terça-feira, 18 de outubro de 2011

HOJE


Pra quem é da opinião de que este blogueiro está se especializando em falar sobre cinema, essa postagem será mais uma evidência. Mas já adverti antes e repito: não assistam filmes apenas porque eu comentei aqui, ou pelo menos não assistam pensando de antemão que o filme é bom, até porque gostos variam e o que me move a escrever em relação a filmes é mais “a partir deles” do que propriamente “sobre” eles.

O filme desta vez é nacional e estava até alguns dias atrás em cartaz: “O Homem do Futuro”. De antemão é bom que seja dito que embora o Wagner Moura seja um excelente ator, um dos melhores da nova safra, sua atuação nem chega perto de outra personagem sua, o genial Taoca de “Deus é Brasileiro”. Já a mocinha (vilã?) do filme, a Alinne Moraes, embora não seja uma grande atriz, ao menos não compromete o filme. O roteiro apresenta vagas semelhanças com “De Volta Para o Futuro”, o melhor filme de viagens no tempo de todos os tempos [redundância proposital]. É quase uma versão tupiniquim do megasucesso americano de 25 anos atrás, mantidas as devidas proporções. Estão presentes as mesmas ideias de que voltar no tempo e fazer mudanças é um risco e que o novo futuro resultado de mudanças no passado pode não ser assim tão bom. Contudo, também está presente a mensagem de que é possível dar “dribles” no tempo em benefício próprio, já que a grande lição que esse gênero de filmes parece pregar, embora fiquem brincando de ir pra frente e pra trás no tempo, é que devemos dar atenção ao “hoje”.















E é justo essa ideia que me chamou atenção no filme, que teve como ponto alto o perfeito casamento do roteiro com a música tema “Tempo Perdido” do saudoso Renato Russo (inclusive coloco aqui um trailer/clipe do filme/música) e que é uma ode ao hoje, ao viver o dia de hoje. Alguns de nós se preocupam demais com o futuro, outros insistem em tornar ao passado, alguns até gastam o seu tempo diário pensando em ambos, passado e futuro, e talvez a grande maioria de nós esqueçamos que a vida é agora, que está acontecendo ao nosso lado, nesse momento, e que “não temos tempo a perder”, que “somos nosso próprio tempo”.

Não estou aqui querendo pregar contra o planejamento e nem mesmo contra a análise do passado, até porque como professor de administração seria incoerência negligenciar tais ferramentas. Elas têm seu valor, tanto na vida quanto nas organizações. Mas quero convidar a todos, inclusive e principalmente a mim mesmo que me reconheço pecador pela falta de atenção crônica ao dia de hoje, a pôr a cabeça para fora da janela nesta “viagem” da vida e olhar o que está acontecendo, porque no dia em que chegarmos ao “destino final”, será tarde demais para admirar, desfrutar e VIVER o “caminho” percorrido. Como diria o professor pouco ortodoxo de A Sociedade dos Poetas Mortos, Carpe Diem, “colha o dia”!

P.S.: muito boa a referência original ao “carpe diem” do poema “Odes” de Horácio que trás a Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Carpe_diem

domingo, 9 de outubro de 2011

Lua Minguante


A vida
A vi dali
A vi de longe
A vi da lua
E era ”a” lua,
E a lua era ela
E a lua era dela
E ela era a era da lua
O tempo
O tempo de ser
O tempo de ser tempo
O tempo da lua
A vida era a lua
A lua era o tempo
E o tempo era a vida
E a vida era da lua
O tempo era a lua
O tempo era a vida

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Sobre Ligar Pontos: lições da lua e de Jobs


É curiosa a sensação de já estar sendo observado desde muito antes. De uns tempos pra cá, e já comentei sobre isso no blog, dei de reparar a lua, ou para ser mais exato, passei a conversar com ela. Embora prestar atenção a ela seja recente, descobri que ela já me olhava lá de cima há bem mais tempo. É certo que só agora ela tem a oportunidade de me perguntar o significado de certas coisas e é interessante como ela fica atenta a cada detalhe, como que tentando associar minha fala aos eventos passados. Antes de continuar a escrever, quero apenas esclarecer aos que estão esperando pelas histórias que a lua tem me contado nos últimos meses, sobre as pessoas e fatos que ela observou em sua milenar experiência, que muito certamente terão que esperar um pouco mais por isso, pois acredito que ainda não seja o momento de pô-las no papel. Quem sabe um livro...  Enquanto o “livro” não sai, eu fico por aqui contando um pouco de nossas conversas menos sérias (leia-se, conversas sobre tudo e sobre nada, sobre mim e sobre ela, sobre as relevantes irrelevâncias de cada dia).

Dia desses ela me indagou: “quais  os principais momentos de tua vida nos últimos dez anos?”.   Confesso que a pergunta me deixou meio sem chão, mas a minha cabeça se voltou imediatamente para o ano de 2001. Coincidência ou não, foi um ano bem simbólico em fatos, acontecimentos, além de ser o primeiro ano do novo milênio. E esse pensamento em 2001 foi algo não isolado, pois há pouco, estavam os meios de comunicação noticiando os dez anos do atentado ao WTC.  Lembro que naquele fatídico 11 de setembro, um pouco mais tarde, à noite, eu recebi minha primeira homenagem como professor de uma turma em que dei aula. E eu não era nem professor efetivo e nem mesmo substituto, apenas um voluntário aluno do mestrado em Administração, mestrado do qual, por razões que não vem aqui ao caso, havia sido “desligado” (foi essa a palavra que utilizaram na carta que me mandaram após terem negado meu pedido de prorrogação) poucos dias antes da homenagem. Foi dolorido participar das cerimônias de formatura e ser perguntado sobre o mestrado e ter que admitir que tinha sido “desligado”. O eficiente “robô”, que desde criança até concluir o curso superior nunca havia reprovado uma única disciplina sequer, que estudava com alunos em média dois anos mais velhos, que passou no primeiro vestibular que fez, que chegou a dar aulas para quem havia ingressado na universidade por este mesmo vestibular que ele, que à época foi o mais novo  mestrando do programa ao qual estava vinculado, este mesmo “robô” por não “funcionar” adequadamente naquele momento foi “desligado”. E foi exatamente essa a sensação que me acometeu naquele final de inverno e início de primavera de 10 anos atrás.
 
