Lembro que o que salvou minha fé
quanto à divindade da Bíblia foi a descoberta de sua humanidade. Adaptando
citação de Santo Agostinho para o Cristo, mas que se adequa perfeitamente à
origem dos livros bíblicos, estes “são tão humanos, mas tão humanos, mas tão
verdadeiramente humanos que só poderiam ser divinos”.
O Gênesis é, por exemplo, um
grande livro de poesias, o que não o torna menos verdadeiro, ao contrário, pois
as poesias têm o grande poder catalisador da verdade imbuído dentro de si e só
quem um dia amou verdadeiramente sabe como algumas palavras têm força de
realidade.
Pois bem, mas isso é para citar a
história lá de Adão, Eva e a Serpente. Deus cria o homem e a mulher, dá a eles
o paraíso, apenas pedem que não comam os frutos de uma determinada árvore e
Ele, Deus, faz isso não com o sadismo que alguns costumam atribuir a Ele, mas
sim como uma mãe que pede que seu filho não coma algo que lhe faça mal, pois a
mãe sabe que o filho irá sofrer com aquilo e mais ainda, que ela própria irá
sofrer ao cuidar do filho doente, não pelo “cuidar” propriamente dito, ela até
prefere estar ali ao lado, mas pela aflição de ver a quem tanto ama sofrer.
A serpente promete aos habitantes
do Éden que se eles desobedecerem e comerem do fruto proibido conhecerão a
tudo, serão como deuses. Querer ser igual a Deus, esse é o grande pecado
original e não a forçada conotação sexual que um bando de moralistas de pouco (ou
nenhum) conhecimento exegético e/ou com tendências manipuladoras utiliza. Mas
em concordando com isso, um outro grupo pergunta, ironicamente, se Deus não estaria
com medo da “concorrência”. Ora, novamente
a superficialidade impera. O pecado nunca é na verdade contra Deus, o pecado é
contra si mesmo, é algo que faz mal a nós mesmos e o “não pecar”, mais do que
uma imposição contratual é, em verdade, uma prece pela nossa própria
felicidade. Como dizia uma canção religiosa antiga, “a melhor oração é amar”.
E não há pecado maior do que
querer ter controle, como um deus (em minúsculas), sobre tudo e sobre todos. E
o termo “original” associado a este pecado de querer ser como deuses, reside na
tendência que todos nós temos de querer controlar todos os aspectos de nossas
vidas e também os aspectos da vida do outro, dos outros, do mundo se possível.
Esquecemos que mal agüentamos os fardos que a vida nos coloca, as preocupações
pequenas, tais como, contas a pagar, e queremos ter controle sobre tudo,
passado, presente, futuro, mudando a nosso bel prazer os rumos da história para
que se adequem à nossa vontade. Eis a visão do inferno, todos como deuses,
adaptando o mundo às suas vontades próprias... “conflitos de interesses” seria ainda
um termo muito superficial para o caos que se estabeleceria. Não é à toa que a
Bíblia diz que foram expulsos do paraíso, mas não foi Deus quem os expulsou,
eles, ou melhor, nós escolhemos isso quando,deixando de aproveitar a vida,
passamos a querer controlá-la. Bendito sejam os limites, são eles que nos
tornam mais humanos, mais simples e certamente mais felizes.
Recentemente senti isso em
condições nada agradáveis, mas é preciso aprender com os limites, na verdade a
aprendizagem acontece quando chegamos ao limite. Cuidar de quem se ama quando
essa pessoa está doente não é fácil. Ver as consequências da doença na pessoa,
a dor, o sofrimento, a tensão, o medo, é algo que mexe profundamente com
alguém. Nessas horas a noção de controle não funciona tanto, pois vemos quão
pequenos somos e tudo o que desejamos parece ser apenas que a dor da pessoa a
quem tanto amamos se dissipe, e quando não conseguimos nos bate um certo
desespero e até uma certa culpa, fardo grande que jogamos nas nossas próprias
costas. Nessas horas limítrofes nos bate a humanidade e deixamos de lado nossa
tentação de a tudo controlar. Por vezes precisamos sair de cena e deixar que
alguém, mais adaptado assuma o “comando” e entregamos a pessoa amada a quem
melhor pode cuidar dela, que pode até ser um médico sisudo envolto em sua
tecnicidade ou mesmo uma enfermeira rabugenta cansada de tantos plantões.
Não é fácil, mas é preciso! E
quando nos comprometemos em dar o nosso melhor, respeitando a nossa humanidade,
os nossos limites, certamente é mais fácil que deixemos os outros darem seu
melhor. E quando tudo funciona bem, quanta felicidade em poder ver o brilho
retornar aos olhos da pessoa a quem tanto amamos nos mostrando que ela se
recupera, que não sente mais tanta dor. Nessas horas, entende-se que ser feliz
depende de muito pouco e não do controle do mundo, do destino, da vida. Isso deixamos
para Deus, que por sua vez, sabiamente, pede sempre nossa ajuda até onde
podemos ir, pede o nosso melhor.
Amar alguém, estar próximo nos
momentos bons é demasiado fácil. Ser companheiro na dor e preferir estar do
lado de quem se ama nos momentos difíceis, mesmo sem saber direito o que fazer,
mesmo sem poder curar a dor da pessoa, mesmo sujeito a demonstrar tão
publicamente seus próprios limites, suas próprias fragilidades, eis aí o verdadeiro sentido do
amar.

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