sexta-feira, 27 de julho de 2012

POR QUE EXISTE A GESTÃO DE PESSOAS? (Sobre Feitores e Mentores)

Por esses dias escutei a pergunta que dá título a essa postagem. Na verdade, a pergunta saiu mais como um desabafo do que mesmo como um questionamento e embora tenha sido dita em contexto bem específico, ela ficou na minha cabeça, dando voltas como só as boas perguntas sabem fazer. Não, não vou aqui apontar respostas, conclusões, definições ou qualquer coisa parecida. Certamente não fará diferença alguma o que pretendo escrever, pois é apenas uma fotografia das elucubrações que minha mente fez ao ser submetida à roda viva de tão intrigante pergunta, catalisada pela própria liberdade de pensamento que me permiti dar, usando a questão apenas como um mote para raciocinar (ou racionalizar, dirão talvez os psicólogos). 

Lembro agora de saudoso professor que para "alfinetar" os adeptos, como eu, das abordagens mais comportamentais da administração, em uma de suas aulas nos disse que o primeiro gestor de pessoas que se tem registro histórico no Brasil foi o feitor de escravos. E não é que foi mesmo! Se foi uma "alfinetada", foi brilhante como o era também o professor. O fato é que a gestão de pessoas existe porque existem pessoas. Pode-se ser um gestor de pessoas bom ou deficiente, humano ou impessoal, companheiro ou tirano, servidor ou sádico, tolerante ou intransigente, mas se alguém lida de alguma forma com pessoas, seja no trabalho, em casa, na rua ou na mesa do bar, a pessoa é, quer goste ou não, um gestor de pessoas, cabendo-lhe apenas optar por qual tipo de gestor de pessoas lhe parece mais adequado, lhe cai melhor, lhe revela sua essência, seus princípios, suas ações: se um gestor de pessoas "feitor"; ou um gestor de pessoas "mentor". Ah, e por favor não me venham taxar-me de radical ou, pior ainda, me acusar de categorizar sem base científica tais polos. Se não ficou perceptível no primeiro momento, essa é uma dicotomia poética. Vale mais pelo efeito da rima (feitor/mentor) do que propriamente pela "cientificidade" da intransigente taxonomia que adora colocar tudo em "caixinhas" bem arrumadas. 

Nietzsche dizia que ninguém tira de um livro mais do que tem dentro de si. Concordo e amplio o pensamento, se assim me permitem, defendendo que ninguém, ao lidar com o outro, age diferente daquilo que tem dentro de si. Podemos até não gostar do "eu" que descobrimos nessas horas, mas ainda assim será o "eu". 

Durante muito tempo a conversa de valorizar as pessoas nas organizações  foi apenas um discurso bonito de manipulação. Ainda hoje há muito (muito mesmo!) disso, mas não mais "apenas" disso. Olhando a história em perspectiva, percebemos que no modelo agrícola-feudal detinha o poder quem possuía a "terra"; no modelo mercantil-industrial o poder estava com o detentor do capital; mas no modelo informacional para o qual estamos caminhando a passos largos, o que importa não é tanto o capital, nem muito menos a "terra", mas o conhecimento. Obviamente que ter "terra" e capital ajudam, mas não determinam necessariamente quem terá acesso ao conhecimento. Pela primeira vez na história da humanidade o poder está nas mãos dos trabalhadores (que possuem conhecimento) e numa sociedade que a cada dia estabelece mais seu funcionamento sobre essa base informacional, escolher agir como feitor é não só cada vez mais obseleto como também pouco inteligente. E não adianta querer fingir ser mentor, pois na era da metáfora da informação que ocupa aos poucos a metáfora da máquina, não há nada mais valioso do que a autenticidade. Do mesmo jeito que informação falsa é informação sem utilidade, um gestor não autêntico é sério candidato a servir de deboche, como acontece com a personagem do Steve Carell no seriado The Office, um chefe que "se acha" mas que não é  levado a sério por ninguém.

Jesus voltando hoje à terra talvez atualizasse suas bem aventuranças para algo do tipo: bem aventurados os que se sensibilizam, os que se emocionam, os que são autênticos, os que percebem (realmente) que do outro lado da mesa do escritório, que na caixinha de baixo do organograma, que na carteira escolar a sua frente, que na maca funcionalmente disposta nos ambulatórios, que no aconchego dos lares ou que nos sites de relacionamento, não estão apenas empregados, subordinados, alunos, pacientes, filhos ou amigos, mas sim pessoas, seres humanos, sensíveis, complexos, contraditórios, maravilhosos, enfim, gente! 

Fui testemunha ontem de uma belíssima ação de mentoria para com pessoas com quem a vida não tem sido muito fácil, pessoas simples, mas muito humanas, demasiadamente humanas como diria novamente o Nietzsche. Da mesma forma que, como diz um provérbio de um local que não lembro qual, quem realiza seu trabalho como máquina torna seu agir como máquina, quem faz seu trabalho de forma humana torna a (nossa) vida mais humana. Que bom que existem pessoas assim no mundo, bem aventuradas, bem aventureiras! 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

CONTOS DA LUA #1: Luiz e Maria (julho, 2012)


A série sobre "Contos da Lua" foi idealizada na postagem "Mundo da Lua" e comentada em outras postagens (clique AQUI para lê-las) que têm, neste blog, a palavra "lua" como tag. Na última dessas postagens, "Sobreviver (um preâmbulo aos contos da lua)", prometi que a cada nova lua cheia, poria no ar um novo conto da lua, exceto o primeiro desses contos, agendado para o meio desse mês, mesmo sem ser lua cheia, porque remonta a uma data especial acontecida há quase 40 anos, data, à época, que ocorreu sob lua cheia. A data era 14 de julho, porém, por uns compromissos assumidos de última hora, só hoje estou conseguindo pôr no ar o primeiro conto da lua: a história de um casal que durante anos sonhou um com o outro tendo a lua como elemento de ligação, que se conheceram há pouco mais de 40 anos, começando a namorar em seguida, e que num 14 de julho, dia da queda da Bastilha, marco da Revolução Francesa, há 39 anos, ficaram noivos, vindo a casar pouco mais de 2 anos depois. Esse conto é a versão da lua para o amor de Luiz e Maria, meus pais.

Ele nasceu no interior de Alagoas. Ela no interior de Pernambuco. A cidade dele protegida por Santana, mãe de Maria. A dela, protegida por São José, esposo de Maria. Santana do Ipanema e Bezerros, os nomes da cidade. Mas não nasceram no centro, nasceram na área rural. Ele num povoado chamado Queimadas do Rio e ela num lugarejo chamado Beira do Rio. O rio dele era o Ipanema, o dela o Ipojuca, ambas palavras indígenas que significam "água sem peixes" e "água escura", respectivamente. Ambos nasceram sob luas cheias. Ele nasceu no dia de São João. Ela no dia do professor. Coincidentemente os três filhos deles seriam mais tarde professores.

Ele, a noite, olhava para a lua e desejava ir para um lugar maior onde pudesse trabalhar no que gostasse e não no roçado. Ela, a noite, olhava para a lua e desejava ir para um lugar maior onde pudesse estudar. Ele sempre foi muito traquina. Ela sempre muito esperta. Ele muito sorridente. Ela muito séria. Ela veio primeiro para o Recife, na verdade Jaboatão, bairro de Cavaleiro. Ele veio depois para o Recife, na verdade Olinda, bairro de Ouro Preto. Ela foi morar com os avós paternos. Ele com os tios. Acabaram se encontrando, agora sim, em Recife, na mesma rua, Direita, centro da cidade, trabalhando em lojas quase de frente uma para a outra. Ele insiste até hoje que era ela que olhava para ele. Ela jura que era o contrário. O que ninguém explica é como um sabia que o outro olhava. A lua acabou o mistério, eles olhavam, disse-me ela, alternadamente, um para o outro, talvez por isso explique-se o fato de que minha cena de cinema favorita seja a de um casal fazendo coisa parecida (para ver a cena no youtube, clique AQUI).  O poder do olhar...

