terça-feira, 24 de maio de 2011

A Difícil Arte de Dar Explicações no Doutorado


Temos que manter coerência entre os mundos real e virtual, se é que existe mesmo uma fronteira que divida ambos, já que por vezes o virtual parece ser (bem) mais real que a própria realidade e a realidade, por sua vez, se apresenta em não raros momentos como algo ilusório. Um grande professor a quem admiro e gosto muito, apesar dele adorar “pegar no meu pé”, num de seus comentários na minha página do facebook, após verificar que minhas últimas postagens no tal site de relacionamentos versavam muito sobre música, sugeriu que eu deveria estar cursando uma “music discipline” no meu doutorado. Trocando em miúdos, é aquela velha desconfiança de que estamos com tempo demais de sobra para poder ficar compartilhando músicas na rede enquanto deveríamos estar estudando mais. É o velho “lê lê” aplicado à Academia. Mas eu perdôo, ele tem, como eu já disse a ele, uma “vontade de ser ruim”, mas é um dos caras mais humanos e verdadeiros (por vezes até demais) que eu conheço.

Mas eu precisava me defender. Precisava justificar minhas ações sem passar uma imagem de doutorando negligente. Imagem é tudo hoje em dia (risos). Vejam o trabalhão que dá justificar navegações despretensiosas no facebook quando se está num doutorado. Eis minha resposta a ele:
 
“Já estava sentindo falta de seus comentários professor (risos). Só que eu preciso me defender desse, ou melhor, utilizar argumentos que sustentem meus posicionamentos recentes no facebook. Vamos lá... Pois bem, segundo Boaventura Santos (2000) em seu "A Crítica da Razão Indolente", ele argumenta que o plano que sustentaria a Modernidade estava bem alicerçado entre dois pilares-tripés: o regulatório e o emancipatório. O tripé regulatório se sustentaria no Estado, na comunidade e no mercado. Segundo ele, contudo, nos últimos 200 anos houve uma regulação quase que exclusiva do mercado, uma discreta participação do Estado e uma quase inexistente dimensão comunitária. Já o tripé regulatório seria composto das seguintes racionalidades: moral-prática, estético-expressiva e cognitivo-instrumental. Ainda segundo ele, a ciência se apoderou da racionalidade cognitiva-instrumental de forma quase onipresente nos dois últimos séculos, as igrejas tiveram participação bem mais discreta que outrora, mas ainda assim se apossaram da razão moral-prática, ficando relegada quase que ao esquecimento a dimensão estético-expressiva, que aqui pode-se resumir como “arte” de um modo mais geral. Pois bem, Boaventura Santos defende que esse paradigma da modernidade e suas disfunções estão próximos do fim e defende um paradigma emergente que reequilibre ambos os pilares e em cada pilar, a tríade que os compõe, devendo pois, para corrigir as distorções geradas, delegar uma leve ênfase aos aspectos historicamente mais negligenciados em cada pilar: uma maior regulação pela “comunidade” e um maior poder emancipatório pela “arte”.  Assim, quando eu envio músicas (“arte”) pelo facebook (“comunidade”) eu estou de certa forma me preparando para o paradigma emergente ao mesmo tempo que coloco em prática o que estão me ensinando no doutorado. Desta forma, se eu estiver errado é bom convocar uma reunião urgente do Pleno do PROPAD, para colocarem a gente de novo no “bom” caminho... kkkkkkk... Eita, como doutorando sofre para poder explicar academicamente seus atos! (risos). Abraços!”

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