quinta-feira, 7 de junho de 2012

"E Sereis Como Deuses..."


Lembro que o que salvou minha fé quanto à divindade da Bíblia foi a descoberta de sua humanidade. Adaptando citação de Santo Agostinho para o Cristo, mas que se adequa perfeitamente à origem dos livros bíblicos, estes “são tão humanos, mas tão humanos, mas tão verdadeiramente humanos que só poderiam ser divinos”.

O Gênesis é, por exemplo, um grande livro de poesias, o que não o torna menos verdadeiro, ao contrário, pois as poesias têm o grande poder catalisador da verdade imbuído dentro de si e só quem um dia amou verdadeiramente sabe como algumas palavras têm força de realidade.

Pois bem, mas isso é para citar a história lá de Adão, Eva e a Serpente. Deus cria o homem e a mulher, dá a eles o paraíso, apenas pedem que não comam os frutos de uma determinada árvore e Ele, Deus, faz isso não com o sadismo que alguns costumam atribuir a Ele, mas sim como uma mãe que pede que seu filho não coma algo que lhe faça mal, pois a mãe sabe que o filho irá sofrer com aquilo e mais ainda, que ela própria irá sofrer ao cuidar do filho doente, não pelo “cuidar” propriamente dito, ela até prefere estar ali ao lado, mas pela aflição de ver a quem tanto ama sofrer.

A serpente promete aos habitantes do Éden que se eles desobedecerem e comerem do fruto proibido conhecerão a tudo, serão como deuses. Querer ser igual a Deus, esse é o grande pecado original e não a forçada conotação sexual que um bando de moralistas de pouco (ou nenhum) conhecimento exegético e/ou com tendências manipuladoras utiliza. Mas em concordando com isso, um outro grupo pergunta, ironicamente, se Deus não estaria com medo da “concorrência”.  Ora, novamente a superficialidade impera. O pecado nunca é na verdade contra Deus, o pecado é contra si mesmo, é algo que faz mal a nós mesmos e o “não pecar”, mais do que uma imposição contratual é, em verdade, uma prece pela nossa própria felicidade. Como dizia uma canção religiosa antiga, “a melhor oração é amar”.

E não há pecado maior do que querer ter controle, como um deus (em minúsculas), sobre tudo e sobre todos. E o termo “original” associado a este pecado de querer ser como deuses, reside na tendência que todos nós temos de querer controlar todos os aspectos de nossas vidas e também os aspectos da vida do outro, dos outros, do mundo se possível. Esquecemos que mal agüentamos os fardos que a vida nos coloca, as preocupações pequenas, tais como, contas a pagar, e queremos ter controle sobre tudo, passado, presente, futuro, mudando a nosso bel prazer os rumos da história para que se adequem à nossa vontade. Eis a visão do inferno, todos como deuses, adaptando o mundo às suas vontades próprias... “conflitos de interesses” seria ainda um termo muito superficial para o caos que se estabeleceria. Não é à toa que a Bíblia diz que foram expulsos do paraíso, mas não foi Deus quem os expulsou, eles, ou melhor, nós escolhemos isso quando,deixando de aproveitar a vida, passamos a querer controlá-la. Bendito sejam os limites, são eles que nos tornam mais humanos, mais simples e certamente mais felizes.

Recentemente senti isso em condições nada agradáveis, mas é preciso aprender com os limites, na verdade a aprendizagem acontece quando chegamos ao limite. Cuidar de quem se ama quando essa pessoa está doente não é fácil. Ver as consequências da doença na pessoa, a dor, o sofrimento, a tensão, o medo, é algo que mexe profundamente com alguém. Nessas horas a noção de controle não funciona tanto, pois vemos quão pequenos somos e tudo o que desejamos parece ser apenas que a dor da pessoa a quem tanto amamos se dissipe, e quando não conseguimos nos bate um certo desespero e até uma certa culpa, fardo grande que jogamos nas nossas próprias costas. Nessas horas limítrofes nos bate a humanidade e deixamos de lado nossa tentação de a tudo controlar. Por vezes precisamos sair de cena e deixar que alguém, mais adaptado assuma o “comando” e entregamos a pessoa amada a quem melhor pode cuidar dela, que pode até ser um médico sisudo envolto em sua tecnicidade ou mesmo uma enfermeira rabugenta cansada de tantos plantões.

Não é fácil, mas é preciso! E quando nos comprometemos em dar o nosso melhor, respeitando a nossa humanidade, os nossos limites, certamente é mais fácil que deixemos os outros darem seu melhor. E quando tudo funciona bem, quanta felicidade em poder ver o brilho retornar aos olhos da pessoa a quem tanto amamos nos mostrando que ela se recupera, que não sente mais tanta dor. Nessas horas, entende-se que ser feliz depende de muito pouco e não do controle do mundo, do destino, da vida. Isso deixamos para Deus, que por sua vez, sabiamente, pede sempre nossa ajuda até onde podemos ir, pede o nosso melhor.

Amar alguém, estar próximo nos momentos bons é demasiado fácil. Ser companheiro na dor e preferir estar do lado de quem se ama nos momentos difíceis, mesmo sem saber direito o que fazer, mesmo sem poder curar a dor da pessoa, mesmo sujeito a demonstrar tão publicamente seus próprios limites, suas  próprias fragilidades, eis aí o verdadeiro sentido do amar.

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