer se aproximar para melhor nos ver, enquanto nós a queremos mais próxima para admirar sua beleza e para conversar com ela aproveitando-nos da sabedoria que ela acumulou após tantas idas e vindas, voltas e voltas, crescentes e minguantes, novas e cheias. Tal qual ela, também vamos e voltamos, andamos de forma circular, crescemos e minguamos, recomeçamos e atingimos nosso ápice para novamente recomeçar. 

Tantas fases, tantas eus, tantos nós, tantas luas, tantas dúvidas e apenas a certeza de que o ir e vir, o circular, o crescer e o minguar, a fonte e o ápice, são sempre "o melhor". Por vezes não entendemos os pontos soltos que só vêm a fazer sentido quando, olhando para trás, percebemos que todos esses pontos aparentemente soltos fazem, na verdade, parte de uma trama divina que nos leva a sermos pessoas melhores quando assim desejamos, quando assim decidimos ser, apesar de por vezes termos vontade de agirmos à base do "olho por olho, dente por dente". Como disse Gandhi, se não estou enganado, olho por olho e todos acabaremos cegos. Aprendamos pois com a divina sabedoria da lua a sermos nós mesmos, pois o que importa de verdade quando fazemos algo é o "de quem é" e não o "pra quem é". Integridade não significa estagnação. Integridade tem muito mais a ver com superação, aprendizagem, movimento em favor de se tornar o melhor que se pode ser. Como a lua que ora se aproxima, ora se distancia. Como a lua que ora brilha mais, ora brilha menos. Como a lua que ora está aqui, ora está acolá. Como a lua que em sua integridade de movimento, integraliza em nós a sabedoria que nos ajuda a sermos não super humanos, não é necessário, basta-nos ser, como Nietzsche dizia, humanos, demasiadamente humanos.

Assim, à aproximação da lua de hoje, sejamos capazes de aprender, respirando lenta e profundamente, pa-ci-en-te-men-te, com seu exemplo, a sermos melhores, a nos tornarmos próximos, a brilhar mais, curiosamente, a sermos mais humanos, humanos melhores, astro-humanos.

sábado, 10 de março de 2012

PROBLEMA DE COLUNA * (repost)

 * Já são quase dois meses sem postar nada no blog... ideias até existiram, mas por vezes é difícil transcrever tudo para um texto legal. Mas para não deixar tudo aqui às moscas, fui buscar no blog antigo uma crônica lá do começo de 2010 que escrevi enquanto estava na minha sala no campus do Agreste da UFPE...

Estou agora olhando através da janela da minha sala aqui na universidade. A vegetação típica do agreste pernambucano vai se esverdeando novamente com o pouco de chuva que caiu nos últimos dias. Ao fundo, carros vão e voltam pela rodovia que passa aqui perto. Para poder ver melhor, mexo a cabeça de um lado para o outro pois uma pilastra externa à janela divide em duas partes o que quero ver, atrapalhando-me de desfrutar da paisagem em sua totalidade. Um problema!

Depois de algumas mexidas de cabeça me dou conta enfim da existência da tal pilastra. Eu a via sim, ela até me atrapalhava de ver além, mas na verdade eu não a enxergava. Era um nada, um vazio que se posicionava bem em frente ao meu desejo de ver. E como toda pilastra, toda coluna, ela é imóvel, rígida, fixa, teimosa, persistente. Assim, acabei por me ater um pouco a ela e ao dar atenção a esta estrutura acabei por ver outras “paisagens”.

Vi que sem ela, o teto que está acima e que me protege do sol e da chuva que hoje aqui cai, viria abaixo. Vi que a existência dela demandou toda uma história anterior. Fiquei pensando em quem a projetou, nas horas de estudo na faculdade e nos inúmeros cálculos que precisou aprender para definir a resistência do material. Pensei ainda em quem a construiu, operários que talvez nunca tenham a chance de cursar uma faculdade, que tiveram a resistência de, sob sol escaldante, colocar a massa junto com o concreto em determinadas proporções e formas, calculadas por alguém desconhecido, para pessoas ainda mais desconhecidas. Pensei ainda em todas as pessoas envolvidas no processo burocrático que culminou no feitio daquela coluna: planos de governo, contatos, conchavos, orçamentos, politicagens, reuniões acadêmicas...

Assim, aprendi a ficar amigo da coluna em frente a minha janela e a respeitar sua história, seus dissabores, suas alegrias, suas vitórias, sua imparcialidade parcial de quem inevitavelmente só tem uma visão por estar fixa ante a minha janela.