Quando a lua me perguntou sobre esse período de tempo, a rápida retrospectiva que fiz me deu a entender que pouco adiantou os tantos planos feitos, aquela quase que obsessiva tendência a pensar no futuro, até porque o mundo mudou muito nos últimos 10 anos e o que realmente me ajudou a chegar aos dias de hoje foram os momentos em que vivi com mais intensidade o “hoje”, aquele “hoje”, hoje passado, porém presente na memória do “hoje” de hoje. Isso eu só percebi porque a pergunta dela me levou a isso, e como ela já me observava desde antes, eu até acredito que a pergunta não tenha sido ao acaso. Conhecendo-a mais agora, imagino que tenha sido muito mais um artifício pedagógico para promover em mim uma auto-reflexão do que apenas a pura curiosidade de uma lua questionadora.

Nesta semana os noticiários apresentam a morte de um dos homens mais criativos que a história recente produziu: Steve Jobs. Co-fundador da Apple, ele revolucionou o mundo da informação e tornou esses últimos dez anos ainda mais intensos.  Mês passado, quando ele se afastou da Apple pela doença que o levaria à morte, assisti um vídeo no qual ele faz um discurso a uma turma de formandos da Stanford, e onde contava três histórias: a segunda, sobre sua demissão da Apple; a terceira, sobre a morte; e deixei para falar da primeira ao final, porque é dela que quero continuar a refletir: “sobre ligar pontos”.

Jobs argumenta que os pontos soltos só fazem sentido quando olhamos para trás. No caso dele, ter sido dado para doação e ter sido recusado pelo primeiro casal que deveria adotá-lo porque queriam uma menina, só fez sentido mais na frente, quando o novo casal de pais adotivos começou a gastar todas as suas economias para dar ao filho [ele] uma formação superior.  Ao perceber isso e, mais ainda, ao perceber que não gostava do que o estavam ensinando, abandonou o curso e com o tempo que passou a dispor, pôs-se a assistir as aulas que gostaria de ter, ainda que de forma “oficiosa”, tais como: caligrafia. Aparentemente seria um ponto bem solto, não fosse o fato de que, dez anos mais tarde, as noções de tipografia que aprendeu naquelas, aparentemente, insignificantes aulas, dariam um salto qualitativo sem precedentes nos editores de textos pós-macintosh. No discurso Jobs pede que acreditemos que os pontos de hoje serão ligados amanhã se fizermos o “hoje” com o coração. De uma forma ou de outra, embora a morte pareça sempre nos dizer o contrário, os pontos soltos da vida de Jobs foram todos ligados essa semana, e se acaso não parecem ligados, é porque os pontos soltos da vida de uns se confundem com os pontos soltos da vida de outros.

A lua, que estava ainda mais atenta aos meus pensamentos e palavras, meus atos e omissões, me pediu em sua lunática sabedoria que aprendesse a viver um dia de cada vez, sem despedidas e sem promessas, fazendo de cada dia o melhor dia possível, dando o melhor de mim: o melhor abraço possível para o momento, o melhor sorriso possível para a situação, o melhor olhar possível para a circunstância, a melhor palavra possível para a ocasião. Ao mesmo tempo em que é empolgante descobrir-se a cada dia um aprendiz, confesso que tem sido uma lição difícil de aprender. É complicado rever conceitos, opiniões, valores e crenças. Mais complicando ainda é questioná-los. E muito mais complexo é perceber que alguns deles fazem pouco sentido de agora em diante, embora tenham sido extremamente úteis para se chegar até aqui. Acontece que não é possível carregar tudo e sempre. Como na bela declaração ao amor de São Paulo aos Coríntios, para cada fase da vida precisamos nos ver de formas diferentes. O que foi adequado antes talvez não seja depois e nem por isso perde seu valor, pois fica guardado na memória, local onde os momentos são eternos. Somos sim uma soma de nosso passado, mas somos mais ainda aquilo que queiramos ser. Para isso, por vezes, é preciso, além de somar, subtrair, dividir e certamente multiplicar.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

São Francisco* para Professor


Por que temos que ler e escrever sobre o que não queremos e deixar de lado aquilo que gostaríamos de ler e de escrever? Agora mesmo estou diante de vários textos que devem ser lidos nos próximos dias para o doutorado e nenhum deles me é realmente atraente, embora até acredite que alguns (certamente não todos) possam ser úteis (um dia...). De certo, apenas que a obrigatoriedade em lê-los já me é um grande estímulo à não leitura. Meus melhores professores não só foram aqueles que eram apaixonados pelos temas que discorriam, mas sobretudo , os que assim, apaixonados, nos deixavam enamorados. E assim, apaixonados também nós, devorávamos tudo aquilo que nos era apresentado sobre o objeto da, agora, "nossa" paixão. O professor não deveria ser aquele que "passa" textos para serem lidos, mas aquele que assume pra si a função de cupido entre o aluno e o conhecimento.

Mesmo com tantos textos "obrigatórios" para serem lidos, resolvi me apaixonar assim meio que do nada, por um livro de filosofia, onde a autora defende que "o foco define a sorte".  Como todo apaixonado, mudo as minhas prioridades e arranjo tempo para inserir nesse mesmo pouco tempo, um tempo para minha recente paixão. A autora defende que a razão de muitos dos problemas nossos de cada dia são decorrentes de sermos levados a adotar o paradigma da escassez. Nele aprendemos que não há o suficiente para todos, então assim, acabamos por pensar primeiro em nós (egoísmo), a acreditar que é preciso haver perdedores e ganhadores (competição) e que é necessário  guardar porque de certo um dia irá faltar (acúmulo).  Não precisa ir longe para descobrir que esse é um modelo que privilegia poucos e exclui muitos. Em contraposição, a autora defende a adoção de um paradigma diferente baseado na abundância. Se imaginamos que há o suficiente para todos, então podemos contribuir com os outros (altruísmo), agir de modo a que todos ganhem (cooperação) e dividir os recursos de forma comunitária (partilha). Talvez isso realmente se aproxime do ideal de desenvolvimento sustentável, que tanto apregoam em discursos, mas pouco fazem em ações.

E pensando em termos de altruísmo, cooperação e partilha, o dia de hoje me trás à memória um jovem italiano, de nome Francisco, que viveu  na cidadezinha de Assis, em tempos passados, que em nome da visão da abundante graça reservada por Deus a todos os homens e mulheres , renuncia a tudo, ou melhor, renuncia ao que nos torna um nada. Abandona o status, o conforto e a riqueza da escassez e se veste do status de irmão do sol e da lua, do conforto da brisa e da sombra,  e da riqueza do viver em harmonia com todas as criaturas do universo. Algo me diz que Francisco teria sido um excelente professor universitário, pois teria feito seus alunos se apaixonarem pelo irmão conhecimento e pela irmã sabedoria.  São Francisco de Assis, rogai por nós!


