No livro Cenas da Vida, Rubem Alves apresenta uma crônica onde trata da depressão de forma singular e ímpar, colocando lá todo o seu jeito, parte contador de histórias, parte poeta, parte terapeuta. Lá ele defende que as pessoas ficam deprimidas porque, em parte, há beleza na tristeza. Não fosse a tristeza, diz ele, não haveria tantas canções bonitas, especialmente as que falam de amor. A depressão também é, para a literatura, farta matéria-prima na produção de romances e poesias. Lá pelas tantas ele dá uma definição pouco convencional para a depressão: “depressão é quando o inconsciente fica tocando uma única música triste” e ele narra a cena em que está dirigindo, meio triste, um tanto quanto deprimido, e escolhe uma música para ouvir... essa música começa lânguida e se torna imediatamente aliada em sua tristeza, mas aí a música tem uma reviravolta, pega a depressão de surpresa e aos poucos enche o coração dele de alegria expulsando de lá a tristeza.
Essa foi a segunda crônica que li do Rubem Alves, e se a primeira, a que falava sobre poetas e cebolas, já havia me tornado o seu mais novo ardoroso fã, a sutiliza poética com que tratou um tema tão delicado fez-me um ávido consumidor de tudo por ele produzido. Mas tenho que confessar, eu nunca havia entendido (realmente) esta crônica, pelo menos não até ontem.
Estava eu meio triste como o Rubem Alves, vagueando pelo facebook, quando descubro um link para um vídeo... Muita gente comentando que era legal, compartilhando uns com os outros, aí resolvo acessá-lo. Parece o clipe de uma banda. É um clipe de uma banda, mas o nome da música é incomum (oração) e o nome da banda ainda menos ortodoxo (A Banda Mais Bonita da Cidade). A música é quase um mantra, se repete ad infinitum se assim desejarmos. Ela começa lânguida, cantada em voz única, embargada, triste, depressiva até... Minha tristeza, tal qual aconteceu com a do Rubem Alves se alia à música, se tornam companheiras, mas aí a música vai mudando, vai pegando de surpresa a tristeza e à medida que novos instrumentos e vozes são incorporados o coração vai se enchendo de uma alegria, dessas alegrias que a gente não sabe explicar, alegria de criança, alegria que dissipa as neblinas e expulsa a tristeza... Essa música não resolverá todos os problemas, não salvará o mundo, não pagará minhas contas, não apagará o passado, não fará o tempo voltar atrás ou correr pra frente, não diminuirá frustrações e ansiedades, não ajudará no seminário de terça-feira , não fará nada útil, e por isso mesmo ela traz alegria. Ela não serve a nenhum propósito, não tem objetivos, não é instrumentalizável, ou seja, é autônoma, livre de amarras e por isso é capaz de libertar nossa mente para voar... Entendo agora porque a música se chama oração, porque ela se pretende salvar o coração, mesmo não sendo o coração tão simples quanto se pensa, pois nele não cabem coisas quantificáveis, delimitadas, racionais, legais. Essas coisas a gente guarda na dispensa, lá na caixa de instrumentos que o Rubem Alves tanto fala. São importantes, mas não são vitais. A alegria pode até nem ser tão importante assim, mas é vital para continuarmos nossa caminhada sempre e sempre...
Para quem quiser ver o motivo de minha repentina e despropositada alegria, basta olhar duas postagens abaixo ou clicar AQUI.

Andei passeando por aí. Sem nada na cabeça, sem destino, mas predestinado a algo bom, surpreendente e que de súbito pudesse me roubar, nem que por alguns instantes, a atenção cansada e tão focada em detalhes aborrecidos do cotidiano duro e entendiante quando me deparo com esse teu blog e, meio querendo ler meio querendo teclar no xis ali em cima, resolvo me dar a chance de ler teus posts. E fico curioso com teu convite para ouvir uma oração. E paro, e ouço e não me arrependo de ter parado e de ter ouvido, ou ouvidos e sentido uma pequenina paz, que me roubou, por alguns instantes, a atenção cansada e tão focada em detalhes aborrecidos do cotidiano duro e entendiante. Dizem que milagres, ainda, acontecem. Que bom! Ainda há esesperança. Pequenos milagres da internet operados por santos anônimos. Para eles, como sinal de agradecimento, orações. Voltarei para mais.
ResponderExcluirE me vem a mente Eller
ResponderExcluirPalavras apenas
Palavras pequenas
Palavras, momento
Palavras, palavras
Palavras, palavras
Palavras ao vento
É ou não, um milagre?
Tens toda a razão, caro santo anônimo salvador de sábados chatos. Tudo é tão esfuziante, tão pretensiosamente feliz, tão fulgás que uma tristezinha bem curtida, de vez em quando, lembra a chuvinha intrometida que caía em dia de sol e acabava a brincadeira. Entristecia, mas dava uma alegria boa. Se não esquecestes o cheiro de terra molhada, sabes do que estou falando. Como ex voto, te deixo outro mantra já antes mencionado. Ouve e continua a jogar tuas palavras ao vento. Vai que semeias.
ResponderExcluirsemeias.http://www.youtube.com/watch?v=4M8DzDAGhk4
Bem, os três últimos comentários me parecem ser da mesma pessoa, de modo que agradeço todos eles e fico feliz com a visita, com a música e as colocações. Volte sempre que desejar! Grande abraço! :)
ResponderExcluirQue bom, querido Sebastião. Posso chamar assim? É nome de santo. O meu favorito.
ResponderExcluirObrigado pela recepção. É bom ser bem bem-vindo, ser acolhido, ser bem recebido. Mesmo que virtualmente.
Para não ficar tão no anonimato e para que possas me identificar, assinarei meus comentários, desde já, como "a mesma pessoa". :-)
Gosto dos teus textos, assim como de alguns outros de blogs que sigo. Sou fã de escritores blogueiros. Há poucos. Que eu goste, pelo menos. Coloco o teu entre eles. :-) Leio-os sempre que posso. Mas, em sua maioria, são de autores de outros estados ou países. E, gosto de simplicidade. Singeleza. Daí o Quintana.
Sim, em outro comentário era eu, a "mesma pessoa" agradecendo exatamente... pelo seu post.
Acredito nas palavras. Nas belas, mais ainda.
Estava meio esquecido delas.
O milagre a que me referi noutro comentário, foi de ter, pelo mais puro acaso, numa tarde aborrecida, encontrado um blog onde alguém se dedica, da forma mais despretensiosa - se isso for possível - a elas, às palavras. Senti uma alegriazinha boa.
Você nem faz ideia do bem que fez, caro Sebastião.
Empolguei-me. Danei-me a escrever. E, prometi voltar.
Em outro post, você coloca "canção pra não mais voltar". Pensei que fosse uma seta sebastiana. :-)
Que bom que não era.
abraço,
"a mesma pessoa" ou "MP"