Como não lembro das palavras exatas, sintetizo o teor e o clima da conversa que ouvi...
Ele (com ar triunfante): “enfim li algo que você escreveu que entendi totalmente... afinal de contas você estava me citando.”
Ela (com ar ainda mais triunfante, e quem triunfa por último triunfa melhor): “e quem disse que citar você significa que assim fiz dentro do significado que você deu? Veja que o que você falou é tão genérico que pode ser aplicado a muitas coisas, inclusive ao não-você”.
Não era preciso saber sobre o que falavam, só esse trecho já me foi muito inspirador. Li Bruno Latour para a aula do doutorado, bloqueei ao ponto de não conseguir amarrar nenhuma ideia enquanto fazia sua leitura, a coisa melhorou um pouco na aula com os debates e com os bons devaneios dos colegas do “fundão” da sala, mas só comecei a entender o tal texto depois que ouvi este diálogo. Fiquei até com um pouco de pena dele, afinal de contas não deve ser fácil não entendê-la, mas por outro lado, não deixa de ser bem empregado. Quem manda ele partir do pressuposto que pode entendê-la? Ele já devia ter percebido que o convencional não faz parte da cartilha dela. Mas ainda assim insiste. Acho que ele está aprendendo, mas enquanto não aprende a lição, ele ao menos me ajuda na minha lição com Latour...
Quando nos achamos detentores da verdade, corremos o risco de interpretar tudo ao nosso redor de acordo com nossos padrões pré-estabelecidos, sedimentados, decantados, tanto que chegamos mesmo a chamar esse “ao nosso redor” de “realidade”. Esquecendo que a história é contada pelas coisas e não pelas pessoas, que apenas pegam emprestados os significados que emergem dessas mesmas coisas. E se nossa significação, nossa determinação de realidade, se baseia nessa emersão de significados das coisas, não podemos desprezar que cada um dá o significado que bem entende, ou que bem apreende, para essas mesmas coisas. No diálogo, ele achou, por ter elaborado um código lingüístico para descrever a realidade observada, que era o detentor da própria realidade e, o que foi ainda mais petulante de sua parte, o detentor das significações dadas por outras pessoas, inclusive e logo, por dela, que rapidamente o pôs em seu devido lugar. Ela talvez nunca tenha lido Latour, mas pelo que observei da conversa que tiveram, ela “pratica” Latour.
Ela o ensinou que existe uma realidade que está lá, mas que também se constrói e se reconstrói. As palavras que ele disse para ela expressavam “uma” realidade. E nesse caso a “coisa” lá está. Só que uma vez lá, a coisa se altera, se transforma, se metamorfoseia, de modo que nunca mais será a mesma que antes. Não adianta pôr cercas para, dentro delas, criar um rebanho de realidades. Sem as cercas, o rebanho pode ser melhor, maior, mais amplo, mais verdadeiro. E por mais mutável que seja a realidade, por maior que seja a diferença entre o “antes” e o “depois”, ainda assim terá valido a pena. Já dizia o poeta português que “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.
Tenho certeza que ele não se arrependeu do que disse (antes), mas isso não lhe dá em hipótese alguma o direito de ser um ditador do “depois”. E do “depois” desse “depois”, nem ela é dona, mas a vantagem dela é que ela já sabe disso enquanto ele ainda está aprendendo. Creio que se eu tivesse mais intimidade com ele o mandaria ler Latour... quem sabe ele não lê esse post e começa a repensar, de verdade, seus pressupostos sobre a verdade, sobre as verdades.
Ola, Sebastião
ResponderExcluirsó passando, insone para ver se havia alguma letra nova. Virou vício. Bom, quem sabe amanhã.
e, de praxe, pra te animar, caro escritor, um pensamento de Denser:
Porque Rosa é isso: um gênio poético e um bocado isolado, diga-se, que não gera outro salvo imitadores de quinta. Esta é uma das mais nefandas consequências provocadas pelo gênio, outra são as malditas teses acadêmicas, dezenas, milhares, uma porrada delas, gerando, por sua vez, zilhões de álibis perfeitos para ninguém se arriscar a quebrar a cara, nem estudar os outros autores. E eu continuo dando razão a Mário: “Porque uma grande literatura é feita de muitos escritores”. Pequenos, médios e grandes. Na classificação de Ezra Pound, “inventores, mestres, beletristas e diluidores”.
bom dia,
Anonim@
Bem, até onde entendi "anonim@" = "mesma pessoa" ou "MP". Ok? Só para eu não misturar!
ResponderExcluirPois bem, infelizmente não consegui escrever novidades... há dessas fases mesmo... quanto ao texto oferecido dessa vez, adorei o "as malditas teses acadêmicas, dezenas, milhares, uma porrada delas, gerando, por sua vez, zilhões de álibis perfeitos para ninguém se arriscar a quebrar a cara, nem estudar os outros autores". Concordo com Denser, estou sentindo isso nas bancas lá do doutorado... vamos ver no que vai dá!
Abraço!
Ola, caro escritor
ResponderExcluirnum hiato? intervalo? pausa? descanso?
aguardo, nao tenho pressa. A espera pode ser boa.
para te inspirar, ouve isso:
http://www.vagalume.com.br/beirut/elephant-gun.html
abraço,
anônim@
Pois é car@ anonim@
ResponderExcluirIsso é mais comum do que gostaria que fosse... Por vezes é preciso calar para poder falar. em todo caso há uma nova postagem
Abraços!
P.S.: conheci o Beirut dia desses... agradeço a música, achei legal. Avho legal tb a música Nantes.