Assim são também as pessoas que aparentemente nos atrapalham. Querem apenas um pouco de atenção, querem se sentir importantes porque de fato são. Chefes dizem que seus empregados são o problema por permanecerem estáticos; professores falam o mesmo quanto a seus alunos por serem teimosos. Esquecemos que só há chefes e professores quando existem empregados e alunos. São eles a estrutura que impede que o mundo venha abaixo, portanto, talvez seja melhor enxergá-los de verdade, ouvir suas histórias, ter novas visões de mundo através das janelas que foram posicionadas em nossas vidas.

O autor do belíssimo livro “O Mundo de Sofia” estava certo quando disse que perdemos a capacidade de ser filósofos quando crescemos, por deixarmos de nos admirar com as coisas simples (como a coluna que insistentemente está há mais de três meses na minha frente). Uma criança com certeza a teria notado e a teria questionado muito antes. Talvez por isso, como disse Jesus, o reino de Deus é delas, primordialmente, pois não se cansam de desfrutar, de se admirar e de questionar o mundo que se apresenta todos os dias ante seus olhos. Preciso aprender mais com as crianças e com as colunas imóveis diante das janelas de minha vida...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Pensando em Luiza. E quando ela voltar do Canadá?

Ela acorda, está longe de casa, fazendo intercâmbio. Está achando tudo uma experiência ímpar. Vez em quando bate saudade do país de origem, mas os meios de comunicação ajudam a suprir essa carência. Ela pode conversar com os pais e os amigos via skype pagando muito pouco, fica informada dos acontecimentos do país via portais de notícias terminados em .com.br, vê os principais tweetes dos amigos, posta algumas fotos e comentários no facebook, armazena outras no quase falecido Orkut, envia e recebe e-mails e, de uma hora para outra, por causa de uma propaganda de texto duvidoso estrelada por seu pai, vira celebridade instantânea e a piada da vez. Luiza tem 17 anos e só não faz isso ou aquilo, só não está aqui ou acolá, porque está no Canadá.

Não conheço a Luiza que ficou famosa da noite para o dia graças a Internet, portanto a história acima é só um exercício de abstração, mas esse mesmo exercício de abstração me faz pensar em como uma garota de 17 anos reage a uma mudança brusca de sua imagem sendo motivo dos mais diversos tipos de piadas. Eu mesmo me diverti lendo algumas postagens, vendo algumas montagens, assistindo alguns criativos vídeos no youtube. Até o Lenine começou show essa semana na Paraíba se dizendo agradecido por tanta gente que tinha vindo, menos Luiza, que estava no Canadá. Na saída do jogo do Náutico ontem, o comentário  de dois torcedores: “veio muito gente assistir o jogo, menos a Luiza...”  Parece uma brincadeira inofensiva, até poderia ser, mas brincadeiras inofensivas catapultadas pelo poder de multiplicação das redes sociais podem mudar completamente a vida de uma pessoa.

Não, esse não é um texto moralista, nem faz meu estilo tal tipo de texto, mas penso que o caso de Luiza de hoje, do suposto estuprador do BBB de ontem, do sucesso meteórico da música do Michel Teló após ter sido dançada pelo Cristiano Ronaldo em comemoração de gol do Real Madrid da semana passada, da cachorrinha morta pela dona, algumas semanas atrás, todos eles, devem nos levar a alguma reflexão.

Sucesso, invasão de privacidade, julgamentos sem tribunal, enfim, imagens sendo expostas, batidas e rebatidas. Passada a onda da exposição, porque ela passa, devido até a sua natureza descartável, fico pensando, apenas pensando, não estou emitindo opiniões, que isso fique bem claro:

Como ficará a cabeça da Luiza quando voltar para casa, encontrando os amigos, ouvindo os resquícios da piada em que se tornou?

E se o tal do Daniel lá do BBB não for culpado?

Como o Michel Teló vai lidar com a carreira se o sucesso da música-chiclete que ele canta for isolado?

O que levou mesmo uma mulher a matar uma cadelinha que ela mesma criava?

