domingo, 26 de junho de 2011

Fiat Lux


Lembrei-me de uma piada. Um pedreiro, um carpinteiro e um eletricista discutiam sobre qual deles exercia a profissão mais antiga do mundo. O pedreiro disse que foram seus antepassados que construíram a muralha da China. Ao que o carpinteiro devolveu dizendo que a Arca de Noé era a prova de que a carpintaria era mais antiga. O eletricista calmamente pergunta: “e quando Deus criou o mundo e disse ‘faça-se a luz’ quem vocês acham que puxou a fiação?” 

Bem, excluindo-se a ação do suposto antepassado eletricista de nosso amigo da piada, na primeira das duas narrativas da criação do mundo que encontramos no Gênesis... 

Um parênteses... talvez você esteja se perguntando: “duas narrativas?” Pois é, isso mesmo! Basta ler os dois primeiros capítulos do Gênesis para descobrir que trazem, cada um, uma história diferente para a criação do mundo. Interessante não? Contradição? Não se lermos o Gênesis como um livro de poesias e não como um tratado científico. Eu, particularmente, acredito que seja muito significativo que a primeira coisa que se encontre num livro sagrado, no caso a Bíblia (para os cristãos) e o Torá (para os judeus), seja uma grande e bela poesia em que o homem contempla o universo como criatura divina.

Parênteses fechados, quando Deus criou o mundo, lá na primeira das narrativas poéticas para  a criação, só havia trevas. E Deus disse: “Fiat lux!” Não é propaganda de caixa de fósforos , muito menos de fábricas de carros e/ou sabonetes, é que Fiat lux  significa “faça-se a luz!” Interessante que anos mais tarde cientistas começaram a professar que o universo foi criado com uma explosão de... de... luz. Coincidência? Bem, a fé de cada um decide. O que me chama atenção mesmo é que, tanto por relatos poético-teológicos quanto físico-científicos, o início de tudo foi repleto de luz. Pra ser mais exato, o início da vida foi marcado pela luz. Antes havia o caos, a escuridão, as trevas, o nada, o vazio. A luz é o sinal de vida nova.

Lembro agora dos tempos de criança, quando as faltas de energia eram mais constantes, e de como eu adorava quando isso ocorria, pela expectativa do que aconteceria no momento em que a luz se faria novamente. Explico! A falta de luz deixava todo o bairro no escuro, em profundo silêncio, todos à espera que a companhia elétrica resolvesse o problema. Lembro que meu pai sempre ia para o quintal olhar a extensão da falta de energia. Quando ele não conseguia enxergar nenhum ponto de luz dizia: “foi geral!” Isso era sempre visto como algo bom, pois significava que tomariam providências mais rápidas. Não posso dizer que havia precisão científica nas conclusões do senso comum de meu pai, mas nas minhas lembranças quanto maior a queda de energia, realmente mais rápido ela voltava. E quando a luz retornava, podia-se ouvir o rumor de alegria dado pelo bairro em uníssono. Sem ensaios, a luz anunciava a alegria... Alguém que estivesse com os olhos fechados saberia que a luz retornara usando apenas a audição. Tenho a impressão que quando Deus fez a luz, o céu estava escuro, os anjos tristes e calados, e quando a explosão de luz aconteceu, uma outra explosão, esta de alegria, ecoou pelo universo com o alegre rumor uníssono desses anjos. Tudo ainda estava por fazer, por construir, por edificar, por criar, nada estava realmente pronto, mas havia luz. A bagunça e o caos, agora iluminados, tinham a chance de se transformar em algo melhor, em algo vivo, em algo que realmente valha a pena viver. A incompletude sempre estaria lá, mas também lá estaria a luz infinita que permite que o infinito iluminado seja sempre mais.

Muito tempo depois, um certo Jesus de Nazaré, nos disse que deveríamos ser criaturas como a luz, que deveríamos ser luz do mundo. Jesus era poeta, ele nos chamava à responsabilidade que todos temos em iluminar os caminhos da criação e das criaturas. Nossos gestos, nossas ações, nossas palavras, têm poder divino e criador, afinal de contas, Deus nos fez à sua imagem e semelhança e como semelhantes herdamos esse poder de criar vida nova. É certo que nem todos querem ser mesmo iluminados. Alguns fazem questão até de apagar o facho de luz que mostra o caos, o vazio e a bagunça de suas vidas. Nessas horas, o problema não é da pessoa-luz. Não podemos colocar as responsabilidades do bagunçar de nossas vidas na luz que mostra esse caos, seria loucura demais, paranóia até. Ao contrário, deveríamos aproveitar que a luz foi feita e tentarmos organizar o que pudermos antes que a luz passe. Nunca sabemos por quanto tempo teremos a luz em nossas vidas, por isso mesmo, temos que torná-la eterna em nosso ser. Precisamos aprender, nesses momentos de iluminação, a criar a nossa própria fonte geradora de energia, não apenas para nós, mas para nos permitir ser, também nós, pessoas-luz na vida de pessoas-trevas. Estaremos assim fazendo a nossa parte em iluminar. Restar-nos-á apenas, esperar que essa nossa chama contagie o outro para que assim possamos iluminar não apenas nosso bairro, mas todo o mundo.

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