domingo, 8 de maio de 2011

Suportar a Alegria * (repost)

*Crônica "das antigas", do começo de 2009, ano ímpar, literalmente, originalmente publicada em um dos blogs apagados pelo tempo...

Desde o primeiro dia desse ano que está valendo a reforma ortográfica. Até concordei com a maioria das justificativas dadas para tal, porém ainda não tive tempo de ver a fundo e me apropriar dessas mudanças e como temos até 2012 como prazo limite para descarte da versão agora antiga, peço desculpas aos mais “puritanos”, mas ainda escreverei com a versão que me é mais familiar, prometendo aos poucos utilizar a nova grafia. Feita esta advertência inicial, vamos à postagem de hoje, a primeira do ano...

Cheguei em casa um dia desses, manhã de sábado, tv ligada em um  programa apresentado pela Xuxa, ela entrevistando o Pe. Fábio Melo. Sinceramente ambos não me empolgam muito; mesmo sendo católico, o estilo dos padres popstars não me atrai muito (bem como os padres burocratas, legalistas, distantes do povo) e além disso, em minha cabeça ainda deve restar um trauma dos tempos de criança, onde eu achava que foi Xuxa quem tirou o Balão Mágico, programa do qual eu era fã, do ar. Assim, em “condições normais de temperatura e pressão” eu apenas passaria para o meu quarto sem dar a mínima para a entrevista.

Foi quando, neste exato momento, tocaram no assunto amizade. Coincidência ou providência divina, havia eu recebido o convite para dar uma palestra no dia seguinte a um grupo de jovens católico, exatamente sobre este tema. Como custa muito pouco ouvir e pode-se obter bons ganhos, ouvi a Xuxa mencionar aquela conversa de “clara-batida-em-neve” de que amigo é aquele que está presente nos momentos difíceis e tristes de nossa vida, ao que o Pe. Fábio retrucou, afirmando que a coisa funciona de maneira oposta... nos momentos difíceis sempre tem alguém perto. Me lembrei na hora de alguns velórios que fui em que pessoas que não suportavam o morto (ou seus familiares) estavam lá, sempre presentes, enviando em não raras vezes as tão prosaicas coroas de flores, e vi que ele tinha razão em seu argumento, de modo que sentei no sofá disposto a ouvir o complemento de sua explicação, ante a cara de perplexidade feita pela Xuxa após o comentário.

Assim, o Pe. Fábio prosseguiu dizendo que amigo é aquele que consegue suportar a sua felicidade. Algo muito duro de ser dito assim, ainda mais em rede nacional, mas repleto de verdade, pois são poucas as pessoas que (realmente) se alegram com nossa alegria. Obviamente isso não se dá no campo das aparências. Por fora a pessoa se mostrará com um sorriso de canto a canto da boca, dará efusivos abraços, proclamará elogios, desejará mais sucesso, até dançará, beberá e comerá com você para demonstrar sua “incontida” alegria, porém, por dentro, estará com aquele sentimento mesquinho, invejoso e deturpado, principalmente se a conquista, a alegria, o sucesso for em segmentos em que não se obteve o mesmo, digamos, desempenho.

Professor que sou, lembrei logo dos alunos que tiram nota 10 e dos que tiram nota baixa (bem mais baixa por vezes) dando parabéns que nem sempre são sinceros. Administrador que sou, me lembrei de casos de sucesso de progressão em empresas, promoções, contratações, premiações, onde os demais da equipe se dizem muito alegres com o sucesso obtido pelo outro, quando na verdade, interiormente estão se remoendo de raiva e de frustração por não terem sido escolhidos, até mesmo quando sequer “mexeram uma palha” para merecer tratamento similar. Concluí logo que o padre estava muito certo em sua afirmação de como é difícil suportar tanta alegria.

Há uma teoria em Administração – a teoria da equidade (sem trema, olha eu já me convertendo à nova ortografia) – que diz, em grosso modo, que a motivação nossa está associada ao nosso senso de equidade, ou para ser mais preciso, de inequidade, de como nos sentimos injustiçados em relação a outras pessoas e situações. Quando dou aula sobre esse assunto gosto de fazer um pequeno devaneio-brincadeira. Escolho uma pessoa na sala e digo que ela irá ganhar um salário bastante alto, apenas para começar, em um novo emprego que estou arrumando para ela e pergunto o que ela, a pessoa, sente. O aluno escolhido normalmente fica muito alegre, mesmo sendo a proposta coisa de ficção científica. Aí me dirijo a um outro aluno na sala e proponho a ele um outro emprego, com atividades e carga de trabalho muito similares ao que o colega anterior irá desempenhar só que com o dobro do salário recebido pelo primeiro. Obviamente este último fica ainda mais feliz e então pergunto ao primeiro o que acha disso, e a alegria anterior parece que fez as malas e partiu. Convém destacar que se aplicarmos esse teste a maioria de nós o sentimento será o mesmo, de modo que não estou criticando ninguém com o teste, apenas mostrando como nossa natureza humana é e principalmente como é difícil suportar a felicidade alheia, mesmo quando estamos felizes. Por conseqüência isso mostra como é igualmente difícil sermos amigos de verdade. Minha linha de pensamento não vai pelo já conhecido caminho de julgarmos se fulano ou cicrano é ou não nosso amigo, por esse parâmetro da “suportabilidade” ou outro qualquer que determinemos, mas se por este ou outro parâmetro, podemos nos auto-julgar e nos auto-denominar como amigos verdadeiros ou de amigos de ocasião.

Minha reflexão ampliou-se ainda para outros segmentos que não apenas a amizade. Talvez o chefe, o líder ideal, seja aquele que consegue suportar o sucesso do subordinado. O amor verdadeiro talvez seja aquele surge quando um consegue suportar a felicidade do ser amado mesmo e quando não se é o motivo da alegria. E os bons pais talvez devam ser aqueles que se alegram verdadeiramente com o crescimento e as conquistas do filho, muitas vezes maiores do que eles – os pais – tiveram um dia. Não sei, são só “talvezes” que com o tempo podem vir a ser discutidos em maior profundidade.

Por fim, espero que vocês suportem mais esse texto, que se não é um motivo de alegria exacerbada para mim, talvez seja um recomeço para esse hábito de escrever que me faz tão bem, mas que precisa de inspiração, algo que acabei perdendo nos últimos tempos, mas que torço possa ser recuperado.

Um Feliz e Suportável 2009 a todos e a todas que por aqui passam...

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