Como disse, eu mesmo gosto das criatividades que surgem especialmente na Internet a partir dos fatos do dia-a-dia, característica do povo brasileiro que ri de si mesmo e deixa de lado a sisudez tão comum em outros povos. Eu até espero que a Luiza leia meu texto, até porque dá pra fazer isso lá do Canadá (piada infame). Mas falando sério, é preciso incitar não apenas o lado criativo, mas também o lado crítico como forma de contrabalançar os pesos. Porém é importante também refletir sobre as propostas de intervenção na Internet que estão sendo levantadas no mundo inteiro, até aqui no Brasil, mas que essa semana foi protagonizada pelo congresso americano. Uma das grandes vantagens da Internet é essa liberdade. Não se deve tolher a liberdade com receio dos abusos, é preciso dar formação, educação e capacidade crítica não apenas aos mais jovens como insistem alguns, mas à sociedade toda, para que assim ela possa discernir o limite entre a piada e o drama, entre o julgamento e a análise dos fatos, entre o adequado e o inútil, entre o que constrói e o que afeta negativamente a vida das pessoas. É preciso ensinar a pensar, é preciso ensinar a enxergar outros ângulos de um mesmo fato ou notícia, é preciso ensinar a se posicionar, mas sobretudo, é preciso ensinar a reconhecer os próprios erros, as próprias conclusões precipitadas, os próprios comportamentos impróprios. Só assim poderemos ser melhores, e com a tecnologia como aliada, poderemos ir cada vez mais longe.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Contemplação

Sempre tive uma inveja (inveja das boas!) dos poetas, da capacidade de síntese que eles possuem, de como conseguem dizer em poucas palavras aquilo que nem a muito custo e com muitas palavras somos capazes de expressar. Nessas horas, até por uma questão de respeito à beleza, o melhor é calar-se e contemplar. Assim, hoje, estou me propondo a exercitar a contemplação, o sentir, o me deixar levar pelas sincronicidades da vida. E convido a você que, por essas sincronias da vida chegou até esse blog, até essa postagem, a fazer o mesmo: contemplar, sentir, recordar, imaginar, sorrir, chorar, emocionar-se enfim, enfim...


Para ajudar no exercício a poesia Cântico Negro, de José Régio...

CÂNTICO NEGRO (José Régio)
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
 
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

sábado, 14 de janeiro de 2012

Na Ponta dos Pés (Sobre a Fotografia)

Eu devo ter uma relação um tanto quanto excêntrica com a fotografia. Se por um lado prefiro sempre fotografar a ser fotografado, desejo um dia (espero que não muito longe) fazer um curso de fotografia e até estou começando a usar fotos como elemento pedagógico em minhas aulas, por outro, sou capaz de fazer uma viagem a um lugar novo, de posse de uma câmera e tirar praticamente nenhuma  foto, por me recusar a “ver” o mundo pelas lentes da máquina, por me recusar a gravar uma bela imagem em um cartão de memória ao invés de na minha própria memória.

É difícil explicar essa contradição de alguém que gosta de fotografar e se recusa a fazer certas fotografias, justo àquelas consideradas mais especiais. Certamente contradições não são para serem explicadas até porque se isso fosse possível em algum momento a contradição deixaria de existir, e como todos têm suas contradições, alguns mais, outros um pouco menos, penso que das minhas contradições esta talvez seja a mais amena e a mais poética inclusive. É como se algumas imagens, essas mais especiais, fossem reservadas apenas a mim e às histórias que minha mente é capaz de contar ao “puxá-las pela memória”. Além disso, nunca se sabe quando simplesmente se abrirá os olhos e se estará diante “da” imagem.