(*) Hoje, 04 de outubro é o dia dedicado a São Francisco de Assis

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Do Cinema ao Dia do Administrador: reflexões sobre a universidade OU Administração: a melhor profissão e o melhor curso do MUNDO


Já me perguntaram se eu virei crítico de cinema por colocar aqui algumas postagens com referências a filmes. Contudo, acredito que fica claro que essas referências são apenas isso, referências. Na verdade eu não escrevo “sobre” os filmes em si, mas “a partir” deles. Foi assim com Melancolia e com Meia-Noite em Paris, e foi assim porque foram filmes que mexeram comigo, que de alguma forma me deixaram inquieto e com vontade de expressar uma ou outra ideia. Por isso, se alguém for assistir a qualquer um destes filmes e não gostar, por favor não me culpem, falo apenas por mim.

É dentro dessa linha de raciocínio que se insere o “filme de hoje”: Larry Crowne: o amor está de volta (mais um desses forçados subtítulos em português para atrair público, até porque mesmo estando presente, o amor, é claramente um elemento coadjuvante no enredo). O filme tem Tom Hanks na direção, na produção e no papel principal interpretando o próprio Larry Crowne, funcionário do mês da rede de supermercados UMART (vale ler o “U” com sotaque da terra do Tio Sam... “IU”, para se divertir com uma vaga “lembrança” com o nome de uma outra, “coincidente”, rede de supermercados). Por não ter curso superior devido ao tempo passado (20 anos) na marinha americana (como cozinheiro!) ele, recordista da seção de “funcionários do mês”, é demitido porque, pelas políticas da empresa, a progressão de carreira só pode ser alcançada com o nível superior, e a empresa (tão boazinha!) não quer podar seus funcionários de outras oportunidades “lá FORA!”.

Mesmo não sendo uma de suas atuações mais marcantes, a participação de Hanks é maximizada pela presença da talentosa Julia Roberts, uma professora universitária desiludida, frustrada, desmotivada e ameaçada de perder o emprego pela baixa quantidade de alunos presentes às suas aulas. É notória a exposição, ainda que de forma bem humorada, da atual crise americana em praticamente todas as personagens principais do filme.

Larry Crowne (Hanks) acaba se matriculando na disciplina da Professora Tainot (Roberts) e o resto é história. Destaque para o discurso final (a disciplina é de Oratória) de Crowne que, embora curto, é de uma intensidade, sensibilidade e inteligência pouco vista no cinema.
Esse ambiente universitário do filme, a necessidade de um curso superior, a desmotivação de professores e alunos e a pergunta que permeia todo o filme (“é possível um professor influenciar a vida de algum aluno?”) causa em quem, como eu, trabalha no meio, relativo impacto e propicia interessantes reflexões.

Também me perguntaram um dia desses se eu gostava mesmo, como antes havia dito à pessoa, de cerimônias de colação de grau. Sim, eu gosto mesmo! E o filme e, mais ainda o discurso do Hanks que mencionei, explicam em parte minha alegria em estar presente neste tipo de evento que muitos consideram maçantes, desnecessários e até obsoletos. Para mim vale pelo rito, que tão bem a raposa d’O Pequeno Príncipe descreve como sendo aquilo que torna um dia diferente dos outros dias, uma hora diferente das outras horas. Mesmo conhecendo os bastidores técnico-pedagógico-administrativo-emocional-disfuncionais do ambiente acadêmico e por isso mesmo não concordando com algumas colocações e/ou ações, ainda assim considero todo o momento válido, simbólico e até sagrado. Diria até que essas disfuncionalidades dão certo charme ao evento e, sobretudo, apesar de possíveis interesses contraditórios das diversas partes envolvidas, nos fazem crer que estamos construindo algo, que estamos mudando a vida de tantos alunos e alunas que por nós passam no cotidiano acadêmico e, junto com eles e elas, estamos também mudando nossas próprias vidas tal qual as personagens do Hanks e da Roberts em Larry Crowne.

Fiquei feliz na última colação de grau do Centro Acadêmico do Agreste da UFPE, mesmo não tendo sido professor da turma original prevista para ter se formado neste primeiro semestre de 2011, de ver concluindo o curso de Administração, os ex-alunos Paulo Duarte, Robson Bezerra e Rafaella Amaral, esta última aluna laureada, e embora sem ter sido aluna de fato, minha querida “ex” orientanda de TCC, Marcela Rebecca. Para muitas coisas existe aquele cartão de crédito, mas ver, estampado nos rostos deles e dos membros de suas famílias, a alegria, a emoção, a satisfação e principalmente os sonhos, é algo que o dinheiro não compra e só quem um dia foi ou é professor, e gosta do que fez/faz, sabe (realmente) do que estou falando.

Em comum, os quatro têm ainda a possibilidade de que neste dia de hoje, dia 09 de setembro, podem comemorar de fato e de direito, seu primeiro dia do administrador, no sentido “superior” da palavra. Ou melhor, num sentido ainda mais superior, já que escolheram a melhor profissão do mundo e para isso fizeram o melhor curso do mundo. A eles e a todos os administradores, nos quais orgulhosamente me incluo, os parabéns pelo nosso dia. Que consigamos, a despeito das dificuldades do dia-a-dia, cumprir o juramento feito de engrandecer ainda mais a maior de todas as profissões.

Os não-administradores que me desculpem, mas é que nós somos mesmo megalomaníacos. A constatação da realidade nos fez assim (risos).

Feliz Dia do Administrador!

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Ainda no Mundo da Lua


É quase uma unanimidade entre professores, alunos e ex-alunos de programas de pós-graduação, que ler ou escrever sobre temas não necessariamente técnicos ajuda a manter a sanidade, principalmente em cursos de doutorado. Eu também concordo e de certa forma este blog tenta cumprir um pouco esse objetivo. Mas como conseguir escrever para manter a sanidade quando se tem que passar o feriado todo nas ilustres companhias de Wittigenstein, Austin, Robbins, Clegg e Weber?  Já são mais de três semanas desde minha última postagem e, desta vez, definitivamente não foi por falta de inspiração que eu não passei aqui para escrever. Tantas foram as ideias (e ainda são) que algumas delas se perderam na longa estrada do tempo que as transformam em quase nada, só para parafrasear o Rei, que, pelo que eu soube, depois de fazer show em alto mar, resolveu fazer show na terra santa, o que não tem absolutamente nada a ver com os meus propósitos neste texto, mas que ilustram bem a (des)ordem dos devaneios que me acometem, especialmente depois de ler sobre semântica, atos da fala, valores, atitudes, burocracia e modernidade. Sim, mas onde eu estava mesmo?

