sábado, 18 de junho de 2011

Vovó, Deus te faça feliz! * (repost)

 * Crônica passada, publicada em 19 de junho de 2007. Hoje faz 4 anos que minha avó materna se foi. Republicando esse texto quero fazer memória não de sua morte, mas de sua vida.

Ontem foi um dia triste. Até então, eu me orgulhava e me sentia um afortunado por ter os quatro avós. Mas minha avó materna nos deixou nos primeiros raios de sol do dia de ontem. Morreu em casa, cercada pelos filhos (especialmente as filhas), pouco-a-pouco, à moda antiga, sem médicos, enfermeiras, tubos, soros... foi um final digno, para uma vida digna. Morreu como viveu, cercada de muito carinho, dando muito carinho; não à toa, uma pequena multidão acompanhou seu velório que se estendeu durante as horas seguintes e terminou com o sepultamento aos últimos raios de sol deste mesmo dia.

Essa pequena multidão foi formada por filhos, netos, bisnetos, genros, amigos e amigos de todos nós que vieram em solidariedade. Embora tenha sido um momento triste, foi bom ver como ela era querida por tanta gente, ver como ela em sua vida, soube acolher com muita alegria cada um que chegava, cada um que por lá passava. Ela fez valer à pena a vida que viveu.

Contudo, eu e minha mania de imaginar outros cenários, já havia me feito esta pergunta antes e me perguntei ainda mais no dia de ontem: e se ela tivesse feito outras escolhas? Explico melhor...

Minha avó seguiu à risca o “script” das mulheres de seu tempo, nascidas no interior, casou-se cedo, teve seus filhos, cuidou da casa, respeitou o marido nos 59 anos e meio de casamento... talvez por ter seguido esse roteiro não tenha aprendido a ler, para não ir contra a mãe dela não aprendeu a tocar um instrumento que era seu desejo de infância. Também nunca fez viagens longas e acabou dia após dia se acostumando com a vida que tinha, aceitando mansamente o destino que lhe cabia.

Uma parte de mim até diz que saber aceitar as conseqüências das escolhas (ainda que forçadas por padrões sociais) seja uma dádiva, porém outra parte insiste em trazer à tona o “e se...?”.

Lembro de algumas cenas que me marcaram: ela parando tudo para me ouvir ler; ela deixando seus afazeres para ver meu irmão tocar um violão; ela atenta quando contávamos as histórias dos locais que visitamos. Uma das últimas, que contei foi de uma trilha que fiz em Serra Negra. Ela parecia viajar junto com a gente nos nossos relatos.

Sei bem que quem estiver lendo essa crônica pode até já ter chegado à conclusão de que se ela tivesse feito outras escolhas muito provavelmente eu nem existiria e consequentemente não estaria aqui escrevendo. Penso que isso seja mais do que certo, mesmo porque, desde que eu comecei a escutar as histórias sobre a minha avó, mesmo sabendo que ela sempre dignamente cumpriu seus papéis de esposa e mãe, no fundo talvez ela não tivesse nascido para o casamento e a maternidade. Talvez ela mesma me reprovasse se me visse escrevendo isso, era o paradigma dela, o paradigma que orientou suas escolhas e normalmente não aceitamos que questionem nossos paradigmas.

Ontem ao pensar nisto, senti uma responsabilidade muito grande. Percebi quantos sacrifícios foram necessários para que eu estivesse na frente desse computador, escrevendo esta crônica. Sacrifício dela, mas também de meu avó, de meus pais, de tantas pessoas que passaram pela minha vida. Se existe um lado bom de velórios e enterros, é de que, mais do que pensar em morte, eles nos forçam a pensar na vida, na nossa própria vida, já que ainda, ao menos por enquanto, estamos vivos. Estarei eu sendo digno de receber algo tão precioso como a vida? Será que as decisões que estou tomando hoje afetarão as pessoas que virão depois de mim? Em épocas de aquecimento global, guerras, fome, penso que a morte é a única coisa que ainda evita que caíamos na ilusão de que nossos atos são inconseqüentes.

Mas como sempre acontece quando escrevo, fui falando, falando, falando e nem entrei nas razões do título desta crônica. Penso então que é um bom fechamento proceder com as devidas explicações. No interior, ainda é muito comum pedir “abença!”(corruptela de “me dê a sua bênção!). Todos normalmente respondem “que Deus te abençoe”, mas minha avó era diferente pelo menos nisso, pelo menos nisso ela não seguia os padrões, ela sempre respondia “que Deus te faça feliz!”. Fiquei triste por não ter escutado essa resposta da última vez que lhe pedi “abença!” (ela já não falava mais). Porém sei que ela, agora junto do Pai, está diretamente pedindo a Ele que nos faça hoje e sempre, muito felizes, seja seguindo as normas como ela fez, seja enfrentando os padrões estabelecidos, como talvez um dia ela sonhou em fazer.  Obrigado vovó! Até um dia!

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