Fico imaginando uma cena até certo ponto cômica. O cara acorda de madrugada e de repente se depara com a mulher que ama andando pelo quarto nas pontas dos pés. Ela acordou há pouco tempo, com o cabelo assanhado, usando algo estranho como um blusão de frio fora de moda, está sem maquiagem, está sem acessórios, talvez com uma ou outra olheira, a depender se demorou ou não para dormir. Ele abre os olhos e a vê assim, e assim ele a percebe como ainda mais linda. A parte cômica de minha mente criativa para essas inutilidades começa imaginando que o cara é um aficionado por fotografias e se assim for ele não pode perder aquela imagem, ele precisa capturá-la, prendê-la para sempre no seu cartão de memória de 32GB recém comprado na 25 de março. Ele grita pra ela: “pára!”. Ela obviamente leva uma baita susto porque julgava que ele estivesse dormindo. Se a pobre coitada não tiver uma síncope neste momento, certamente ficará sem entender nada, pensará mil coisas, principalmente ao vê-lo correr em direção a uma máquina fotográfica. Mas como diz no livro d’O Pequeno Príncipe, “quando o mistério é muito impressionante, a gente não ousa desobedecer”. Assim, ela obedece e fica ali parada como que numa estranha brincadeira de estátua. Ele então liga a máquina, a espera iniciar, faz ajustes de qualidade de imagem, zoom, foco, plano de fundo, luz... o quarto ainda escuro...  ele precisa ajustar o flash ou seria melhor acender alguma luz, pensa ele. Decide acender a luz. E a pobre de sua amada lá, começando a sentir cãibras nos pés. Ela enfim reclama e ele pede um pouco mais de paciência da parte dela. Ela exige ao menos uma explicação, começando já a racionalizar a inusitada situação. Ele, olhando para a máquina enquanto faz os últimos ajustes diz: é que eu acordei e você estava tão linda andando na ponta dos pés, com esse blusão, cabelos assanhados, sem maquiagem, sem acessórios... ele fala isso e percebe que só recebeu de volta o silêncio. Levanta a cabeça e ela não está mais lá, correu para o banheiro. Ele pergunta o que aconteceu e ela de lá dentro grita que nunca ele irá fotografá-la assim. Ela vai trocar a roupa, se maquiar, disfarçar as olheiras, escovar os cabelos e aí sim ele poderá tirar quantas fotos desejar. Duas horas depois, ele já tendo tirado um grande cochilo, começa a sessão de fotos, que será complementada por uma sessão de pequenas correções no photoshop. Ele não terá àquela imagem, àquela que tanto o sensibilizou, nem no cartão de memória, e como sua memória pessoal não havia sido treinada para gravar a cena no HD de seu coração, nem em lugar nenhum. Ele simplesmente a terá perdido para sempre.

Enquanto escrevo, a chuva começa a cair do lado de fora de casa. Olho para a janela e me deparo com uma dessas belas cenas. Quem me conhece sabe como gosto da chuva e de dias chuvosos. Até já escrevi sobre isso aqui mesmo neste blog. Meu celular que faz boas fotografias está a menos de um metro. Mas nem todos os megapixels da câmera serão suficientes para capturar o que sinto agora ao ver a chuva, as memórias que me vêm, desde a infância até o dia de hoje... assim, dou um sorriso complacente para o celular e viro minhas costas para ele e fico a contemplar a cena, imaginando histórias mil e quem sabe uma nova crônica sobre a chuva, sobre a lua, ou sobre o dia em que as duas se encontraram...

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Luz

Conforme prometido na postagem anterior, onde falava das ideias que surgem quando se passa hora e meia com o pescoço voltado para o norte e para cima buscando ver estrelas cadentes que não caem, apresento nesta nova postagem a ideia que prometi publicar no dia dedicado aos reis magos que vieram do oriente para visitar o menino Jesus, festa popularmente conhecida como festa de reis (liturgicamente, a festa da epifania do Senhor). Ou seja, hoje!

Esclarecendo logo o nome pouco comum ,“epifania” significa o mesmo que “manifestação”. Assim, temos a festa da manifestação de Deus na humanidade. Para os cristãos do oriente esta festa chega a ser mais importante que o Natal, isso porque eles consideram que o nascimento de Jesus é realmente um marco, mas se ele [o nascimento] não tivesse se manifestado ao mundo (epifania), a manjedoura pobre, o Menino Deus nascido, os pais comovidos, os pastores vigilantes e os anjos cantarolantes, seriam uma bela, mas obscura cena. Deus não envia seu filho a apenas um povo e os magos vindos de lugares distantes, guiados pela estrela do oriente, são a prova de que o mistério deve ser revelado. “Deus é criança, nunca vimos coisa igual” diz uma música religiosa do período natalino. Esta é a boa nova que deve ser manifesta ao mundo, proclamada aos seus quatro cantos.

Os literais a que me referi também no texto anterior, por favor podem ir navegar em outros blogs, porque não estarei falando aqui de história, nem tão pouco de teologia. Meu olhar aqui será guiado pela estrela da poesia. Pouco importam os dados concretos, exatos, longitudes, latitudes, magnitudes, datas, cometas... a estrela que ora passarei a refletir não está no céu; está, quando assim deixamos, dentro de cada um de nós.