Ah, eu queria apenas responder a quem me perguntou se haveriam mais histórias contadas pela lua. Na verdade, boa parte do que eu quis escrever aqui e não consegui por absoluta falta de tempo, foram coisas contadas por ela. Nossa comunicação está cada vez mais frequente, tanto que pela primeira vez em quase 35 anos de vida eu estou percebendo verdadeiramente as sutis mudanças de fase pelas quais ela passa, sem precisar recorrer a algum calendário para saber em em que forma ela se encontra. Percebi  assim, que a divisão em quatro fases é meramente didática, pois a cada dia ela me aparece de maneira diferente do nosso encontro anterior. Logo depois que publiquei aqui nossa primeira conversa, ela pareceu meio enciumada, me olhando de soslaio, por entre as nuvens, chegando mesmo a se esconder por trás dos armazéns lá do Marco Zero recifense. Sei lá, ela parecia não ter gostado que eu tenha compartilhado nossa conversa por meios eletrônicos. Foi uma fase de silêncio, mas talvez ela estivesse apenas pensando sobre que histórias me contaria. Passada essa fase minguante, em que ela parecia perder suas forças (e eu juntamente com ela),  chegado um certo momento, ela pareceu se renovar de alegrias e me contou o que observara na fase em que seu brilho diminuiu. Segundo ela, é nessa sua fase mais obscura que consegue refletir mais, que consegue melhor analisar as pessoas lá do alto, até porque ela costuma, nesse período, passar meio que despercebida da maioria de nós (e nessa hora ela me piscou o olhar de forma, paradoxalmente, brincalhona e inquisidora, de modo que facilmente fiz meu mea culpa) e assim as pessoas costumam se comportar de forma mais natural, sem a intenção de impressioná-la ou mesmo de impressionar outras pessoas usando-a como instrumento. Provavelmente por isso quase não são feitas poesias, cartas de amor, canções e reflexões sobre a lua minguante. Mas ela não me falou isso com mágoa, muito pelo contrário, quis apenas me mostrar que não só ela, mas que todos nós precisamos de nossos momentos de obscuridade para melhor refletir. No dia em que ela estava mais simpática, seus contornos na posição atual do céu nitidamente sorriam para mim, um sorriso tênue que com o passar dos dias foi ficando, crescentemente, mais largo. Ela parecia gostar cada vez de minha companhia e eu, que antes não a percebia, ficava cada vez mais encantado com suas mudanças e suas muitas histórias.

Não, não será hoje ainda que eu compartilharei com vocês algumas dessas histórias, mesmo porque eu preciso refletir antes para poder transcrevê-las em palavras, sem contar que essa crônica falta de tempo acaba atrasando tudo ainda mais. Todavia, como me fez questão de lembrar a própria lua, há um livro considerado sagrado por muitos e que ela adora porque é dele personagem desde a sua gênese, que contem dentro de si um livrinho menor chamado Eclesiastes, que significa algo como “aquele que fala à assembleia” ou mesmo “professor”, o qual ensina (é, faz mesmo sentido então a etimologia da palavra) que para tudo existe tempo debaixo do céu. Tempo disso, tempo daquilo.  E o tempo de escrever essas histórias ainda chegará. Por enquanto eu vou apenas olhando ela se encher de luz já que certas coisas eu não sei ainda dizer.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Mundo da Lua

Devo confessar que nunca fui um fanático apreciador das coisas da natureza, o que não me transforma, assim espero, automaticamente, em alguém menos sensível, mais desumano ou avesso aos movimentos em defesa do planeta que é nossa “nave-mãe”. A coisa é bem menos complexa. Desde que me entendo por gente, sempre fui de apreciar mais a natureza humana. Enquanto as pessoas se sentam nos bancos da praia de frente para o mar, apreciando sua majestosa imensidão, eu sempre preferi sentar-me em direção ao calçadão olhando as pessoas, seus comportamentos, suas reações. Em viagem, me atraia mais do que os encantos naturais do novo local, o jeito de ser de seu povo. No campo, o movimento bucólico das pessoas do lugar sempre me saltava aos olhos, o que dificilmente acontecia ao ver bois, cavalos, galinhas, porcos. Até para assistir documentários, tipo os que a passam no Globo Repórter, em casa já era conhecida minha pergunta: “hoje é sobre bicho ou sobre gente?” E só me dava vontade de assistir quando o foco era o ser humano. Enquanto namorados olham para a lua, eu sempre achei melhor olhar os detalhes, mesmo os menores, da outra pessoa, aquilo que dizem seus olhos, seus gestos, suas palavras, sua fisionomia, o tom de sua voz, as pequenas mudanças desde a última vez que nos vimos... Fica difícil fazer isso olhando a lua. Pode parecer cinematográfico, mas me ensina pouco sobre a outra pessoa, quando o que mais importa é nos descobrirmos um no outro, tornando-nos pessoas melhores do que somos. Obviamente que não menosprezo aqui o poder do silêncio que neste momento pode chegar a permitir que um ouça bater o coração do outro, nem a desejada cumplicidade do olhar juntos numa mesma direção, e nem mesmo a singeleza do instante de adoração e reconhecimento profundo da existência de algo maior ante nossa pequenez. Sempre achei tudo isso válido, importante, necessário e belo, mas pouco prático se não aprendemos, também, a olhar um para o outro.

