quarta-feira, 25 de maio de 2011

Caminhos


Se os dias pudessem ser categorizados por temas rotulados por tags como aqui no blog, creio que hoje uma das tags possíveis seria “caminhos”. Várias foram as referências circulares em torno do tema desde que acordei e olha que isso signifca “poucas horas atrás”, até porque sabe-se lá Deus que horas eram quando enfim fui dormir.

Por vezes é tão mais cômodo ter apenas um único caminho a seguir, o que nos isenta de tomar decisões e consequentemente de arcar com os seus resultados, mas parece que o “poder divino”  não aprova muito esse “acomodar”, pelo menos não por parte de algumas pessoas que parecem ter vindo ao mundo com uma missão bem definida, a de serem fortes para poderem, por sua vez, doarem aos outros que precisam esse mesmo “poder divino” que  receberam. Aquilo que Agostinho queria dizer com “Deus quer precisar de nós!” O que seria do mundo caso essas pessoas não existissem? Contudo, é necessário, tal qual o Batman dos filmes, que é forte e que agüenta a pressão em prol dos outros, que essas pessoas sejam treinadas. Que se permitam, nem que por exercício mental, experimentar um pouco das sensações dos que têm dúvidas, dos que não são tão seguros, talvez por isso, Ele dê essas chacoalhadas para nos chamar atenção. É como de Deus tivesse um MSN e usasse aquela ferramenta de “chamar atenção” em que a tela do outro parece estar sendo vítima de um terromoto interno. A mudança nem sempre será necessária, mas a chacoalhada servirá para nos manter alerta e até para valorizarmos as decisões que tomamos ou as que iremos tomar. O mais importante será sempre o estado de prontidão à mudança e não a mudança em si, já que a última depende em grande parte da primeira, e quando se fala em “qualidade da decisão” essa dependência é ainda maior.

Em uma das dinâmicas que faço com meus alunos, o contexto que lhes é apresentado é a de que um meteoro se aproxima do planeta e que dificilmente a vida humana como a conhecemos se  manterá. Eles então são convidados a, em uma lista com 16 personagens, escolherem 8 para ocuparem uma nave espacial que permitirá aos seus tripulantes chegar a um novo planeta e recomeçar a história humana. Dou-lhes apenas poucas características de cada personagem, algumas não muito agradáveis e todas elas certamente dúbias, para a coisa ficar, digamos, mais “agitada”. O trabalho normalmente é feito em grupo e depois que os grupos chegam, após muitas discussões, a uma conclusão, peço que justifiquem suas escolhas. É curiosa e até certo ponto engraçada a forma como cada grupo defende com unhas e dentes a sua seleção de tripulantes. Mais interessante mesmo é o que acontece depois. Quando pensam que a dinâmica será encerrada, descobrem que há uma segunda fase, onde eu dou novas informações sobre os personagens e aí acontece de tudo um pouco. Há quem não queira nem ouvir as informações novas, outros por sua vez, os mais maduros, fazem questão de analisar tudo novamente e dessa análise sempre surge algo melhor, o que não significa em hipótese alguma que os grupos mudem suas escolhas iniciais, alguns até têm mais certeza ainda do caminho escolhido.

A intenção de trazer informações novas é a de chacoalhar, não a de provocar necessariamente a mudança, que poderá acontecer ou não, isso será apenas mais um detalhe, como diria o Roberto Carlos. Se tenho um caminho e me é apresentado um novo, analisar o novo me faz reanalisar o atual e tendo informações agora sobre duas (ou mais) possibilidades, a decisão por mim tomada, seja a de continuar no caminho atual, seja a de pegar um novo caminho, me ajudará a caminhar com mais convicção. E a convicção (que é diferente de radicalismo) é fundamental na caminhada. Como no livro d’O Pequeno Príncipe, o tempo gasto com a rosa  foi que fez a rosa ser tão importante para o príncipe. Por vezes, o tempo que gastamos na escolha de um ou outro caminho é o que fará dele tão importante, tanto se escolhermos ir quanto se escolhermos ficar. Quem não tem alternativas, escolhas, possibilidades, acaba não dando importância ao que tem, nem ao que escolheu.