Um dia, final de tarde, começo da noite, ela larga do trabalho para ir à escola. No meio do caminho uma chuva, uma chuva no meio do caminho. Ela se protege debaixo da marquise de uma loja. Ele havia saído antes, mas a chuva o pegou também no caminho e lembrou-lhe do guarda-chuva esquecido. Voltou para buscar. Enquanto voltava a encontrou. Disse-lhe para esperar que ele estava indo buscar o guarda-chuva e lhe daria uma "carona". Ela esperou. Ele a levou à parada. Ele pegou o mesmo ônibus que ela, que ia para o lado oposto de onde ele morava. Iria fazer companhia a ela até o colégio. Bem, nesse dia ela não assistiu aula. De modo irônico, pode-se dizer que três professores vieram ao mundo porque a mãe deles, uma vez na vida, resolveu matar aula, tentada que foi pelo simpático pai deles que tinha uma conversa eloquente e cativante. A lua que testemunhou aquela primeira conversa e o início daquele namoro era crescente, tão crescente quanto o amor deles se mostraria ao longo dos mais de 40 anos que se seguem desde então.

Nem tudo foi tão perfeito. Brigaram por motivo que mereceria uma crônica só sobre isso (quem sabe um dia) e o afastamento deles foi doído demais um para o outro, e doído para a lua que não mais via junto o casal que ela um dia viu nascer, crescer, sonhar, lutar, se encontrar e se apaixonar. A reconciliação ocorreu quando o avô dela adoeceu e ele foi ao hospital fazer uma visita. Ela o acompanhou quando saia e descendo pelas escadas, olhando um para o outro, ele a pegou em seus braços e a beijou. Ambos sentiam muita falta um do outro. Será mais uma coincidência que a segunda cena de cinema que eu mais gosto (cena com o mesmo casal mas num segundo filme, que é uma continuação do primeiro) seja justo numa escada? (Não encontrei a cena completa no youtube, mas AQUI há um link para o thriller do filme e em 1'38", mais ou menos, dá para ver um curto trecho da cena).  Como a reconciliação aconteceu na escada, a lua não viu o beijo, mas deu seu testemunho de que a luz havia voltado ao olhar daqueles dois jovens, luz que refletia a luz da lua que refletia a luz do sol, reflexos de um amor sem tamanho.

Mas a prova definitiva ainda estava por vir. Pouco tempo depois do noivado naquele 14 de julho, ele foi transferido para Salvador, onde passou cerca de um ano. Numa época onde telefones fixos eram raros e caros, onde celulares com ligações mesmo que limitadas não existiam, mensagens de sms não eram nem mesmo sonho e e-mails só em ficção científica, aquele amor se sustentou a base de cartas que demoravam alguns dias para chegar ao seu destino. E foram centenas de cartas que os filhos se divertiram muito lendo, anos depois, quando foram reunidas em vários blocos. Riam daquelas cartas tão sensivelmente ridículas, pois como disse Fernando Pessoa, "todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas". Só quem ama entende o que dizia aquelas cartas ridículas, narrando pequenas coisas do cotidiano e a saudade que aplacava aqueles dois corações separados por mais de 800km. A lua foi de extrema importância nesse momento. Eles mandavam recados um para o outro através dela. E quantas vezes, ao olharem ao mesmo tempo para a lua, pelo seu reflexo, se viam e se amavam ainda mais.

E eles se casaram em noite de lua cheia. E em noites de lua crescente, uma em dezembro de 1976, outra em fevereiro de 1978 e a última em fevereiro de 1982, a família cresceu. E cresceu o número de histórias que a lua poderia contar sobre o amor daqueles dois. Vou contar uma das mais recentes. Ela foi diagnosticada meses atrás com uma doença muito séria que careceria de uma complexa cirurgia no cérebro e de um tratamento posterior. No hospital ele fez questão de ficar a maior parte do tempo possível com ela. Ele que sempre sorria chorou várias vezes, mesmo tentando ser forte na frente dos filhos. A lua testemunhou a conversa das enfermeiras que se admiraram de como eles se amavam, de como ele a beijava sempre e com muito carinho, mesmo depois de tantos anos casados. No dia da cirurgia que durou quase 10 horas ele não arredou o pé do hospital. Eu estava ao lado dele praticamente todo o tempo e dava pra entender o que o Nando Reis quer dizer quando canta "...pra você guardei o amor que aprendi vendo os meus pais..." 

Minha fé de filho ainda é pouca, admito, mas a fé que surge do amor salva e cura, e embora ainda em tratamento, o fato dela ter saído da cirurgia sem sequelas e estar se recuperando a cada dia, mostra que a cura diária acontece mesmo pelo amor, disso não tenho mais dúvidas.

Minha oração é para que Deus continue a abençoar esse amor tão antigo para que a lua possa me contar feliz, novas histórias sobre eles, mesmo que elas não venham parar aqui neste blog, até porque a lua quer que eu conte outras tantas histórias que ela testemunhou em suas mais diversas fases. Assim, até a próxima lua cheia!

sábado, 7 de julho de 2012

CUIDAR


Ao contrário de minha postagem anterior, mais impulsiva, esse texto está mais condizente com o espírito do blog pois vem de longa data a vontade de escrever sobre o assunto. Falar de doença nunca é fácil, talvez por isso a dúvida sobre conseguir ou não falar sobre. Bem, talvez uma doença, digamos, mais física fosse um pouco mais fácil, mas uma doença de fundo psicológico carrega sempre uma certa dose de preconceito, como se pegar uma gripe fosse aceitável, mas ter depressão, não. Confesso que o preconceito primeiro e maior foi mesmo meu, em relação a mim mesmo, embora não seja fácil para as pessoas encarar esse tipo de doença, pois não somos ensinados a lidar com isso. Talvez por essa razão também, para poupar as pessoas do constrangimento de não saber o que dizer, que acabei contando para um número muito reduzido de pessoas e mesmo nessa pequena amostra deu pra sentir como é difícil lidar com alguém assim. A quem ler essa postagem peço, se possível, que não se preocupe em falar algo da próxima vez que nos encontrarmos, apesar de tudo, continuo sendo o mesmo de sempre, ou talvez não, mas o importante é que é algo que faz parte da vida e da natureza humana, mais comum do que podemos supor, por isso, relaxa (risos). Eu tenho ouvido tantos desabafos de pessoas que passam por problemas semelhantes e que me pedem conselhos, que não estive sendo honesto em não contá-las que o que me faz entender tão bem e ter uma afinidade fora do comum, como me disseram outro dia, com pessoas que passam por tais dificuldades, é justo por experimentar em mim mesmo, tudo aquilo que me contam reservadamente.

Há pouco mais de um ano atrás recebi o diagnóstico da depressão. Embora vários indícios e fatos anteriores (alguns bem anteriores) já indicassem isso, os sintomas e sentimentos à época não deixaram dúvidas. Meu médico então, me sugeriu fortemente procurar um terapeuta, indicando até um nome. Confesso que saí do consultório abatido, embora nada surpreso, pois era algo já evidente, mas ouvir o diagnóstico não foi fácil. Fiquei com o nome e o telefone da terapeuta por vários dias, pensando se ligaria ou não. Decidi procurar no google qualquer coisa que me falasse sobre a profissional, mas é evidente que as reservas do processo terapêutico não estariam assim expostas na Internet e sim, nem tudo está na rede. Por coincidência (ou seria melhor dizer sincronicidade?), quando desisti de saber algo mais sobre a terapeuta, ao entrar no facebook, me deparei com um convite para participar de um grupo de arteterapia que começaria em poucos dias, com apenas 10 vagas disponíveis. Não sabia realmente do que se tratava, mas tomado por um impulso pouco comum a mim nesses assuntos, de imediato enviei um e-mail pedindo mais informações. Fui respondido rapidamente pelo facilitador e acabei confirmando minha inscrição no grupo.