Continuo pensando assim, mas aí hoje, noite de lua cheia, meio que ao acaso, me vi olhando a lua. Na verdade era um olhar absorto. Aí, como na poesia, não mais que de repente, olhei-a diretamente, embora com a sensação de que foi ela que olhou primeiro pra mim e de que eu reagia olhando-a de volta, mais ou menos como acontece quando duas pessoas começam a se apaixonar, se olhando de soslaio, sempre desviando os olhos quando um sorrateiramente observa o outro. A diferença foi que não desviamos o olhar, nem eu e nem a lua, e ela me contou, acho que em defesa própria, que ela pode ter uma função diferente das tradicionais contemplações, quer estejamos sós ou acompanhados. Ela me disse que, a depender da distância, dos fusos de horário, do momento do ano e do clima, ela serve de elemento de ligação entre pessoas que estão separadas, seja qual por for o motivo. Se duas pessoas que se querem bem, ainda que fisicamente longes uma da outra, olharem no mesmo momento para ela, que herda seu brilho da capacidade de refletir, tal coincidência de olhares permite que ambos se vejam e aplaquem um pouco da saudade que sentem um do outro. Não é muito, me disse a lua, mas ela fica feliz com o pouco que pode fazer por essas pessoas. Me disse ainda, que já viu muitos apaixonados sorrirem quando percebem essa ligação, que já presenciou pais e filhos a utilizarem como ponte entre si, que até já testemunhou amigos de infância se descobrirem, surpresos, juntos novamente por meio de seu espelho lunar. Mas o que ela mais gosta de observar é quando duas pessoas ainda estranhas uma para a outra, se olham ao mesmo tempo sem saber quando e como irão se encontrar, mas que têm a certeza que um dia poderão estar juntos, e olham para ela, agradecendo-a por poderem antecipar no hoje a alegria futura que um dia experimentarão. E diante de uma colocação como essa, literalmente “do mundo da lua”, não há como não calar-se ante a sabedoria de quem, pacientemente, coleciona os mais diversos tipos de histórias, ali do alto, em suas diferentes fases. Pedi que ela me contasse algumas dessas histórias e ela me disse que a hora já estava avançada e que por hoje bastava, mas que escolheria alguns contos seus para que eu os compartilhasse com pessoas que achasse importante. Pelo visto a lua aprendeu com a Sherazade dos contos das mil e uma noites, ou quem sabe eu vá descobrir, que foi ela, a lua, que ensinou Sherazade a deixar sempre algo para a noite seguinte.

domingo, 14 de agosto de 2011

Expectativas

Uma das principais teorias sobre motivação afirma que a motivação é a resultante da interação entre expectativas (fins desejados), instrumentalidades (meios) e valências (valores). Assim, toda e qualquer ação acaba acontecendo porque esperamos ganhar algo (ou ao menos não perder) ao realizar a ação, porque temos os meios para tal e porque damos um valor significante ao fato. Se qualquer um dos componentes deste tripé for nulo, a motivação deixa de existir. Precisamos desejar, poder e querer.

Na filosofia oriental é comum encontrarmos a explicação de que a razão de nossas angústias, dores e sofrimentos reside no desejar. O nada desejar seria, portanto, a forma de trazer paz para si mesmo. E isso faz sentido utilizando esta mesma teoria da expectância e seu tripé. Quando existe um desejo, elaboramos as mais diversas estratégias para termos a instrumentalidade, os meios, as condições necessárias à sua realização. Uma vez que tenhamos dispensado energia suficientemente grande para desejar e poder, fica difícil não dar valor a tanta energia gasta e por vezes, acabamos por emprestar às coisas, às pessoas, aos fatos, valores maiores do que mereçam. Inclusive, essas coisas, essas pessoas, esses fatos nem sempre querem ser assim tão importantes.

Talvez aí resida a razão das constantes decepções que temos com outras pessoas. É provável, que elas sejam até em parte inocentes nesse processo que começa em nós mesmos. Criamos algumas expectativas em relação aos outros, ao que queremos deles, ao potencial que achamos que possuem, à forma como os idealizamos. Por vezes, essas pessoas nem percebem nossos desejos de que elas sejam algo que nunca disseram ser. 

Só que uma vez que tenhamos criado toda uma expectativa em torno dessas pessoas, partimos para algo mais. Saímos da idealização e entramos no campo do planejamento para consecução do plano de fazer do outro, senão nossa imagem e semelhança, a imagem e semelhança daquilo que desejamos que elas sejam. E nesse processo passamos a investir toda a nossa economia de energias, todos os nossos esforços, para ver realizado nos outros os nossos próprios anseios. O empenho é tão grande de nossa parte para que a idealização se transforme em realização que entramos num caminho de difícil retorno onde nos resta, depois de gastar todo combustível que temos, considerar que aquele é o melhor caminho, o mais perfeito, o mais ideal. Nesse momento passamos a compartilhar da fala da raposa do pequeno príncipe, onde esta sugere que o tempo gasto com a rosa é o que a torna importante para nós. Não são as qualidades ou defeitos da rosa que a tornam importante, não é o valor intrínseco da rosa que importa, mas o tempo que gastamos com ela, desejando, elaborando meios para que ela seja igual ao que imaginamos que ela deveria ser, quando ela não é.

Aí então nos deparamos com os limites dos outros e vemos que eles nunca foram dignos de nossas expectativas. Que tudo que imaginamos estava em nós e não neles. Então, o valor que damos a essas pessoas cai até mais do que as ações da bolsa de valores em épocas de crise financeira, passando a beirar a nulidade. E assim inicia o processo inverso. Sem querer, sem valorizar os outros, passamos a não mais precisar elaborar planos mirabolantes para que sejam os relicários de nossos sonhos,  e assim, anulamos também a instrumentalidade. Sem os instrumentos de transformação de imaginação em realização, passamos a nos frustrar e as nossas expectativas, os nossos desejos, passam a tender também a zero. Quando os três itens do tripé se anulam, anula-se junto qualquer motivação que pudesse existir de nós para com os outros. E assim, vamos seguindo a vida, entre desejos e frustrações, em parte por culpa dos outros, que também gostam de ser desejados, utilizados e queridos, mas certamente por nossa culpa, nossa tão grande culpa de olharmos para os outros não como eles se nos apresentam, mas em como gostaríamos que eles fossem. No final de tudo, se há culpados, somos nós que desejamos demais, que esperamos demais, que idealizamos demais...

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Melancolia

“E aí? Gostou do filme?”

 Por vezes o problema não está na resposta, mas na pergunta feita. É exatamente esse o pensamento que me veio, ao ouvir tal pergunta após ter ido ao cinema assistir o novo filme do Lars Von Trier, “Melancolia”. Inclusive, até a palavra “assistir” parece inadequada, melhor seria substituí-la por “experimentar”. Gostar ou não gostar é algo muito superficial para essa experiência, que não sei se teria coragem e, principalmente, estômago para repetir, até porque não é todo dia que se está disposto a sair do cinema com uma sensação de “soco na boca do estômago” que soa bem mais literal do que figurada.

