terça-feira, 21 de junho de 2011

A Que Ponto Cheguei!


No filme “A Origem” o enredo gira em torno da afirmação de que na origem (daí, creio eu o título em português) de grandes mudanças estão ideias simples que são inseridas (no original americano o filme se chama The Insertion) em nossas mentes. A simplicidade dessas ideias faz com que as mesmas passem despercebidas por nossos “filtros” mentais. Elas então se instalam e começam a provocar alterações que só serão percebidas mais tarde, por vezes tarde demais.

Ontem me dei conta que isso em algum ponto aconteceu comigo. Difícil saber quando e qual ideia foi inserida. Certo apenas que isso me transformou numa pessoa bem diferente daquela que fui um dia e que teimava em negar até para mim mesmo que me tornei.

Eu sabia que havia sido citado numa crônica, só não sabia que lá estavam meus pensamentos, minhas palavras, meus atos e, sobretudo, minhas omissões. Ela, a escritora, não me colocava como tema principal de seu texto, mas o mentor a que ela se referia de forma coadjuvante em seus escritos era eu. Recebi o texto por e-mail e li ainda pelo celular. Ela ao meu lado acompanhava a reação, mais ou menos como deve fazer alguém que joga uma bomba e fica de espreita esperando para ver o estrago feito. Para ser ainda mais cruel ela dizia ao final: “com relação ao meu mentor: ainda tenho fé nele!” E a bomba detonou ante às últimas palavras do texto, palavras minhas, citadas entre aspas conforme o figurino, mas que não eram uma homenagem, até porque ela dizia que não queria ser as palavras que eu dissera: “somos a reprodução sistemática do modelo que deu certo”.

Eu, que cresci sob uma formação religiosa católica progressista, baseada na Teologia da Libertação, que sempre fui questionador, que enfrentava os outros para mostrar meus pontos de vista, que deixei conservadores a ver navios provando por A + B que estavam errados porque disseram ser impossíveis coisas que eu consegui mostrar possíveis, que sempre tive o discurso, especialmente em sala de aula, de que nunca devemos nos acomodar, de que precisamos lutar por nossos sonhos custem o que custar, lá estava eu, evocando com minha fala um compromisso com a reprodução de um sistema, de um modelo, que eu mesmo não concordo ser correto, mas que é, certamente, mais cômodo.

Lembro agora de outro filme, “Duas Vidas”, com o Bruce Willis, no qual o personagem principal tem um encontro consigo mesmo quando tinha seis anos e onde em uma das cenas o personagem criança diz ter vergonha do que ele se tornou quando crescido, apesar deste ser profissionalmente bem sucedido, pois ele havia se distanciado e muito do que outrora planejara enquanto criança. Guardadas as devidas proporções me vejo nela, na escritora da crônica, anos atrás.

Mas se posso usar algo em minha defesa, é que, embora um mentor, como ela me chama, tenha inúmeras funções, uma delas é a função de proteção. Só que eu estou estreando nessa coisa de ser mentor. Quando ela me chamou assim pela primeira vez eu pensei que era brincadeira. Talvez essa minha imaturidade nesse novo papel me tenha feito exagerar na função protetora, esquecendo das demais funções de exposição/visibilidade, patrocínio, amizade, modelo, coaching, desafio nas tarefas, aceitação/confirmação e aconselhamento. Não adianta apenas defender dissertação sobre o assunto é preciso saber praticar o próprio discurso.

Ainda não estou plenamente convencido que ela está correta em agir de forma tão impulsiva, mas não posso deixar de admirar a coragem dela, coragem por mim perdida a partir da inserção de alguma ideia simples que me passou despercebida. Coragem que ela julga não estar perdida, por isso diz ter fé em mim. Queira Deus que ela esteja certa quanto a mim! E queira Deus mais ainda que ela esteja certa quanto a ela mesma, seus próprios pensamentos, suas próprias palavras, seus próprios atos e suas não submissões.

3 comentários:

  1. Delícias para você neste inverno.
    Bjs,
    Mih


    ‘A vida é um tempinho horroroso,
    mas cheio de momentos deliciosos.’
    (Oscar Wilde)

    http://michele-dos-santos.blogspot.com/2011/06/primeiro-dia-do-inverno.html

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