De certa forma a razão pela qual estou escrevendo agora é porque neste dia de hoje, 07 de julho (7 de 7, e o 7 é um número que merece uma postagem só para ele), faz um ano do primeiro encontro do grupo. Fui apenas para ver como era, dizia para mim mesmo. Acabei indo, a partir daquele dia, até o final do ano, todas as quintas-feiras à noite para o encontro. E se alguém ouviu de mim qualquer justificativa para não ir a algum compromisso na quinta à noite, tal como "grupo de estudo", "preparação de seminário para o dia seguinte no doutorado" ou outra explicação esfarrapada qualquer, peço que me desculpe. Não fiz por mal. Éramos 10 no primeiro encontro; 5 no último. Mas não éramos certamente, os mesmos 5 daquele grupo de 10 do primeiro dia. Muito em nós começou a mudar ali e continua até hoje...

Nesse primeiro dia, de posse do endereço, terceiro andar de um prédio do Recife Antigo, chego num bar onde ninguém sabe de nada. Dou voltas em torno do local e já pensando em desistir resolvi fazer uma última tentativa ligando para o facilitador e depois dele me atender dando o bar como ponto de referência, que era em frente ao prédio correto, entendi que, por uma dessas loucuras de quem determina os endereços, a rua tinha a mesma numeração tanto do lado esquerdo quanto do direito. Descobrindo enfim o local, subi até o terceiro e último andar do prédio em uma escada que rangia mais do que em filmes de terror. O aspecto sombrio do prédio antigo também não ajudava muito, mas incrivelmente eu subi com muita confiança e só mais tarde, quando o facilitador evocou a possibilidade de que alguns de nós talvez tivesse ficado ressabiado com a escada e a aparência do prédio, foi que eu percebi que deveria ter me sentido assim, mas não fiquei. Durante o encontro e em outros tantos mais, certamente como um mecanismo de defesa, procurei me abstrair da situação como se eu estivesse ali para observar e ajudar os outros e talvez aprender algo que me ajudasse em sala de aula, sem reconhecer que eu precisava de ajuda. Isso foi mudando aos poucos e talvez até hoje não tenha mudado completamente, mas mudei muito minha postura ao longo das semanas.

Não vou falar das pessoas do grupo e nem do que lá acontecia, até porque o processo terapêutico é reservado, mas posso dizer que me impressionou muito como cada atividade artística que realizamos contava mais um pouquinho de cada um de nós e até de mim que sempre fui muito reservado para a maioria dos assuntos. O tema escolhido pelo facilitador para o grupo é o mesmo que dá o título dessa postagem, "cuidar", e isso sincronicamente tinha muito a ver com o que me levou até lá. Era preciso sim cuidar dos outros, mas sobretudo, cuidar de si próprio. A lição é tão difícil de aprender que ainda hoje incorro nos mesmos erros, mas ao menos reconhecer-se errado ou talvez limitado seja o princípio da mudança. Assim espero, pois os encontros acabaram enquanto entidades físicas, concretas, objetivas, reais, mas continuam enquanto momentos que passam a fazer parte da vida da gente. Dá para entender melhor o que a raposa disse ao pequeno príncipe no livro do Exupéry de que tudo valeu a pena pelos "campos de trigo". Na passagem o príncipe se despede da raposa que, na sequência, diz que vai chorar, mas que valeu a pena toda a amizade, porque sempre que ela olhasse os campos dourados de trigo lembraria dos cabelos dourados no pequeno príncipe. Assim, não são com os mesmos olhos que hoje vejo tintas, lápis, cartas de tarô, máscaras, músicas, papéis, recortes... tudo valeu a pena, muito a pena, tudo foi, é, e sempre será muito "ok".  E por falar em olhos, talvez tenha sido o principal elemento que me "perseguiu" durante aqueles meses... como foi difícil olhar nos olhos, falar sobre o olhar, ouvir falar sobre não olhar e como foi bom aprender a "olhar nos olhos", a enxergar com os olhos da alma, enfim com os dois olhos e não apenas um, como nuns bonecos japoneses que também fizeram parte dessa história.

Hoje, passado exatamente um ano, bate aquela sensação de não ter conseguido avançar. Sei que meus amigos de jornada no grupo arteterapêutico também de vez em quando pensam assim. Mas da mesma forma que não se atravessa o mesmo rio duas vezes, porque nem o rio e nem nós somos os mesmos, ao menos estamos diferentes, mais felizes quem sabe, mas com certeza mais fortes e mais preparados para enfrentar os nossos próprios medos, anseios, dúvidas... A vida tem seus altos e baixos como nas montanhas-russas, mas isso é quase mais um detalhe. Que esta mensagem nos ajude a cuidar mais, dos outros e de nós mesmos. Sempre!

sexta-feira, 6 de julho de 2012

LIÇÕES DA MADRUGADA


Essa não é uma postagem característica desse blog, onde as ideias são trabalhadas aos poucos até se amarrarem em um texto que reflita um pouco daquilo que penso. Essa postagem é mais impulsiva, por isso que não se espere dela nenhuma amarração mais elaborada ou mesmo mais sofisticada.

Mais uma dessas noites de insônia, sem a leveza característica de tempos de outrora, e zapeando pelos canais da TV para me distrair de alguma forma, resolvo assistir as entrevistas do Programa do Jô e dentre elas a entrevista que me fez vir aqui querer escrever algo ainda que sem noção de exatamente o que.

A segunda entrevistada foi a Eliana Zagui, escritora e pintora. Contudo o mais inusitado é que Eliana, vítima na infância de poliomielite, tem o corpo inteiro paralisado exceto por alguns músculos do rosto que a permitem através de técnicas específicas pintar, escrever, usar notebook e celulares. Eliana tem dificuldades para respirar e o mais impressionante é que mora desde os dois anos de idade no Hospital das Clínicas (creio que do Rio de Janeiro). Hoje ela tem 40 anos. Ou seja, quando eu nasci ela já morava há pouco mais de dois anos num hospital.

Fiquei pensando, no início da entrevista, quão angustiante deveria ser a vida dessa mulher, até porque, não ter movimentos como ela, sempre foi um de meus grandes pesadelos, e acabei percebendo que eu, com todos os movimentos, talvez me angustie mais do que ela pois acabo não valorizando as pequenas coisas do dia-a-dia, como por exemplo, poder estar aqui no notebook digitando esse texto, partilhando esse momento.

Pensando nessas pequenas coisas, pensei como é uma experiência ímpar, de completude, saborear determinados gostos, sentir certas texturas, olhar fotografias de alguém especial, sentir um cheiro que não se esquece nunca, ouvir uma voz que mexe com nossas emoções. E ficamos nós preocupados com tantas coisas sem importância, catalisando nossos problemas de modo a nos tornarmos reféns de situações criadas por nós mesmos, presos ao ontem e ao amanhã, esquecendo de viver o hoje, de pensar o presente, de valorizar a alegria de estar vivo e a certeza de saber que existem pessoas a quem amamos e que nada que aconteça pode mudar esse sentimento, pois quando é amor, é para sempre.