 Mas se me perguntarem: “você recomenda?”, minha resposta imediata seria que não só recomendo o filme, como o classifico como uma daquelas coisas que não se deve deixar de experimentar. Mas insisto, se a pessoa é do tipo que precisa ver respondida a questão do gostar ou não gostar, é melhor ir assistir aos Smurfs. Esse eu gostei muito. Mas Melancolia é mais que um filme, é uma experiência que, por acaso, se passa na tela. Se bem que a sensação mais aproximada é a de que a experiência se passa mesmo dentro de si.
 
Outras advertências para tirar o estímulo dos que querem ver um cinema tradicional: o filme é longo, a história é lenta, as tomadas são feitas à mão, os diálogos são angustiantes, as personagens são complexas e a vontade de ir embora é constante, embora ninguém ouse se levantar nem para esticar as pernas já que o filme tem essa condição de repulsão e atração elevada ao extremo. Obviamente características e momentos de vida particulares podem atenuar ou acentuar essas condições, mas a julgar pela fisionomia de quem sai da sala de projeção, a única diferença parece ser o tamanho da dor (sempre elevada) do tal “soco” que mencionei. Depois, não digam que não avisei.

Agora se após todas essas advertências, a pessoa estiver interessada em experimentar algo novo que vai além do cinema, é centrar a atenção nas irmãs personagens centrais da trama, Justine e Claire, magistralmente interpretadas por Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg , que simbolizam o que há de mais alentador e cruel na lucidez extremada e na fuga consciente da realidade. É meio que impossível, quando se é franco consigo mesmo, não se reconhecer entre uma das duas posturas antagônicas.

Melancolia é um planeta, é um sentimento, é uma condição de existência, é o fim ainda em vida, é, usando figura de linguagem citada no filme, querer correr e não conseguir por estar com as pernas amarradas por um fio de lã. Melancolia é aceitar a realidade, é negar a realidade, é ser a própria expressão da realidade. Melancolia...

P.S.: em Recife o filme está sendo exibido apenas no Cinema da Fundação, de terça a domingo, 17h30 e 20h. R$8,00 (inteira) e R$4,00(meia). Nas quartas-feiras a entrada é gratuita para professores. Eu fui na terça; dou aula nas quartas... :/ :) :P

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

De Dentro

Ele abriu a Bíblia em busca de uma mensagem. Fora ensinado que com fé, pedindo a Deus uma palavra, ao abrir a bíblia encontraria ali suas respostas. Como sempre achou mais fácil entender as mensagens do novo testamento, especialmente dos evangelhos, sempre dava um jeitinho da “aleatoriedade” da abertura cair nessa sua área preferida do livro sagrado. Foi o que mais uma vez fez. Só que nessa hora um vento vindo do nada (leia-se: do ventilador ligado) de súbito fez passar inúmeras páginas em direção ao testamento antigo. Parou num livro, que se não for o menor, é sério candidato.
 

O livro de Jonas tinha apenas quatro capítulos, curtos, bem curtos, diga-se de passagem. Seus olhos pararam sobre o segundo capítulo, onde Jonas, que havia sido engolido por um grande peixe, de dentro das entranhas do animal faz a Deus uma prece. Seu destino parecia já definido, o fim já se aproximara, mas Jonas agradecia a Deus por ter sido engolido pelo peixe. A situação poderia ser pior, pois ali, mesmo diante de tanta dor, ele ainda vivia. E a dor, a escuridão, o mal cheiro , a náusea, de modo irônico o protegia da dor maior causada pelo frio das águas, da escuridão maior da noite de tormenta, do mal cheiro maior de seu próprio apodrecimento, da náusea maior de ser levado a esmo pela correnteza em meio à tempestade. Teria ao menos tempo, ali dentro do animal, para uma última oração, um último instante de lucidez. E no versículo 10 “então o Senhor ordenou ao peixe, e este vomitou Jonas na praia”. Tudo o que se foi vivido preparou Jonas para que ele chegasse ao seu destino.
 

E Ele fechou sua bíblia e rezou a Deus uma oração em que pedia ao menos para estar dentro de um grande peixe e não do lado de fora, à deriva, na tempestade. E se ele teve tempo de rezar é porque certamente ele está sim dentro do peixe, caso contrário ele não conseguiria sobreviver. Para enxergar isso, falta-lhe apenas um pouco daquela fé que ele ouviu falar mais tarde, naquele mesmo dia, na missa, quando Jesus andou sobre as águas, segurando o braço de Pedro que tentara o mesmo, quase se afogando nas ondas revoltas de seus próprios medos.

domingo, 3 de julho de 2011

“Não Tivesse Infância Não?”

De cá pra lá, idas e vindas de Caruaru, rádio por companhia. Dia do caminhoneiro anunciava o Radar da Nova Brasil. Em homenagem aos profissionais da estrada tocam “Frete”, composição do Renato Teixeira imortalizada como tema da série Carga Pesada. Aos primeiros acordes da música me vêm imagens da infância. Não, nunca quis ser caminhoneiro, quis até ser mágico e bombeiro, mas caminhoneiro não. As imagens que me vêm à mente têm mais a ver com a série que passava no início das tardes de domingo. Coincidia quase sempre com o horário de almoço, almoço de domingo. Feijão do dia, arroz, um pouco de farofa e a galinha assada ao forno que minha mãe fazia. Os sentidos se misturam, audição e paladar se confundem, difícil distinguir essas marcas que a gente leva na memória, memória que enquanto palavra etmologicamente deriva exatamente de marca. Dirijo um bom tempo com a imagem na memória. Mas é preciso voltar a atenção para a estrada e para a noite de trabalho que há por vir.

Depois da noite de trabalho, hora de comer pizza com amigos. Falam de bicicleta e eu digo que nunca aprendi a andar de bicicleta. A reação é sempre previsível, um E.T. ao vivo e em cores talvez causasse menos espanto. Aí vem a frase de sempre: “não tivesse infância não?”. Para ajudar na tese criativa de que eu não tive infância ainda completo: “pois é, não aprendi a andar de bicicleta; nunca quebrei perna e nem braço e nem nada; nunca era escolhido para jogar nas peladas da vida e quando conseguia entrar num dos times o meu time podia jogar com um a mais já que eu era “café com leite”, expressão que aqui significa algo como “é mesmo que nada”; não aprendi a rodar pião; não sabia empinar pipa; sempre perdia na bola de gude; não passava trote; não tocava a campanhia do vizinho e saia correndo.” Assim, satisfeitas em verem corroboradas as suas teorias quanto o meu suposto nascimento nascimento já como adolescente, acabam me deixando em paz.

