*Crônica "das antigas": abril de 2009. Originalmente publicada em um antigo blog.
Vou um dia ao parque. A maioria dos brinquedos não me agrada. É aquela circularidade constante. Como assim? Bem, não sei se você já reparou, mas a maior parte dos brinquedos de parque são circulares: carrossel, roda gigante e por aí vai... boa parte dos demais brinquedos são variações, saem os cavalos dos carrosséis, entram cisnes, carrinhos, frutas tamanho família e o tal do brinquedo dando voltas e mais voltas. Mês de abril me lembra aquele filme nacional muito bom (recomendo!), Abril Despedaçado. A cena inicial mostra bois girando em círculos sendo utilizados como força motriz para uma espécie de moinho. Os coitados dos animais presos por cangas, não as cangas que as mulheres usam como saída de banho nas praias, mas aquelas madeiras colocadas sobre os pescoços dos bois para prendê-los uns aos outros de modo a seguirem sempre o caminho desejado por seus donos. Está certo, você dirá que eu não precisaria ressaltar essa diferença de significados dados a esta palavra, mas sei lá, vai que alguém imagina um boi usando aqueles panos coloridos... seria uma cena engraçada... mas o filme não é uma comédia, é um drama, e dos mais fortes, ressaltando inúmeras vezes as circularidades da vida, aquele dar voltas sem sair do lugar. O filme traz o mote da vingança entre famílias, tão comum até bem como tempo atrás no interior nordestino, onde ninguém lembra muitas vezes por que e quem começou a briga, só sabe-se que o rito do olho por olho, dente por dente, deve ser perpetuado. Eu hein, comecei num parque de diversões e acabei no sertão semi-árido nordestino em meio a tiros de espingarda. Aí quando dizem que eu viajo... Ah, viagem! Lembrei onde queria chegar quando comecei a escrever...
Falava dos brinquedos que giravam sem sair do lugar e da sua quase onipresença nos parques de diversões, fato que acabava fazendo com que, desde a infância, ir a parques fosse uma experiência não tão divertida, pois quando me arriscava a embarcar em algum desses brinquedos ou em suas variantes, mais ou menos radicais, acabava com aquele famoso embrulho no estômago que tinha sempre um destino certo para ser entregue: o banheiro mais próximo (se houvesse um).
Mas eis que me aparece um brinquedo diferente, trilhos dispostos de maneiras inimagináveis à razão humana: pra cima, pra baixo, pros lados, inclinados, em looping... acima desses trilhos um ou mais vagões com pessoas dentro, presas por equipamentos de segurança, deslizando sobre esses mesmos trilhos malucos em alta velocidade. Um sobe e desce, um gira e mexe, força centrípeta para um lado, força centrífuga para o outro, subidas lentas cheias de expectativas, descidas vertiginosas sem expectativas, sem nada pensar. Só de olhar as pernas já começam a tremer, coração acelera, dá aquela vontade de sair correndo dali, mas fazer o que, a tal da montanha russa tem um poder de conquista fascinante. Entro na fila. É um misto de querer que a fila ande ao mesmo tempo em que se pensa se o não chegar a sua vez não seria uma bênção, que é de deixar qualquer um com o coração na mão. Não saio da fila. Chega a minha vez. Caminho em direção ao trenzinho. Meu Deus, isso não cai não!? Sento na poltrona. Baixo o equipamento de segurança. Dá pra desistir? Acionam o motor, o trem começa vagarosamente a andar. Não dá mais! Seja o que Deus quiser. Bem, talvez Deus tenha posto aquela fila enorme pra que eu desistisse. E eu ainda ponho a culpa Nele. Pode isso? Seja o que Deus quiser! Não custa rezar um pouco. O trem começa a subir a tal da montanha, lento que só um bicho-preguiça. Quase posso ouvir aquela “musiquinha” da famosa cena do filme Psicose quando o cara se aproxima da mulher no banho com uma faca. Estou chegando ao topo.Cheguei ao topo. O que está acontecendooooooooooooo? .... (momento sem palavras, sem pensamentos, sem ação, apenas alguns gritos de pavor, se é que está saindo algum som da garganta). O trem parou! Parou? Estou vivo? Sério? Posso ir de novo? Pode! É só entrar novamente na fila. Eu só fui mais sete vezes...
Quem me conhece sabe que nunca fui dado a essas aventuras muito radicais. Até mesmo uma simples viagem de avião me é algo angustiante. Assim, chega até a surpreender esse meu fascínio pela montanha russa. Até que me disseram que a vida é como uma montanha russa. Se fosse um desenho animado uma lâmpada teria se acendido sobre o meu ombro. Eureka! A montanha russa é uma metáfora da vida de qualquer um de nós, com suas subidas (lentas) e descidas (vertiginosas). E é bom que seja assim, pois podemos aproveitar a paisagem enquanto estamos a subir, com calma, obviamente que com aquela sensação que antecede a chegada ao topo, pelo que virá depois disso, se sobreviveremos à queda... Aí então chegamos ao topo e de um momento para o outro tudo se transforma. A descida nos deixa sem fôlego, sem palavras, sem ação, sem pensamento. E isso também é bom. Há horas na vida da gente em que é preciso se entregar totalmente ao momento. Quando subimos, a nossa atenção está para o externo, para fora, para a paisagem. Quando descemos, voltamos nosso olhar para nós mesmos, para o momento, para a queda. Precisamos dos dois momentos e das características que lhe são peculiares, respectivamente, a lentidão e aceleração, pois um só pode existir em função do outro. Lembro agora da música do Lulu Santos que ilustra bem esse meu pensamento: “não existiria som se não houvesse o silêncio”. Lembro também do grande santo da cidadezinha de Assis na Itália, que rezava a Deus para ser portador do amor onde houvesse ódio, do perdão onde existisse ofensa, da união em meio à discórdia, da fé diante das dúvidas. São Francisco poderia ter sido inspirado por uma montanha russa, mas creio que podemos descartar essa possibilidade, pois ele viveu no século 12 e a origem das montanhas russas – russos descendo montanhas geladas em quedas vertiginosas enrolados em cobertores (e sem equipamentos de segurança) – data do século 15.
Desejo, pois, que continuemos subindo e descendo nas montanhas russas de nossas vidas cotidianas de modo a que possamos usufruir desses momentos não apenas sete vezes como disse Jesus referindo-se a quantidade de perdões que devemos dar, mas sim setenta vezes sete. Se na tradição judaica o número 7 já significa a quantidade necessária para completar algo, setenta vezes sete seria como elevar o infinito ao quadrado. Só assim seremos detentores do tudo, mesmo que seja um tudo do nada.

Olá.
ResponderExcluirAgradeço sua visita no Blog.
Adorei aqui.
Como não gostar! :-)
ResponderExcluirMP
Obrigado MP! Seja sempre bem vinda Michele! :)
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