Obrigado Eliana, obrigado por me mostrar de forma prática, dura e direta que felicidade é apenas uma questão de ser. Eliana é feliz. Eu quero ser feliz como ela é. Boa noite! Hora de deixar a insônia de lado, rezar (muito) e dormir. Amanhã é um novo dia e isso não é retórico, é realidade.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

SOBREVIVER (um preâmbulo aos contos da lua)

Terminei minha última postagem citando passagens da música "Tocando em Frente", do Renato Teixeira e do Almir Sater. Retomando-a, se não me sinto mais feliz (ou até me sinta, quem sabe), certamente "hoje me sinto mais forte". Considerando que há um ano atrás, nesses mesmos primeiros dias de julho, cheguei a achar que não havia luz ao final do túnel, embora ainda me considere perdido na escuridão desse mesmo túnel da vida, aprendi que a luz não precisa estar apenas no fim, mas no próprio caminho, luz emitida por pessoas que passam e pelas que são companheiras de jornada. Bem aventuradas porém são aquelas pessoas que nos ensinam a enxergar nossa própria luz, que nos encontram com menos de dez por cento de nosso potencial e nos ajudam a multiplicar essa força interior que a psicologia chama de anima. Uma vez que a tenhamos encontrado, que tenhamos percebido que a fonte geradora dessa luz está dentro de nós mesmos, não há como se esquecer disso mesmo diante de uma aparente escuridão, pois "cada ser em si carrega o dom de ser capaz, de ser feliz".

Antes, fazia distinção entre "viver" e "sobreviver", como se o segundo fosse necessariamente negativo. Pode ser que sim, mas também pode ser que não. Maslow em sua teoria da hierarquia das necessidades para explicar a motivação, já mencionava que é preciso suprir as necessidades mais básicas antes de aspirar necessidades mais elevadas. Embora isso não seja um caminho único, certamente é um caminho lógico ou ao menos um caminho possível. Antes de desejar sonhos maiores, antes de almejar viver intensamente, pode ser preciso sobreviver. Sobreviver às adversidades, sobreviver às próprias limitações, sobreviver à escuridão. Pois são as adversidades que nos ensinam a viver a intensidade. São as limitações que nos ensinam a viver todo nosso potencial. E como diria outra música, "não haveria luz se não fosse a escuridão".

Assim, hoje voltei a fazer yoga, aprendendo a me manter firme mesmo nas posturas mais desconfortáveis, a respirar lenta e profundamente, e a relaxar ante toda a tensão do mundo. Resolvi tornar a buscar a sincronicidade e pouco antes da sessão da yoga, folheei uma revista onde três matérias em sequência falavam, "coincidentemente", de três aspectos de minha vida que eu já havia notado que precisava mudar: aprender a dizer não, ter um pouco mais de autodisciplina e melhorar minha alimentação. Se minha vida fosse um "Show de Truman" as câmeras teriam captado em close a minha cara estupefata diante desta sincronicidade pessoal. Pode ser até que não diga nada para a grande maioria das pessoas, mas disse muito, em alto e bom tom, para mim. Isso foi antes da yoga. Depois, enquanto dirigia para casa, me deparei com ela olhando intensamente para mim. Sim, ela, a lua. Estava cheia e bela como sempre, com seu olhar de pesquisadora, um tanto quanto distante, mas era ela ainda, a mesma que me contou tantas histórias e que me prometeu contar tantas outras e que me comprometi a escrever sobre elas aqui (para quem não entendeu essa última referência, sugiro dar uma lida na postagem No Mundo da Lua).

A lua me disse então, que está na hora de colocar em texto algumas das histórias que ela me contou, nem tanto porque as histórias precisam ser contadas, mas porque eu preciso contar histórias e me pediu que eu fosse disciplinado ao fazer isso. De modo que a prometi que a cada lua cheia eu escreveria sobre um novo "conto da lua". Contudo, uma exceção para a primeira das histórias, pois é uma história especial e será postada aqui somente no meio do mês, para comemorar o aniversário de uma data de muitas décadas atrás. Naquela data, era lua cheia! Então o conto da lua cheia desse mês de julho será um conto de lua cheia de décadas atrás. Nos meses seguintes, se minha autodisciplina planejada funcionar, a cada nova lua cheia postarei um novo conto da lua, histórias de pessoas que a lua acompanhava, por vezes antes mesmo dessas pessoas se conhecerem.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

ORAÇÃO


Há dias em que apenas a oração é capaz de ajudar a preencher nossos espaços vazios. Me sentia assim ontem, tanto que fugi de boa parte de uma festa de aniversário para ir a uma missa próxima do local da festa. Minha esperança estava em escutar o que Deus tinha para me falar pois aprendi com o tempo a confiar nas leituras programadas para cada dia. Chegando lá me lembrei que, quando a festa dos santos Pedro e Paulo acontece no meio da semana, a transferem para o domingo mais próximo. Assim, as leituras de ontem foram as da festa dos santos considerados "colunas" da Igreja e não as do 13º domingo do tempo comum. Por um lado foi bom ouvir uma de minhas leituras preferidas, aquela em que Paulo, perto da morte, emite sua declaração de missão cumprida ("combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Desde já me está reservada a coroa da justiça que o justo juiz me reservou"). Paulo podia morrer tranquilo pois tinha a certeza de que fez o seu melhor. Ao contrário de me inspirar como tantas vezes fez, a leitura me deixou ainda mais agitado. Tive muito medo de morrer (estou com esse medo ainda), medo não da morte em si, mas de não ter aproveitado a vida para fazer o meu melhor. Ou pior, medo de a vida inteira ter achado que fazia o melhor e, de repente, perceber que tudo foi, não só inútil, como também uma ilusão que me deixou bem longe de poder um dia merecer usar o mesmo discurso de Paulo.

Voltei para a festa vestindo um sorriso que agradou muito meu sobrinho que se fartou de brincar com o tio (bem, na verdade, eu cansei bem antes dele, mas ele é insistente e terrivelmente simpático quando quer algo - risos) e acho que assim sentiu menos a ausência do pai que não pôde ir à festa com ele. Mas o que fazer com minhas próprias ausências, com a minha própria ausência? A pergunta retumbava na mente e, à noite, antes de dormir, a agitação continuava. Recorrendo mais uma vez à oração, pensei em ler o evangelho que teria sido lido nesse final de semana não fosse a coincidência com a festa de Pedro e Paulo. E era uma leitura de cura, de amor, de entrega...

Jesus está famoso, tanto que multidões acorrem até ele. A notícia de seus milagres se espalha. Jairo, o chefe da sinagoga, se joga aos pés de Jesus e pede que o galileu cure sua filhinha à beira da morte. Fiquei pensando naquele homem. Tão poderoso no local, dava ordens que eram cumpridas, era reconhecidamente importante, alguém que representava o próprio Deus diante do povo, mas diante da filha doente se reconhece incapaz, mais ainda, percebe que nada do que tivesse feito até então valeria a pena se não tivesse junto a si, sua filha querida, tão amada e que se encontrava doente. Ele sem ter (ou sem saber) mais o que fazer, se joga diante de Jesus pedindo a cura da filha, é o que lhe resta, entregar-se em oração. Nessa hora me lembrei de uma música católica bem tradicional, das que minha mãe, quando eu criança, cantava para me pôr para dormir e que dizia "a melhor oração é amar; se não sabes amar, tu não deves orar, a melhor oração é amar". Nessa hora, alguns homens chegam com a notícia da morte da menina, mas Jesus, vendo o quanto aquele homem amava a sua filha, diz: "ela não morreu, ela apenas dorme". É certo que os homens não creram nisso e não acreditaram porque eles não amavam. Ainda que aflito, ainda que angustiado, ainda que temeroso, é certo que Jairo acreditou, pois ele amava, sua melhor oração não era a oração das sinagogas, era a oração do amor. E é certo que ele acreditou pois quando Jesus disse à filha de Jairo: "talita cumi" (menina, levanta-te), ela despertou bem, para alegria daquele pai que reconheceu que nada mais no mundo é tão importante como a presença de quem se ama.