Mas a despeito dessas conclusões, eu tive infância sim. Brincava muito com meus irmãos, virava a casa toda, transformava e o quarto no que quer que quisesse, assistia muita TV e aprendi logo cedo a entender as horas em relógio de ponteiro e os dias da semana para saber exatamente o que passaria na TV em cada horário e dia da semana. Era fã do Sítio do Picapau Amarelo e do Balão Mágico. Desse último tinha todos os discos. Ajudava minha mãe a arrumar a casa que eu mesmo tinha revirado e era quem mais ficava na lojinha que havia em casa para meus pais ganharem algum trocado extra para ajudar a criar a mim e aos meus irmãos. Nas sextas-feiras era dia de ir ao centro e passar no trabalho de meu pai. Gostava de estudar, de ler e de ouvir histórias. Gostava que meu pai penteasse meu cabelo da forma desajeitada que só ele tinha e de conversar com minha mãe. Adorava desmontar os brinquedos para ver como funcionavam e mais ainda ver meu pai consertá-los, deixando-o funcionando de novo, mas cheio de fita adesiva e com meia dúzia de peças “desnecessárias” sobrando depois da remontagem. Gostava de quebra-cabeças, jogos de montar, e de brincar em família de “nome, lugar, objeto”, joguinho que se sorteava uma letra e tinha-se que colocar nomes de pessoas, de lugares, de objetos, de cores, de filmes e o do escambau, que começassem com aquela letra. Adorava também brincar de forca, fazer caça-palavras de revistas e morria de vontade de completar uma página de palavras cruzadas como minha mãe fazia. Certamente o amor pelas palavras começou com esses jogos que minha mãe sabiamente nos estimulava a jogar. Difícil era ganhar dela. Quando comecei a ganhar ela parou de jogar, dizendo que agora eu já estava pronto. Sem graça ela! Gostava de viajar pra casa de meus avós e brincar com as dúzias de primos que tenho. Povo do interior tinha muitos filhos antigamente. Gostava de balanço no parque e de balançar na rede em casa. Nessas horas era bom olhar o céu e pensar sobre toda a sorte de coisas. Na escola tive agência de detetives e era sempre vitorioso na disputa interna de quem copiava mais rápido o que as professoras escreviam no quadro, para abuso de minha mãe que ficava horrorizada com a minha letra ruim, de pressa. Era aluno comportado, mas muito observador. Gostava de fazer a tarefa de casa ainda na escola esperando a condução, para não precisar ter trabalho em casa. Adorava estudar, mas não em casa. Cada coisa no seu devido lugar.  E gostava dos almoços de domingo, ao som da trilha sonora do Carga Pesada, que quem quiser relembrar pode ver/ouvir clicando AQUI

Enfim, eu posso não ter tido a infância típica dos outros, mas tive a minha infância típica, que certamente também tem muito em comum com a de tanta gente que é sempre diferente e que se constrói, por isso mesmo , de forma diferente. 


segunda-feira, 27 de junho de 2011

Insônia, Piada, Mitologia e Cinema


Ultimamente até piadas me fazem refletir, algumas até mais do que muitos dos textos acadêmicos lidos. No post anterior já havia iniciado com a piada do eletricista, agora não consegui dormi e acabei me levantando pensando em outra piada, e até como forma de ver se, colocando essas palavras para fora, eu consiga voltar pra cama, aqui estou escrevendo.

A anedota de minha insônia de hoje conta que numa grande enchente, dessas que estão virando rotina, um pastor evangélico de muita fé, precisou subir até o telhado para fugir das águas. Passou então um morador com uma canoa oferecendo carona e ele disse que não precisava porque Deus iria salvá-lo. Depois a defesa civil veio com uma lancha e tentou resgatá-lo, mas ele disse que não precisava porque sabia que Deus viria salvá-lo. Por fim, quando as águas já se precipitavam por sobre o telhado, um helicóptero das forças armadas que ajudava no resgate jogou uma escada dessas de corda para que ele subisse e ele insistiu em não ir, gritando para que ouvissem apesar do barulho das hélices, que Deus viria salvá-lo. Por fim, o pastor morreu afogado. Chegando ao céu, ele resolveu tirar satisfações pessoalmente com Deus. Pediu uma audiência e ao ser atendido foi logo acusando o Todo Poderoso de ter sido negligente, de não ter cumprido a promessa de salvá-lo uma vez que ele tivesse assumido sua fé e outras coisas mais. Deus escutou tudo e ao final disse calmamente: “meu filho, eu mandei até helicóptero para lhe salvar...”

Fiquei pensando nas tantas oportunidades que a vida nos oferece e nós acabamos deixando passar. Diz a mitologia que a Oportunidade era um ser selvagem que vivia correndo em alta velocidade pelos bosques e florestas. Rezava ainda o mito que, quem conseguisse agarrar uma Oportunidade teria sorte para toda a vida. O problema era que, além de passar sempre correndo, ela, a Oportunidade, tinha o corpo escorregadio, sendo possível agarrá-la apenas pelos cabelos. O detalhe era que a Oportunidade só tinha cabelos na parte posterior da cabeça. Assim, a única forma de conseguir agarrar a dita cuja era prever sua chegada e no momento exato virar-se de frente para a criatura e agarrar-lhe, com unhas e dentes (dizem que é daí que deriva a expressão popular que alude a esse fato), os seus cabelos. Só assim ela poderia ser capturada.

Fiquei triste com a situação do pastor da piada. Tanto tempo de preparação não lhe foi útil para agarrar as inúmeras oportunidades que lhe foram oferecidas, tanto que acabou pagando com a própria vida por sua incapacidade de entender os fatos e de reagir diante dessas informações.

Lembrei-me ainda do filme “Proposta Indecente”, onde um homem muito rico oferece um milhão de dólares a um casal para passar uma noite com a mulher. Quando o enredo consegue nos deixar bem à vontade no papel de juízes das ações do milionário, levando-nos a considerá-lo um canalha, ele conta uma história de sua adolescência, ainda pobre, quando voltava para casa de metrô. Nessa viagem, diz ele, havia uma linda garota sentada um pouco a sua frente. Toda vez que ele a olhava ela desviava seu olhar. O mesmo fazia ele ao ser encarado por ela. Numa das estações ela desceu. Olhando pela janela, nas palavras dele, ela lhe deu o mais lindo sorriso que jamais vira e desde então nunca mais esquecera. Ele tentou ainda descer do trem, mas as portas se fecharam e ele foi levado a outra estação. Chegando lá pegou um trem de volta, desceu na estação anterior, a procurou por todos os lados, pelas redondezas, voltou dia após dia até a estação, no mesmo horário e em outros horários, mas nunca mais a encontrou. Segundo ele, havia perdido a oportunidade de sua vida e por isso resolvera que acontecesse o que acontecesse não deixaria isso tornar a se repetir, por isso foi capaz de oferecer tanto dinheiro por ela. Mais tarde, no filme, ele a deixa ir porque, a despeito de todos os seus esforços ele sabe que ela nunca olhará para ele como olhava para o marido. Ao menos ele tentara. Mas essa coisa de olhar é sempre muito forte mesmo...