Lembro dos tempos de minha infância, quando era bem mais comum faltar luz, que quando isso acontecia à noite, o bairro mergulhava na escuridão e num silêncio sepulcral crescente, quebrado vez ou outra pelo barulho do motor de um carro ou de uma sirene ao longe. Todos ficávamos meio que perdidos, meio que sem ter o que fazer, com medo de sair de casa, ansiosos pela volta da energia. Por vezes ela demorava a voltar e a sensação de viver nas trevas se aprofundava. Quando de repente, ela surgia. Fiat Lux! Faça-se a luz! Então vinha a parte mais divertida para o eu menino, que era ouvir os gritos de alegria que ecoavam de forma uníssona no bairro. “O que era trevas, tornou-se luz”, diz outra canção típica desse período natalino. Lembrar desse fato me faz imaginar qual não deve ter sido a alegria daqueles homens, considerados como sábios e reis da época, advindos de diferentes povos e nações, ao ver brilhar no céu, uma luz que os chamava para sair das trevas. Sei lá, acho a teologia da falta de luz na minha infância mais sofisticada que muita teologia adulta “iluminada”...

Por vezes nos encontramos na escuridão. Ansiosos, sem saber o que acontecerá mais a frente, acabamos paralisados por medo da queda, esquecendo que na vida, o não caminhar já se configura em si como uma queda. Caímos ainda em pé, com as pernas amarradas por um fio de lã, como dito no filme Melancolia. E ali, ao chão, tremendo de medo e frio, lançamos a Deus, em sequência, um grito de dor, um grito de clamor e um grito de entrega. Esse último o mais angustiante. Embora, ao mesmo tempo, pareça trazer uma espécie de alívio, pois é o grito que se configura a desistência do tentar. A questão é que Deus parece nunca desistir de nós e quando nos encontramos sem esperanças, surge uma luz. Uma luz que não só aquece e dá forças, mas como também ilumina o caminho a nossa frente, mostrando as dificuldades, que sim, continuam lá, do mesmo jeito, intocadas até. Mas essa “manifestação” da luz mostra essas dificuldades com clareza, nos permitindo fazer escolhas, traçar rotas melhores, determinando então assim o nosso caminho número #1. Nessas horas percebemos como a escuridão também desempenha importante papel em nossas vidas. Como diz o Lulu Santos, “não haveria luz se não fosse a escuridão”. É preciso mesmo, reconheço, enfrentar alguns sacrifícios, algumas dificuldades, para poder viver as alegrias, a luz. Como disse a rosa d’O Pequeno Príncipe, “é preciso enfrentar duas ou três larvas se quisermos ver as borboletas”.

Que neste dia da epifania do Senhor possamos fazer memória das pessoas que foram e que são luzes em nossas vidas, em nossas caminhadas. Que servem de estrelas-guias na busca pelo nosso menino interior, já que o próprio Jesus disse que o Reino de Deus é das crianças. Que não esqueçamos também de sermos um pouco estrela, ainda que cadente, a buscar realizar os sonhos, os desejos, os pedidos, das pessoas que mais precisam de nosso apoio, do nosso próximo, que em não raras vezes, está bem próximo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Chuva de Estrelas


Postagens no Facebook, chamadas no Twitter, notícias nos principais portais, enfim, o assunto online da madrugada era a passagem de cerca de 95 meteoritos pelo céu nordestino durante esta madrugada. Na verdade, aerólitos, nome mais exato segundo os astrônomos, para os restos de meteoros que se queimariam ao entrar em contato com a atmosfera terrestre, causando um efeito de estrelas caindo do céu, de onde vem o nome mais popular: estrelas cadentes. Reza a lenda que quem avista uma “estrela cadente” pode fazer um pedido.

Tudo parecia favorável. Morando em Olinda, cidade litorânea nordestina. Janela da casa voltada para o norte, por onde passariam os tais aerólitos. Insônia à hora programada para o “espetáculo” (uma verdadeira “chuva de estrelas”). 95 pedidos por fazer (embora eu só precisasse na verdade de um único) e... e... e...  nada! Pois é, não consegui avistar nenhuma única estrela cadente. Isso, olhando para o céu por quase uma hora e meia. Fui até o Twitter ver se os outros estavam vendo o que eu não via e pra minha surpresa, gente em cidade a menos de 150km presenciando um show. Baixei pelo celular um aplicativo android que é uma bússula para ver se a frente da minha janela dava mesmo para o norte ou se eu estava desnorteado. Não estava, o norte era ali mesmo. E em meio à espera das tais estrelas em queda, em meio à busca de explicações mais físicas, mais astronômicas, comecei a divagar em pensamentos, tentando descobrir alguma sincronicidade no que estava acontecendo, ou melhor, no que não estava acontecendo.