Jairo nos ensina que a cura é diária e está relacionada à entrega de nossas vidas nas mãos de Deus, pois ninguém nos ama mais do que Ele. Ele já nos amava antes do nascimento, antes que nos formássemos no ventre de nossa mãe. Por isso, quando deixamos que Deus cuide daquilo que não podemos nós mesmos cuidar e fazemos nossa parte naquilo que podemos cuidar, com fé e paciência, é certo que despertaremos como a filha de Jairo da morte para a vida. E mais uma vez teremos a chance de fazer o melhor e quem sabe, um dia, na nossa hora derradeira, tal qual Paulo, poder se entregar, enfim, definitivamente, nos braços do Pai, certos de termos cumprido nossa missão.

E foi pensando em Jesus, em Jairo e sua filha, e no amor que une as pessoas por todo o sempre, aliado ao cansaço de ter sido pai substituto por um dia, que adormeci, deixando Deus cuidar um pouco de mim e de minhas angústias. Se não acordei mais feliz, ao menos acordei como na música, com vontade de continuar "tocando em frente, como um velho boiadeiro, levando a boiada" e pensando que "vou levando os dias pela longa estrada, eu vou, estrada eu sou..."

quinta-feira, 7 de junho de 2012

MINHA VIDA, MINHA GREVE


Esta postagem é na verdade sobre a greve dos professores das instituições federais de ensino, mas eu ainda demoro um pouco para falar diretamente sobre o assunto, portanto, aos interessados no tema (e sei lá, em saber minha opinião), esperem um pouco. Quem não se interessar é só parar por aqui ou ler outras postagens do blog.

Era uma vez um menino que aos três anos resolveu que queria ir para a escola e já no primeiro ano fez, o que chamavam naquela época de Jardim I e Jardim II no mesmo ano, dado o bom aproveitamento dele. Isso também ajudou seus pais, que receberam uma bolsa do governo nos anos seguintes para que ele pudesse continuar naquela escola, a Escolinha da Mônica, uma escolinha de bairro, mas uma boa escola. 

Ele seguiu com a bolsa até encerrar o primário na quarta série (hoje 5º ano do ensino fundamental) e ao mudar de colégios para fazer o ginásio (hoje do 6º ao 9º ano do ensino fundamental) ele conseguiu "levar" essa bolsa, o que permitiu que seus pais pudessem manter os outros dois filhos nas mesmas escolas. 

Quando estava prestes a ir para o segundo grau (hoje, ensino médio), os pais haviam melhorado um pouco a condição financeira e ele já sonhava em ir para um colégio desses famosos (e caros) porque só assim teria condições de passar no vestibular, rezava a lenda. Mas aí o destino apronta das suas e seu pai perde num incêndio o local onde comercializava suas coisas. Entra o menino, agora um adolescente tímido, na seleção por meio de histórico escolar em uma escola pública das mais concorridas. Consegue, mas vai ao primeiro dia de aula assustado, com medo das histórias que ouvira sobre a qualidade dessas escolas. Lá encontra um grupo de professores prestes a se aposentar, que haviam sido oriundos de uma época em que as escolas públicas eram referência e ser professor delas era atraente de várias formas, tanto financeira como socialmente prestigiada. Naqueles dias porém, o salário já estava em muito defasado, a biblioteca da escola parecia um museu, e sua primeira sala de aula tinha uma assustadora armação de madeira que sustentava o teto para que este não caísse sobre a cabeça dos alunos. Greves eram uma constante, na busca dos professores por melhores condições salariais e de infraestrutura para os alunos, mas surtiam pouco efeito. Contudo, aquela leva de bons professores antigos acalentava ainda esperanças de ao final da carreira fazerem alguma diferença nas vidas daqueles alunos desmotivados por uma péssima estrutura física, e pelas fragilidades de novos professores que foram selecionados "por baixo" porque os melhores professores preferiam ir para outras oportunidades de trabalho onde ganhariam mais, já que negociar com o "patrão" governo era infrutífero. 

Esse adolescente que acabara de completar 16 anos terminou o segundo grau nessa escola e foi um dos dois únicos alunos de sua turma que passou no vestibular para uma universidade pública e federal naquele ano, mesmo ocupando a posição de número 187 em 200 vagas disponíveis (Administração era um dos cursos como maior número de vagas). O menino sabia que a sofrível aprovação teve muito de seu mérito, mas ao encarar as provas do vestibular, viu também que devia muito aos professores que teve, às oportunidades que conseguiu, e a grande maioria delas surgiu de políticas públicas, ainda que paliativas e deficientes. 

Ele jovem, começa a sua graduação e encontra professores naquela época já desmotivados, sem interesse, lutando novamente por melhores salários e recebendo insistentes "nãos" do "patrão" Governo Federal. Muitos dos bons professores foram embora atrás de locais onde pagassem mais, mas felizmente encontrou ainda ali, um bom número dos que tinham prazer no que faziam, que lhe deram verdadeiras lições profissionais e de vida, que se tornaram seus mentores, apesar das dificuldades que enfrentavam para dar seu melhor. Mesmo não conseguindo negociar com o governo, mesmo recebendo "nãos", mesmo tendo oportunidades de buscar fora melhores oportunidades, resolveram ficar e fazer a diferença. Lá ele terminou a graduação, fez seu mestrado e agora faz seu doutorado.  

Muitos desses excelentes professores se aposentaram, alguns bons professores entraram, mas a defasagem salarial certamente afastou muitos novos excelentes professores que foram seduzidos por maiores vantagens salariais. Ele próprio trabalhou na iniciativa privada ganhando mais do que o dobro do que recebe hoje como professor dessa própria universidade federal, e saiu não em busca de estabilidade no emprego, mas sim de autonomia para poder trabalhar, de oportunidade para ajudar os alunos a crescerem, enfim, em busca de um sonho.

Nos três anos que lá está, num campus avançado no agreste pernambucano dessa mesma universidade que estudou, viu coisas maravilhosas, como ter alunos de 14 cidades diferentes da região em uma mesma turma e jovens que sem essa política pública de interiorização nunca teriam a oportunidade de serem os primeiros universitários de suas famílias. Ele próprio foi o primeiro universitário da família, tanto pelo lado paterno quanto pelo lado materno. 

Ele passou por uma seleção difícil, sendo o primeiro lugar dentre 32 inscritos, mas é bom que se diga que a vaga para professor assistente (que pede apenas mestrado) só surgiu porque ninguém com doutorado se interessou em ir para um campus no interior que não tinha nenhuma vantagem financeira extra e que ainda funcionava precariamente num polo de confecções sem uma estrutura adequada à função que deveria se prestar. 

Pouca coisa mudou nesses três anos e é justo esse o problema, ele não sabe ainda o que é um aumento de salário, embora tudo a sua volta tenha aumentado de preços. Ao abastecer o carro ele pagava em torno de R$1,50 por litro de combustível naquela época do concurso, hoje para R$2,76. Ele faz parte de uma comissão de concursos que analisa a documentação dos candidatos e uma vaga para professor na área de sistemas de informação não teve nenhum doutor apto inscrito para esse campus no interior. E quem entrar agora terá um teto para se aposentar, bem abaixo (muito abaixo) do salário final que receberá. 

Ele quer continuar nessa instituição, quer mesmo, ele quer fazer a diferença, ele quer ser como seus excelentes professores, mas teme muito que o nível das seleções continuem a cair, que a carreira fique cada vez mais desprestigiada, que cada vez menos pessoas sonhem em ser professor, apenas porque o governo não está se importando e eles então devam ir atrás de novos "patrões" na iniciativa privada. Ele ainda pôde contar com os arremedos de políticas públicas, mas e os alunos dos próximos anos? 

