Semanas antes do São João é sempre a mesma coisa. Minha mãe ouve recomendações sobre pessoas que vendem pamonhas e que, “dizem”, são boas. Eu contrario qualquer princípio do Direito de inocentes até que se prove o contrário, até porque isso é culinária e não uma sessão de um fórum qualquer da vida e no meu julgamento qualquer pamonha que não seja a da minha mãe é culpada, digo, fraquinha, até que se prove o contrário. Mas quem sabe esse ano...
Compram-se amostras. Experimento de uma, experimento da outra, nada que realmente empolgue. As “provas” desse ano até que não foram tão ruins, dava pra comer uma. Duas já seria um exagero e muito boa vontade, coisa que não tenho quando o assunto é pamonha. Mas não tem jeito, ainda não foi dessa vez.
Minha mãe diz: “eu faço as pamonhas, mas alguém tem que ralar o milho”. Em “alguém” leia-se eu. Isso porque há anos minha mãe descobriu um talento inesperado em seu filho primogênito, o de ralar milhos sem ralar os dedos. Alguns dirão que ralar milho é coisa do passado, que existem os liquidificadores e os processadores, mas esqueçam, está aí o segredo da pamonha de minha mãe, ou pelo menos um deles. Não há processador e principalmente liquidificador que consigam o mesmo rendimento e o mesmo sabor para estas iguarias juninas. Os outros segredos, diz ela, é não ter medo de colocar açúcar (odeio pamonhas que ficam com gosto de sal) e esperar o tempo suficiente para o cozimento (uma hora após a fervura, no mínimo).
Mas eu tenho certeza que há outro segredo e esse é bem difícil de copiar. O amor dela que vai junto com a pamonha, a forma como ela consegue envolver a família em todo o processo (eu sou o ralador). Ontem não foi diferente, foram quase três horas ralando uma “mão” de milho, com um olho no ralo e outro na TV vendo a brilhante conquista do Santos na Libertadores. Meu pai resolveu ajudar e tornou tudo mais engraçado com ele e minha mãe fazendo de conta que discutiam, minha mãe reclamando dele e ele fazendo de suas graças, parando mais que tudo para ver o jogo. Coisas de meu pai.
Eu tenho a clara impressão de que se um dia encontrarmos uma pamonha tão boa, ainda encontraremos algum defeito, nem que seja mínimo, para termos a desculpa para nos juntar de novo nesse processo artesanal, familiar, que deixa a pamonha com um gosto especial, gosto de família, gosto de vida em comunidade, gosto de alegria, gosto de amor. Como diz uma propaganda de cartão crédito, “tem coisas que o dinheiro não compra”.
Um bom São João a todos!
Delícias, impagáveis delícias. Diga-me, há preço que se pague pelo afeto, pelo carinho, pela gentileza? Há como quantificar o bom gesto, medi-lo? Há delícia, prazer maior na vida que o carinho depositado nas coisas mais comezinhas? Há como se aquilatar carinho de mãe? Como medir o amor fraterno? Os gregos o categorizavam em eros, mais carnal, psiquê, espiritual, storge, afetuoso, agape, espiritual. Aceitemos suas diferentes formas. Há amor nas coisas mais simples. Tocou-me esse gesto simples de filho que resultou nessa iguaria de mãe. Não deveriam ser assim as coisas?
ResponderExcluirUm beijo.
Um adeus.
Até qualquer dia, que nunca mais será, Luiz.
Pois é, pessoa anônima, acho que deveriam ser assim sim, mas nem sempre a vida nos permite assim ser...
ResponderExcluirNão entendi o "até qualquer dia, que nunca mais será". Espero que voltes a visitar o blog outras vezes e a deixar seus comentários.