E aí veio um clarão! Não, não era uma estrela cadente. Era uma inspiração para escrever minha primeira postagem no novo ano de 2012. É incrível como olhar para o céu por mais de uma hora pode trazer à tona tantas ideias, algumas boas, outras nem tanto, mas ainda assim, supostamente, ao menos pra mim, interessantes. Acho que por isso o Domenico Demasi defende o “ócio criativo”. Em meio aos afazeres do dia, preocupados demasiadamente com o trabalho que nos espera, com o tanto de coisas que dependem de nós, em meio às “dores de cabeça” cotidianas, simplesmente acabamos não deixando tempo para que a inspiração divina ou humana (escolham qualquer uma, pra mim é a mesma) flua em nós. Já contei aqui neste blog como a lua me ensinou a importância de olhar mais para a natureza, mas confesso que fiquei extasiado apenas com a beleza da lua e das histórias que ela passou a me contar sobre as pessoas que observava. Hoje, de onde eu estava, voltado para o norte (até dor no pescoço me deu de ficar na mesma posição por tanto tempo), mesmo olhando de soslaio para o leste e para o oeste, não dava para ver a lua, mas dava pra ver as estrelas, o céu ao fundo, nuvens soprando-se de lá pra cá, e percebi a importância do contexto, coisa que o pessoal da Gestalt na psicologia e da Pragmática na linguística, já chamava atenção há tempos.

A não presença da lua, que devia estar dormindo ou vendo o show das estrelas cadentes de onde se escondia, acabou por ser o elemento motivador dessa minha reflexão sobre o contexto. Tentar entender a lua fora de seu contexto é um grande erro. Eu mesmo admiti a pouco que ela tentou me alertar para a natureza como um todo e eu acabei fixando minha atenção apenas em seu brilho e em suas histórias. Só que tudo na lua, inclusive seu luar prateado e as tantas coisas que consegue observar de lá de cima, dependem do contexto no qual ela está inserida, ou seja, das estrelas que gravitam em seu entorno (os literais, que esquecem exatamente do contexto, por favor, não me venham falar que estrelas não gravitam em torno da lua, porque eu não estou falando de astronomia e sim de poesia), das nuvens que ora encobrem a sua luz, ora deixam passagem para inundar-nos com sua beleza, e havia também o vento, as árvores, as casas avizinhadas, ao longe sons variados apesar do silêncio noturno e, não menos importante, a expectativa de um aerólito cruzar o céu de fundo, o que influencia, e muito, a forma como a gente observa o mundo.

Concluí que querer entender a lua sem levar em consideração tantos fatores, tantas fases, é mesmo muita pretensão, presunção até. Apenas a paciência, coisa que nunca tive em estoque, parece ser a chave para compreender não apenas a lua, mas principalmente o mundo que a cerca, que só faz sentido também, gestáltica, pragmática e empiricamente, com a presença dela. Tudo se completa, tudo se liga, tudo faz sentido quando nos permitimos ter a devida paciência, o devido tempo para observar os detalhes, observar o texto e o contexto, o ponto e o contra-ponto, o fundo e a figura. A racionalidade cartesiana que nos tirou um pouco da magia do “todo” ao nos chamar a atenção apenas para a “parte”, precisa ser revista. Tem sua validade, o que não exclui, porém, que nem sempre tudo funciona de forma assim tão cartesiana como, por exemplo, se sentar à beira de uma janela, em uma dada hora, com o olhar voltado para uma certa direção, contar umas tantas 95 estrelas cadentes e fazer uns tantos 95 desejos diferentes. Por vezes, a magia está quando nos deitamos de forma incomum na cama, em um horário não planejado, com olhos fechados, sem paciência para contas e achando que desejos não são realizáveis. Por vezes a magia acontece assim mesmo, apesar de nossas resistências, de nossos problemas, de nossas dores. Às vezes ela nos chega por um simples toque, num espaço de não mais que um minuto, quando nos permitimos respirar sozinhos ou com a ajuda de alguém, quando permitimos que o outro seja solidário em nossas dores, quando entendemos que o “nós” está dentro de um contexto maior do qual o outro também faz parte, quer queiramos ou não.

Eu não vi a chuva de estrelas, mas vi o que apenas a expectativa da passagem delas pode trazer. Acho que entendo um pouco melhor a alegria dos reis magos ao avistarem a estrela do oriente que trouxe o Menino Jesus. Mas bem, isso já faz parte de uma outra ideia que tive vendo o “no show” das estrelas cadentes e que, se tudo der certo, dia 6 de janeiro, dia da festa de reis, dia da epifania do Senhor, se transformará em mais uma postagem desse blog.