Ele queria muito estar errado, mas a cada dia que passa percebe que seus prognósticos são verdadeiros e sua conta bancária e os postos de gasolina insistem em lembrá-lo disso. Assim, como ele não quer simplesmente pegar suas coisas e ir embora negociar com "patrões mais simpáticos à sua situação financeira" e porque prefere ainda acalentar seu sonho  e oferecer aos alunos um pouco das oportunidades que teve na vida, ele tem que apoiar a greve, ainda que, infelizmente, traga problemas para os alunos, mas certamente os problemas deles e dos futuros alunos serão bem maiores no futuro.

Ah, desnecessário dizer que o menino da história sou eu mesmo não é? O próprio título da postagem já acabava com o pseudo suspense: "Minha Vida, Minha Greve".

"E Sereis Como Deuses..."


Lembro que o que salvou minha fé quanto à divindade da Bíblia foi a descoberta de sua humanidade. Adaptando citação de Santo Agostinho para o Cristo, mas que se adequa perfeitamente à origem dos livros bíblicos, estes “são tão humanos, mas tão humanos, mas tão verdadeiramente humanos que só poderiam ser divinos”.

O Gênesis é, por exemplo, um grande livro de poesias, o que não o torna menos verdadeiro, ao contrário, pois as poesias têm o grande poder catalisador da verdade imbuído dentro de si e só quem um dia amou verdadeiramente sabe como algumas palavras têm força de realidade.

Pois bem, mas isso é para citar a história lá de Adão, Eva e a Serpente. Deus cria o homem e a mulher, dá a eles o paraíso, apenas pedem que não comam os frutos de uma determinada árvore e Ele, Deus, faz isso não com o sadismo que alguns costumam atribuir a Ele, mas sim como uma mãe que pede que seu filho não coma algo que lhe faça mal, pois a mãe sabe que o filho irá sofrer com aquilo e mais ainda, que ela própria irá sofrer ao cuidar do filho doente, não pelo “cuidar” propriamente dito, ela até prefere estar ali ao lado, mas pela aflição de ver a quem tanto ama sofrer.

A serpente promete aos habitantes do Éden que se eles desobedecerem e comerem do fruto proibido conhecerão a tudo, serão como deuses. Querer ser igual a Deus, esse é o grande pecado original e não a forçada conotação sexual que um bando de moralistas de pouco (ou nenhum) conhecimento exegético e/ou com tendências manipuladoras utiliza. Mas em concordando com isso, um outro grupo pergunta, ironicamente, se Deus não estaria com medo da “concorrência”.  Ora, novamente a superficialidade impera. O pecado nunca é na verdade contra Deus, o pecado é contra si mesmo, é algo que faz mal a nós mesmos e o “não pecar”, mais do que uma imposição contratual é, em verdade, uma prece pela nossa própria felicidade. Como dizia uma canção religiosa antiga, “a melhor oração é amar”.

E não há pecado maior do que querer ter controle, como um deus (em minúsculas), sobre tudo e sobre todos. E o termo “original” associado a este pecado de querer ser como deuses, reside na tendência que todos nós temos de querer controlar todos os aspectos de nossas vidas e também os aspectos da vida do outro, dos outros, do mundo se possível. Esquecemos que mal agüentamos os fardos que a vida nos coloca, as preocupações pequenas, tais como, contas a pagar, e queremos ter controle sobre tudo, passado, presente, futuro, mudando a nosso bel prazer os rumos da história para que se adequem à nossa vontade. Eis a visão do inferno, todos como deuses, adaptando o mundo às suas vontades próprias... “conflitos de interesses” seria ainda um termo muito superficial para o caos que se estabeleceria. Não é à toa que a Bíblia diz que foram expulsos do paraíso, mas não foi Deus quem os expulsou, eles, ou melhor, nós escolhemos isso quando,deixando de aproveitar a vida, passamos a querer controlá-la. Bendito sejam os limites, são eles que nos tornam mais humanos, mais simples e certamente mais felizes.

Recentemente senti isso em condições nada agradáveis, mas é preciso aprender com os limites, na verdade a aprendizagem acontece quando chegamos ao limite. Cuidar de quem se ama quando essa pessoa está doente não é fácil. Ver as consequências da doença na pessoa, a dor, o sofrimento, a tensão, o medo, é algo que mexe profundamente com alguém. Nessas horas a noção de controle não funciona tanto, pois vemos quão pequenos somos e tudo o que desejamos parece ser apenas que a dor da pessoa a quem tanto amamos se dissipe, e quando não conseguimos nos bate um certo desespero e até uma certa culpa, fardo grande que jogamos nas nossas próprias costas. Nessas horas limítrofes nos bate a humanidade e deixamos de lado nossa tentação de a tudo controlar. Por vezes precisamos sair de cena e deixar que alguém, mais adaptado assuma o “comando” e entregamos a pessoa amada a quem melhor pode cuidar dela, que pode até ser um médico sisudo envolto em sua tecnicidade ou mesmo uma enfermeira rabugenta cansada de tantos plantões.

Não é fácil, mas é preciso! E quando nos comprometemos em dar o nosso melhor, respeitando a nossa humanidade, os nossos limites, certamente é mais fácil que deixemos os outros darem seu melhor. E quando tudo funciona bem, quanta felicidade em poder ver o brilho retornar aos olhos da pessoa a quem tanto amamos nos mostrando que ela se recupera, que não sente mais tanta dor. Nessas horas, entende-se que ser feliz depende de muito pouco e não do controle do mundo, do destino, da vida. Isso deixamos para Deus, que por sua vez, sabiamente, pede sempre nossa ajuda até onde podemos ir, pede o nosso melhor.

Amar alguém, estar próximo nos momentos bons é demasiado fácil. Ser companheiro na dor e preferir estar do lado de quem se ama nos momentos difíceis, mesmo sem saber direito o que fazer, mesmo sem poder curar a dor da pessoa, mesmo sujeito a demonstrar tão publicamente seus próprios limites, suas  próprias fragilidades, eis aí o verdadeiro sentido do amar.

sábado, 2 de junho de 2012

TUDO SOBRE VOCÊ * (repost)

* postagem originalmente publicada em maio de 2010, direto do túnel do tempo...


Não me canso de admirar, mesmo que com uma “pontinha” de inveja (da boa), a incrível capacidade de síntese dos poetas e dos compositores, competência que lhes dá condições de falar sobre o infinito em quantidades finitas de palavras.

Dia desses me deparei com uma dessas preciosidades, a música “Tudo Sobre Você” do John Ulhoa e da Zelia Duncan, muito bem interpretada pela própria Zelia. Abaixo a letra da música e um link para quem desejar ouvi-la (recomendo!):

TUDO SOBRE VOCÊ
Queria descobrir
Em 24hs tudo que você adora
Tudo que te faz sorrir
E num fim de semana
Tudo que você mais ama
E no prazo de um mês
Tudo que você já fez
É tanta coisa que eu não sei
Não sei se eu saberia
Chegar até o final do dia sem você

E até saber de cor
No fim desse semestre
O que mais te apetece
O que te cai melhor
Enfim eu saberia
365 noites bastariam
Pra me explicar por que
Como isso foi acontecer
Não sei se eu saberia
Chegar até o final do dia sem você

Por que em tão pouco tempo
Faz tanto tempo que eu te queria

Ouça a música AQUI

Quando se está apaixonado as coisas acontecem mais ou menos assim como na música, cada hora, cada fim de semana, cada mês, cada semestre, cada conjunto de 365 dias é dedicado a saber mais, a conhecer mais a pessoa amada, a pessoa que não se esquece, a pessoa em torno da qual os nossos pensamentos passam a girar.

Quando se ama de verdade, não é preciso pedir ao amante que faça resumos sobre a vida do ser amado,até porque a vontade de quem ama não é resumir, é ampliar.