Não estou querendo fazer apologia à ética instrumentalista onde os fins são justificados pelos meios. Apenas me vieram essas imagens à cabeça e precisava colocá-las para fora para tentar dormir. Sei que o pastor e o milionário são diferentes, mas agiram de forma semelhante a muitos de nós que ficamos presos ao comodismo das convenções que nos são impostas. Impossível não se identificar com eles. Impossível não se perceber tão incapaz nessas horas em que perdemos oportunidades por motivos diversos, alguns até razoavelmente justificados por essas convenções, mas que ainda assim são e serão sempre oportunidades perdidas. E depois ainda reclamamos de não termos sorte na vida...

domingo, 26 de junho de 2011

Fiat Lux


Lembrei-me de uma piada. Um pedreiro, um carpinteiro e um eletricista discutiam sobre qual deles exercia a profissão mais antiga do mundo. O pedreiro disse que foram seus antepassados que construíram a muralha da China. Ao que o carpinteiro devolveu dizendo que a Arca de Noé era a prova de que a carpintaria era mais antiga. O eletricista calmamente pergunta: “e quando Deus criou o mundo e disse ‘faça-se a luz’ quem vocês acham que puxou a fiação?” 

Bem, excluindo-se a ação do suposto antepassado eletricista de nosso amigo da piada, na primeira das duas narrativas da criação do mundo que encontramos no Gênesis... 

Um parênteses... talvez você esteja se perguntando: “duas narrativas?” Pois é, isso mesmo! Basta ler os dois primeiros capítulos do Gênesis para descobrir que trazem, cada um, uma história diferente para a criação do mundo. Interessante não? Contradição? Não se lermos o Gênesis como um livro de poesias e não como um tratado científico. Eu, particularmente, acredito que seja muito significativo que a primeira coisa que se encontre num livro sagrado, no caso a Bíblia (para os cristãos) e o Torá (para os judeus), seja uma grande e bela poesia em que o homem contempla o universo como criatura divina.

Parênteses fechados, quando Deus criou o mundo, lá na primeira das narrativas poéticas para  a criação, só havia trevas. E Deus disse: “Fiat lux!” Não é propaganda de caixa de fósforos , muito menos de fábricas de carros e/ou sabonetes, é que Fiat lux  significa “faça-se a luz!” Interessante que anos mais tarde cientistas começaram a professar que o universo foi criado com uma explosão de... de... luz. Coincidência? Bem, a fé de cada um decide. O que me chama atenção mesmo é que, tanto por relatos poético-teológicos quanto físico-científicos, o início de tudo foi repleto de luz. Pra ser mais exato, o início da vida foi marcado pela luz. Antes havia o caos, a escuridão, as trevas, o nada, o vazio. A luz é o sinal de vida nova.

Lembro agora dos tempos de criança, quando as faltas de energia eram mais constantes, e de como eu adorava quando isso ocorria, pela expectativa do que aconteceria no momento em que a luz se faria novamente. Explico! A falta de luz deixava todo o bairro no escuro, em profundo silêncio, todos à espera que a companhia elétrica resolvesse o problema. Lembro que meu pai sempre ia para o quintal olhar a extensão da falta de energia. Quando ele não conseguia enxergar nenhum ponto de luz dizia: “foi geral!” Isso era sempre visto como algo bom, pois significava que tomariam providências mais rápidas. Não posso dizer que havia precisão científica nas conclusões do senso comum de meu pai, mas nas minhas lembranças quanto maior a queda de energia, realmente mais rápido ela voltava. E quando a luz retornava, podia-se ouvir o rumor de alegria dado pelo bairro em uníssono. Sem ensaios, a luz anunciava a alegria... Alguém que estivesse com os olhos fechados saberia que a luz retornara usando apenas a audição. Tenho a impressão que quando Deus fez a luz, o céu estava escuro, os anjos tristes e calados, e quando a explosão de luz aconteceu, uma outra explosão, esta de alegria, ecoou pelo universo com o alegre rumor uníssono desses anjos. Tudo ainda estava por fazer, por construir, por edificar, por criar, nada estava realmente pronto, mas havia luz. A bagunça e o caos, agora iluminados, tinham a chance de se transformar em algo melhor, em algo vivo, em algo que realmente valha a pena viver. A incompletude sempre estaria lá, mas também lá estaria a luz infinita que permite que o infinito iluminado seja sempre mais.

Muito tempo depois, um certo Jesus de Nazaré, nos disse que deveríamos ser criaturas como a luz, que deveríamos ser luz do mundo. Jesus era poeta, ele nos chamava à responsabilidade que todos temos em iluminar os caminhos da criação e das criaturas. Nossos gestos, nossas ações, nossas palavras, têm poder divino e criador, afinal de contas, Deus nos fez à sua imagem e semelhança e como semelhantes herdamos esse poder de criar vida nova. É certo que nem todos querem ser mesmo iluminados. Alguns fazem questão até de apagar o facho de luz que mostra o caos, o vazio e a bagunça de suas vidas. Nessas horas, o problema não é da pessoa-luz. Não podemos colocar as responsabilidades do bagunçar de nossas vidas na luz que mostra esse caos, seria loucura demais, paranóia até. Ao contrário, deveríamos aproveitar que a luz foi feita e tentarmos organizar o que pudermos antes que a luz passe. Nunca sabemos por quanto tempo teremos a luz em nossas vidas, por isso mesmo, temos que torná-la eterna em nosso ser. Precisamos aprender, nesses momentos de iluminação, a criar a nossa própria fonte geradora de energia, não apenas para nós, mas para nos permitir ser, também nós, pessoas-luz na vida de pessoas-trevas. Estaremos assim fazendo a nossa parte em iluminar. Restar-nos-á apenas, esperar que essa nossa chama contagie o outro para que assim possamos iluminar não apenas nosso bairro, mas todo o mundo.