sábado, 21 de maio de 2011

Tristeza -> Oração -> Alegria OU "A Banda Mais Bonita da Cidade"

No livro Cenas da Vida, Rubem Alves apresenta uma crônica onde trata da depressão de forma singular e ímpar, colocando lá todo o seu jeito,  parte contador de histórias, parte poeta, parte terapeuta. Lá ele defende que as pessoas ficam deprimidas porque, em parte, há beleza na tristeza. Não fosse a tristeza, diz ele, não haveria tantas canções bonitas, especialmente as que falam de amor. A depressão também é, para a literatura, farta matéria-prima na produção de romances e poesias. Lá pelas tantas ele dá uma definição pouco convencional para a depressão: “depressão é quando o inconsciente fica tocando uma única música triste” e ele narra a cena em que está dirigindo, meio triste, um tanto quanto deprimido, e escolhe uma música para ouvir... essa música começa lânguida e se torna imediatamente aliada em sua tristeza, mas aí a música tem uma reviravolta, pega a depressão de surpresa e aos poucos enche o coração dele de alegria expulsando de lá a tristeza.

Essa foi a segunda crônica que li do Rubem Alves, e se a primeira, a que falava sobre poetas e cebolas, já havia me tornado o seu mais novo ardoroso fã, a sutiliza poética com que tratou um tema tão delicado fez-me um ávido consumidor de tudo por ele produzido. Mas tenho que confessar, eu nunca havia entendido (realmente) esta crônica, pelo menos não até ontem.

Estava eu meio triste como o Rubem Alves, vagueando pelo facebook, quando descubro um link para um vídeo... Muita gente comentando que era legal, compartilhando uns com os outros, aí resolvo acessá-lo. Parece o clipe de uma banda. É um clipe de uma banda, mas o nome da música é incomum (oração) e o nome da banda ainda menos ortodoxo (A Banda Mais Bonita da Cidade). A música é quase um mantra, se repete ad infinitum se assim desejarmos. Ela começa lânguida, cantada em voz única, embargada, triste, depressiva até... Minha tristeza, tal qual aconteceu com a do Rubem Alves se alia à música, se tornam companheiras, mas aí a música vai mudando, vai pegando de surpresa a tristeza e à medida que novos instrumentos e vozes são incorporados o coração vai se enchendo de uma alegria, dessas alegrias que a gente não sabe explicar, alegria de criança, alegria que dissipa as neblinas e expulsa a tristeza... Essa música não resolverá todos os problemas, não salvará o mundo, não pagará minhas contas, não apagará o passado, não fará o tempo voltar atrás ou correr pra frente, não diminuirá frustrações e ansiedades, não ajudará no seminário de terça-feira , não fará nada útil, e por isso mesmo ela traz alegria. Ela não serve a nenhum propósito, não tem objetivos, não é instrumentalizável, ou seja, é autônoma, livre de amarras e por isso é capaz de libertar nossa mente para voar... Entendo agora porque a música se chama oração, porque ela se pretende salvar o coração, mesmo não sendo o coração tão simples quanto se pensa, pois nele não cabem coisas quantificáveis, delimitadas, racionais, legais. Essas coisas a gente guarda na dispensa, lá na caixa de instrumentos que o Rubem Alves tanto fala. São importantes, mas não são vitais. A alegria pode até nem ser tão importante assim, mas é vital para continuarmos nossa caminhada sempre e sempre...

Para quem quiser ver o motivo de minha repentina e despropositada alegria, basta olhar duas postagens abaixo ou clicar AQUI.

5 comentários:

  1. Andei passeando por aí. Sem nada na cabeça, sem destino, mas predestinado a algo bom, surpreendente e que de súbito pudesse me roubar, nem que por alguns instantes, a atenção cansada e tão focada em detalhes aborrecidos do cotidiano duro e entendiante quando me deparo com esse teu blog e, meio querendo ler meio querendo teclar no xis ali em cima, resolvo me dar a chance de ler teus posts. E fico curioso com teu convite para ouvir uma oração. E paro, e ouço e não me arrependo de ter parado e de ter ouvido, ou ouvidos e sentido uma pequenina paz, que me roubou, por alguns instantes, a atenção cansada e tão focada em detalhes aborrecidos do cotidiano duro e entendiante. Dizem que milagres, ainda, acontecem. Que bom! Ainda há esesperança. Pequenos milagres da internet operados por santos anônimos. Para eles, como sinal de agradecimento, orações. Voltarei para mais.

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  2. E me vem a mente Eller

    Palavras apenas
    Palavras pequenas
    Palavras, momento
    Palavras, palavras
    Palavras, palavras
    Palavras ao vento

    É ou não, um milagre?

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  3. Tens toda a razão, caro santo anônimo salvador de sábados chatos. Tudo é tão esfuziante, tão pretensiosamente feliz, tão fulgás que uma tristezinha bem curtida, de vez em quando, lembra a chuvinha intrometida que caía em dia de sol e acabava a brincadeira. Entristecia, mas dava uma alegria boa. Se não esquecestes o cheiro de terra molhada, sabes do que estou falando. Como ex voto, te deixo outro mantra já antes mencionado. Ouve e continua a jogar tuas palavras ao vento. Vai que semeias.

    semeias.http://www.youtube.com/watch?v=4M8DzDAGhk4

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  4. Bem, os três últimos comentários me parecem ser da mesma pessoa, de modo que agradeço todos eles e fico feliz com a visita, com a música e as colocações. Volte sempre que desejar! Grande abraço! :)

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  5. Que bom, querido Sebastião. Posso chamar assim? É nome de santo. O meu favorito.

    Obrigado pela recepção. É bom ser bem bem-vindo, ser acolhido, ser bem recebido. Mesmo que virtualmente.

    Para não ficar tão no anonimato e para que possas me identificar, assinarei meus comentários, desde já, como "a mesma pessoa". :-)

    Gosto dos teus textos, assim como de alguns outros de blogs que sigo. Sou fã de escritores blogueiros. Há poucos. Que eu goste, pelo menos. Coloco o teu entre eles. :-) Leio-os sempre que posso. Mas, em sua maioria, são de autores de outros estados ou países. E, gosto de simplicidade. Singeleza. Daí o Quintana.

    Sim, em outro comentário era eu, a "mesma pessoa" agradecendo exatamente... pelo seu post.

    Acredito nas palavras. Nas belas, mais ainda.

    Estava meio esquecido delas.

    O milagre a que me referi noutro comentário, foi de ter, pelo mais puro acaso, numa tarde aborrecida, encontrado um blog onde alguém se dedica, da forma mais despretensiosa - se isso for possível - a elas, às palavras. Senti uma alegriazinha boa.

    Você nem faz ideia do bem que fez, caro Sebastião.

    Empolguei-me. Danei-me a escrever. E, prometi voltar.

    Em outro post, você coloca "canção pra não mais voltar". Pensei que fosse uma seta sebastiana. :-)

    Que bom que não era.

    abraço,

    "a mesma pessoa" ou "MP"

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