Quando o amor fala mais alto, exigir freqüência de quem se ama soa até ridículo, pois quem ama está presente até na presença de uma ausência.

Quando se ama de coração, não é necessário pedir que quem ama faça uma apresentação em PowerPoint do seu amor, pois a apresentação está nele mesmo, na alegria estampada na “tela” de seu rosto, no entusiasmo com o qual fala sobre a pessoa que ama.

Quando o amor é verdadeiro, não são necessárias provas, avaliações, testes, pois fica sempre notório que a pessoa que ama é expert quando o assunto é o objeto de seu amor.

Quando a pessoa amada passa a ser o centro de sua vida, não existe nota, muito menos média mínima, pois sempre se quer o máximo, sempre se quer ir além dos limites, ir até onde ninguém foi, romper barreiras, sejam elas geográficas, sociais ou mesmo ideológicas.

Quando o coração bate mais forte à mínima menção do nome de quem se ama, e quando essa pulsação acelerada vem acompanhada de um sentimento de felicidade, não existem reprovações, apenas a certeza de que se tem o essencial e não o supérfluo e, ainda que esse “essencial” seja invisível aos olhos como nos ensina a raposa d’O Pequeno Príncipe.

Se utilizássemos um pouco dessa lógica em nossas salas de aula, nós professores, compreenderíamos que nosso objetivo principal não é o de ensinar o assunto, o conteúdo programático, a ementa, mas sim o de sermos “cupidos” intermediadores entre os alunos e os conhecimentos.

Nosso papel é o de promover, atiçar e eternizar a paixão pela busca do conhecimento. Se fizéssemos isso, resumos, apresentações, seminários, chamadas, provas, testes, simulados, notas, médias, aprovações, seriam termos obsoletos para designar palavras como amplidão, felicidade, prazer, alegria, intensidade, motivação, autonomia, liberdade, admiração, realização, integridade, coerência...

Colegas professores, bem que podíamos ouvir mais músicas, recitar mais poesias, assistir mais filmes, enfim, nos apaixonar mais, pois sem paixão não faz sentido ser professor, não faz sentido ser aluno, não faz sentido existir conhecimento algum, pois não haveria sentido em buscá-lo. Nada faz mesmo muito sentido quando não se tem paixão...

domingo, 27 de maio de 2012

Por Onde Tem Andado Seu Coração?


Quem me conhece sabe que em termos de torcida meu coração se divide entre o vermelho e branco do Clube Náutico Capibaribe e o azul e branco da Portela, escola de samba carioca. Esta noite descobri que o enredo da Portela para o ano que vem irá versar sobre a história da própria escola a partir do bairro de Madureira (a Portela fica entre os bairros cariocas de Oswaldo Cruz e de Madureira). O carnavalesco, que neste ano teve a feliz ideia de trazer a eterna portelense Clara Nunes como o fio condutor do enredo sobre a Bahia, que deu novamente à Portela, uma cara de Portela, vai utilizar o grande Paulinho da Viola, no ano em que ele completa seus 70 anos, como o fio condutor da vez, a partir de sua belíssima música “foi um rio que passou em minha vida”, que se tornou um quase-hino da Portela, cantado sempre nos “esquentas” antes da escola entrar na avenida. (Quem quiser conferir essa maravilhosa canção na voz mansa e contagiante de Paulinho da Viola, basta clicar AQUI).

Tempos atrás, assistindo uma entrevista do Paulinho da Viola, ele explicava de onde surgiu a inspiração para escrever “foi um rio que passou em minha vida”. Ele, mesmo sendo um portelense apaixonado, compôs junto com Hermínio Bello de Carvalho a música “sei lá Mangueira”, que era uma homenagem à outra tradicionalíssima escola de samba carioca, a verde-rosa Estação Primeira de Mangueira. Ao contrário do que muitos pensam, a rivalidade entre as escolas não é como no futebol e o que existe de concorrência entre elas acaba surgindo muito mais da forma de competição baseada em julgadores duvidosos que dão notas aos décimos e premiam mais o “carnaval-aparência” do que o “carnaval-chão", do que mesmo por uma “guerra” entre co-irmãs, mas isso é assunto para outra postagem. 

Porém, é certo que um pouco de ciúme foi despertado entre alguns portelenses, quando Paulinho, já ícone da escola, escreveu esse samba para a Mangueira, sem ter escrito nenhum para a Portela. A situação para o Paulinho se complicou quando a música de exaltação à Mangueira fez muito sucesso e ele se viu meio que na obrigação de fazer algo ainda melhor para a sua amada Portela. O processo de criação é sempre algo difícil de explicar, e Paulinho conta que, buscando inspiração para compor um samba à Portela passou por um letreiro que continha a seguinte pergunta: “por onde tem andado seu coração?” E a música saiu como que em resposta a essa pergunta, tanto que “foi um rio que passou em minha vida” começa com “Se um dia, meu coração for consultado...”

Em meio à sua “resposta”, Paulinho da Viola, confessa que seu “coração tem mania de amor”. Seria tão interessante que a humanidade tivesse essa estranha mania de amar, em todos os sentidos, do fraterno ao erótico, do paterno ao comportamental, do materno ao caridoso. Do amor por um homem ou uma mulher, por uma música, por um filme, por uma poesia, por um animal de estimação. Certamente o mundo seria um lugar muito melhor. Amores que podem apagar, como na música, “a marca dos [...] desenganos” nossos de cada dia.

Não sei se o trecho “o samba trazendo alvorada, meu coração conquistou”, desperta em outros portelenses, como desperta em mim, o saudosismo dos desfiles que a Portela encerrava com o raiar do dia, coroando uma noite de tantas luzes e cores com a luz suprema do sol que com seus raios dava mais vida a cor azul que inundava a avenida como que um rio passando por nossa vida, fazendo nosso coração querer se deixar levar... (#cantarolandoamúsica)

E pensar que a poesia da música começa com esse “por onde tem andado seu coração?”... Pensando bem, talvez toda a poesia da vida surja a partir dessa pergunta. A própria criação do mundo parece ser a resposta de Deus ao seu “por onde tem andado seu coração?” No prólogo de São João, o mundo era sem vida, sem luz, e o verbo, a palavra, o sonho se fez carne. Éramos um sonho na cabeça de Deus como bem já citava Berkeley, o filósofo, e esse sonho se tornou realidade mostrando assim que a humanidade é o coração da ação divina, é a finalidade de tudo que nos cerca, é a declaração de amor de um Deus apaixonado, que se preocupa com cada fio de cabelo que nos cai, que se preocupa verdadeiramente conosco e que nos ensina que amar é preocupar-se também com cada fio de cabelo caído do próximo, com sua dor, sua decepção, sua tristeza, sua dúvida, seu sacrifício, seu sofrimento. Enquanto não formos capazes de sermos solidários na dor, como diz a música do Paulinho, “será difícil negar” que nosso coração continuará andando errado.

Que nossa prece seja para que possamos responder ao nosso “por onde tem andado seu coração?” com uma resposta de solidariedade, de preocupação autêntica com o próximo, enfim, com uma resposta de amor, nos deixando levar pela alegria de fazer parte da vida de outra pessoa, também e principalmente, nos momentos em que ela mais precisar de nós. 

#laiá-laiá-laiá...

segunda-feira, 21 de maio de 2012

A ESTRELA


Têm sido noites escuras, sem lua... Ao menos a procurei esses dias, digo, noites e não a encontrei. Como consolo é possível ver mais estrelas no céu. Mas começo pelo meio, não cheguei ao tema das estrelas pela observância do céu, mas por uma série de fatos que aconteceram esses dias e que culminaram na missa que assisti nesta noite de domingo.

