Tem dias em que a gente acorda pensativo. Pensamento no passado, no que ficou, no que nos tornamos, no que seremos. A memória vai buscar arquivos, que se não mortos, ao menos estão armazenados em lugares por onde não passamos com frequência, o que faz até com que nos esqueçamos deles. Mas aí um dia uma conversa, uma fotografia, um som, um gosto, um cheiro ou mesmo a textura de um objeto, fazem a gente lembrar daquela caixa onde guardamos nossos “eus” de ontem.
Creio que foi o que aconteceu hoje. Ao escrever um e-mail me lembrei dos super-heróis de minha infância. Para ler, os gibis eram sempre do super-homem. Para rir, o escrachado Batman da TV na década de 80, que nada tinha a ver com o obscuro Batman original. Para fazer traquinagens, nada melhor do que tentar subir pelas paredes como o homem aranha. Para ficar triste, o Hulk... (não essa versão anabolizada atual, e sim a do seriado de meus tempos de criança)
Paro ao tirar o Hulk (ou pelo menos a minha percepção de Hulk) do arquivo. O Hulk é agressivo. O Dr. Banner, identidade secreta dele, o oposto. Mas ambos são os mesmos. Talvez o gosto pelo personagem venha da ambiguidade, ou melhor, da identificação com a ambiguidade. Da caixa sai ainda uma música, uma música instrumental. Aos primeiros acordes é como se o tempo parasse. Posso fechar os olhos e ver a parte que mais me atraia no seriado. Inevitavelmente o Dr. Banner, depois de salvar o mundo com a agressividade do Hulk, terminava cada episódio só, caminhando em direção a não se sabe onde, pedindo carona e ao fundo essa música... Pergunto-me por que uma criança ficaria sempre tão atenta a esse tipo de cena ao ponto de hoje ela fazer parte da memória adulta dessa mesma criança que não consegue contudo, se lembrar especificamente de nenhuma cena de ação? A música ecoa na cabeça e a questão parece ter uma resposta, mas aí o adulto pega a resposta e a coloca lá dentro da caixa de coisas velhas.
“Fazer memória” para os judeus, do hebraico “Zikáron”, sempre foi um termo muito específico que significa mais do que recordar, e que tem origem na palavra ferroar (ou espinhar), ou seja, aquilo que penetra na carne, que marca, que por vezes dói, mas que nos traz à mente o passado, tornando-o mais presente do que nunca. Quando lembro, vivo novamente o passado. Mas será possível viver o futuro? Aquilo que ainda não aconteceu? Reza a lenda que crianças têm esse poder. Onde vi essa lenda? Não sei... coloquei de volta no arquivo-morto.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe seu comentário, sua sugestão, sua crítica!