5 comentários:

  1. Ola, caro sebastião

    mais uma vez, acertei de dar uma passadinha por aqui, ou, aproveitando teu texto como mote, pegar esse atalho, no meio da floresta gigantesca pra ver o que trazias hoje. - Meio Chapeuzinho Vermelho, né. rsr -
    E, mais uma vez, valeu a pena - aliás, sempre vale e a minha alma é grande, dizem. :-)
    Uma delícia ler teus textos ainda mais quando se está com inquietações parecidas.

    Prefiro os muitos caminhos, as diversas bifurcaçoes e atalhos,ainda não percorridos - ao menos por mim - e que às vezes confundem e trazem o risco imanente de levar a lugar nenhum - se bem que lugar nenhum também é lugar - às certezas de caminhos já traçados, repletos de florzinhas silvestres pisadas e empoiradinhas, e murchas.
    Tomá-los exige coragem. Nem sempre há volta. Mas, sempre há a certeza de se ter tentado. E, lembrando o mesmo Roberto tu citastes: "eu prefiro as curvas".

    Como exvoto - praxe já, por mim, instituída e que peço: se te incomodas, sinalize que paro - aí vai - e repare na coincidência - um dos meus poemas favoritos.

    The Road Not Taken

    TWO roads diverged in a yellow wood,
    And sorry I could not travel both
    And be one traveler, long I stood
    And looked down one as far as I could
    To where it bent in the undergrowth;

    Then took the other, as just as fair,
    And having perhaps the better claim,
    Because it was grassy and wanted wear;
    Though as for that the passing there
    Had worn them really about the same,

    And both that morning equally lay
    In leaves no step had trodden black.
    Oh, I kept the first for another day!
    Yet knowing how way leads on to way,
    I doubted if I should ever come back.

    I shall be telling this with a sigh
    Somewhere ages and ages hence:
    Two roads diverged in a wood, and I—
    I took the one less traveled by,
    And that has made all the difference.


    abraço,

    "a mesma pessoa" :-)

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  2. Poor is the man
    whose pleasures depend
    on the permission of another


    anonim@

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  3. Caro(a) MP

    Se é pra sinalizar algo lhe digo que é muito bom receber seus comentários, só não sei, e digo com sinceridade se mereço tanto, mas se minhas postagens lhe fazem bem, ótimo. Agradeço ainda o costume de sempre me deixar algo em que refletir, como nesse belíssimo poema. Mas você escreve muito bem, deveria se arriscar também pela blogosfera, certamente me teria como leitor assíduo. Pense nisso! Abraços!

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  4. rezado(a) anonim@

    Fiquei curioso com sua citação... Só não sei se realmente a entendi. Gostaria de conversar mais sobre... Abraços!

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  5. Caro Sebastião,

    obrigado pelo convite a escrever meu proprio blog. Quem sabe tomo coragem e parto para a empreitada. No momento, mais reflexivo, prefiro, se me permites, ler o teu e dialogar contigo. Gosto de vir aqui vez por outra, ler despretenciosamente, encontrar tuas palavras e te enviar as minhas. Não te aborreças com isso. Peço-te. Encanta-me trocar ideias. É desejo antigo, de criança que queria ter um pen-pal em algum lugar do mundo. Aqui é mais rápido. Além do mais, me encanta, também, ler e comentar o que não é escrito diretamente para mim. "Porque eu?" "por que justo o meu blog?" Podes perguntar. :-) Não sei. Talvez por que tenhas respondido de forma tão gentil - êta palavrinha escassa. Talvez, nas entrelinhas, leio algo mais que o posto. Não sei. Só sei que gosto.

    A citação? Não sei. É o que me sugerem as entrelinhas. Quando falastes de caminhos, pensei nos que os tem, anseiam por segui-los, mas refreiam-se com medo do outro que, em boa parte das vezes, só existem dentro deles mesmos. Não sei. :-)

    De praxe:

    "Te desejo uma fé enorme.
    Em qualquer coisa, não importa o quê.
    Desejo esperanças novinhas em folha, todos os dias.
    Tomara que a gente não desista de ser quem é por nada nem ninguém deste mundo.
    Que a gente reconheça o poder do outro sem esquecer do nosso...

    Caio Fernando Abreu

    abraço,

    anonim@

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