A missa era da solenidade da ascensão do Senhor. Tanto a primeira leitura quanto o evangelho trazem a passagem do Jesus ressuscitado voltando para o Pai, subindo aos céus e dando aos discípulos a missão de levar o evangelho a todas as criaturas. E eu lá, na igreja, pensando exatamente sobre isso, sobre essa missão de cada um de nós.

Evangelho, palavra derivada do grego, significa "boa notícia". E fiquei pensando quão falhos nós somos em espalhar boas notícias. Nos parece ser muito mais fácil falar sobre coisas ruins, falar mal das outras pessoas, comentar sobre tragédias, acidentes, doenças... Não à toa o jornalismo, guiado pelos índices de audiência, acaba por preferir notícias ruins do que boas, já que essas últimas parecem não ser tão "lucrativas".

Alguns acham que a missão dada por Jesus tem a ver com pregações públicas, tentativas de conversão, demonstração de religiosidade ou mesmo martírio. Posso estar enganado e até estar sendo minimalista, mas creio firmemente que essa missão, a de levar o evangelho, a boa nova, passa por levar coisas boas às pessoas, trazer sempre uma luz, uma mensagem de força, coragem e fé, um testemunho do "falar bem" das pessoas, das coisas, dos fatos da vida. E encontro argumentos na segunda leitura de hoje. Curioso que na igreja, pouco antes da missa começar, me pediram para fazer essa leitura. Eu lendo ali, na minha paróquia de origem, é fato que não acontecia há mais de 10 anos, desde que falei "verdades" demais e o padre da paróquia acabou me pondo pra fora da igreja. Mas isso é outra história (e longa), quem sabe um dia a lua não resolve contá-la...

Mas voltando à minha linha de raciocínio, nesta segunda leitura, Paulo pede para que "nos suportemos uns aos outros com paciência, no amor". Pena que na tradução e no nosso modo de falar de hoje, as pessoas não se apercebam que o sentido da palavra "suportar" não é o de "aturar", mas sim o de dar suporte, dar apoio uns aos outros, dar força um para o outro, o que requer paciência, mas sobretudo amor. Aquele que ama sempre fala coisas boas sobre e para o ser amado. Amar uns aos outros é, portanto, apoiar, ser paciente, oferecer ao outro a boa nova da vida que se apresenta, do dom que Deus nos dá a cada nascer do sol.

E o sol é uma estrela e as estrelas que vemos no céu são sóis distantes, alguns até que já não mais existem e que apenas sua luz nos chega até nossos dias. Assim, olhar para o céu não deixa de ser um olhar sobre o passado. Aí pensando em céus, estrelas, sóis, me lembrei de um fato curioso de minha infância. De madrugada, vendo TV, assisti ao final de um episódio daquela série bem antiga chamada "Além da Imaginação". Eram as últimas cenas, e se passavam numa nave espacial que voltava para a Terra após descobrir um planeta que havia sido habitado milênios antes por uma civilização avançadíssima e que havia sido destruído pela explosão de seu sol. A última cena era um padre, que fazia parte da tripulação questionando a Deus o por quê daquele povo ter sido extinto pela explosão do sol, que pelas contas dele [o padre] foi justo a luz da sua explosão que dois mil anos antes pairou sobre Belém anunciando a chegada do Messias. Descobri pesquisando a pouco na Internet (incrível o que se consegue achar no google) que trata-se de um conto chamado "A Estrela" do Arthur Clark, o mesmo autor de "2001, Uma Odisseia no Espaço". Pra quem se interessar, o conto (curtinho!) pode ser encontrado AQUI.

Está bem que é só um conto, mas me veio à memória porque me marcou à época e acabou vindo à tona novamente ao pensar sobre tudo que é preciso acontecer para que algumas coisas se tornem uma "boa notícia". Algumas vezes a boa notícia surge justamente de notícias ruins e que é quase uma opção nossa ressaltar os aspectos negativos (o que acabamos fazendo com frequência) ou buscarmos o lado bom, o lado positivo, o lado luz, que ilumina. Além disso, parte do confiar em Deus encontra-se nesse entregar-se aos seus planos, confiando que mesmo aquilo que aparentemente é ruim, loucura ou contradição, um dia vá trazer luz para alguém. Por vezes nem percebemos, mas sempre há perto de nós alguém que precisa de uma luz, luz que temos dentro de nós e que, em não raras vezes, surge das "explosões" pessoais que acontecem em nossa vida.

Felizes os que conseguem transformar dor em luz, tragédias em sucesso, doença em cura, tristeza em força e confusão em vida, levando ao próximo, à toda criatura, a boa nova do amor.

P.S.: ao procurar uma imagem para ilustrar esta postagem, achei um outro conto (mais lúdico esse) que é bem síncrono ao que acabei de escrever. Quem desejar ler sobre "O Choro da Estrela", leia AQUI.

sábado, 5 de maio de 2012

SUPER LUA


Muito tempo se passou desde a última vez que escrevi neste blog. Passaram-se também muitos acontecimentos que poderiam ter aqui ficado registrado, porém não foram, e se assim aconteceu, foi o melhor que poderia ter acontecido.

Mas hoje é diferente, é preciso escrever. Para alguém que, certo dia, passou a conversar com a lua, que aprendeu a admirá-la e que a teve como confessora de suas ideias, aquelas simples e as mais apaixonantes também, não poderia, hoje, deixar de falar-lhe mais de perto, quando ela própria, a lua, se aproxima do planeta, de nós e, mesmo correndo o risco de parecer um tanto quanto presunçoso, o que realmente não é o caso, de mim.

Os astrônomos têm uma série de explicações astrofísicas complexas para o fenômeno que chamam de "lua de perigeu" e que é conhecido também, mais popularmente, como "super lua". Mas para os que amam a lua, tudo é muito mais simples, ela apenas quer se aproximar para melhor nos ver, enquanto nós a queremos mais próxima para admirar sua beleza e para conversar com ela aproveitando-nos da sabedoria que ela acumulou após tantas idas e vindas, voltas e voltas, crescentes e minguantes, novas e cheias. Tal qual ela, também vamos e voltamos, andamos de forma circular, crescemos e minguamos, recomeçamos e atingimos nosso ápice para novamente recomeçar. 

Tantas fases, tantas eus, tantos nós, tantas luas, tantas dúvidas e apenas a certeza de que o ir e vir, o circular, o crescer e o minguar, a fonte e o ápice, são sempre "o melhor". Por vezes não entendemos os pontos soltos que só vêm a fazer sentido quando, olhando para trás, percebemos que todos esses pontos aparentemente soltos fazem, na verdade, parte de uma trama divina que nos leva a sermos pessoas melhores quando assim desejamos, quando assim decidimos ser, apesar de por vezes termos vontade de agirmos à base do "olho por olho, dente por dente". Como disse Gandhi, se não estou enganado, olho por olho e todos acabaremos cegos. Aprendamos pois com a divina sabedoria da lua a sermos nós mesmos, pois o que importa de verdade quando fazemos algo é o "de quem é" e não o "pra quem é". Integridade não significa estagnação. Integridade tem muito mais a ver com superação, aprendizagem, movimento em favor de se tornar o melhor que se pode ser. Como a lua que ora se aproxima, ora se distancia. Como a lua que ora brilha mais, ora brilha menos. Como a lua que ora está aqui, ora está acolá. Como a lua que em sua integridade de movimento, integraliza em nós a sabedoria que nos ajuda a sermos não super humanos, não é necessário, basta-nos ser, como Nietzsche dizia, humanos, demasiadamente humanos.

Assim, à aproximação da lua de hoje, sejamos capazes de aprender, respirando lenta e profundamente, pa-ci-en-te-men-te, com seu exemplo, a sermos melhores, a nos tornarmos próximos, a brilhar mais, curiosamente, a sermos mais humanos, humanos melhores, astro-humanos.