domingo, 6 de novembro de 2011

O Palhaço


Pois é, mais um filme para reflexão. Insisto, não estou querendo me tornar crítico de cinema ou coisa parecida. Apenas gosto de escrever sobre o que me faz parar para pensar, refletir, ruminar. Creio que estou tento sorte com os filmes, ainda que poucos, que tenho assistido ultimamente. E isso é bom, muito bom aliás, até porque há algum tempo atrás cheguei a pensar que não voltaria a ver bons filmes novamente, tamanha a falta de sorte que estava tendo na escolha dos filmes. Nada como um dia após o outro para nos apresentar novas perspectivas. E é exatamente o ver a vida sob perspectivas diferentes a grande mensagem, pelo menos por mim percebida, do interessante filme "O Palhaço", escrito, dirigido e protagonizado pelo Selton Mello e que está em cartaz por esses dias.

Selton Mello é Benjamin, filho do dono do Circo Esperança, este por sua vez interpretado pelo grande Paulo José. Juntos, pai e filho, formam uma dupla de palhaços (Pangaré e Puro Sangue) que é a grande atração de um circo que percorre pequenas cidades interioranas, sempre com muita dificuldade, com dinheiro curto, lona rasgada, e todo o tipo de necessidades por parte dos demais integrantes de uma trupe, cujo jeito de levar a vida, por si só, já bastaria ao filme.

Mas Selton Mello vai bem mais longe ao mostrar de forma delicada um palhaço triste, que não tem forças para lutar contra as dificuldades que a vida lhe apresenta. Como é dito no filme, gato come rato, rato come queijo e cada um só faz aquilo que sabe. E Benjamin só sabe ser palhaço, mas isso não mais lhe basta, não mais lhe traz leveza, paz de espírito, alegria. 

Cada um de nós, nesse mundo turbulento, maluco até, onde acabamos fazendo não aquilo que queremos, mas aquilo que querem para gente, acabamos vez ou outra nos comportando como Benjamin. Nada parece fazer sentido, as forças nos abandonam, o destino parece nos levar tal qual a correnteza de um revolto rio cujas cabeceiras recebem chuvas constantes. Nessas horas, a apatia parece ser a única forma de lidar com a vida, uma sobrevida.

Acontece que nas voltas que o mundo dá, por vezes, como mostra o filme, não é necessário negar a vida e os problemas que enfrentamos. Mas é necessário que mudemos de vez em quando as perspectivas com as quais enxergamos a vida, os problemas.  A felicidade é uma questão de eternidade, e eternidade que se encontra em um momento. Basta apenas um momento para que nos sintamos completos, eternos, felizes, apesar de nos sabermos incompletos, finitos, instáveis. 

Incompletos, finitos, instáveis, somos todos. Mas a "esperança", oportuno nome do circo do filme, nos surpreende com a transformação da dor em alegria, da escuridão em luz, da morte em vida. O mundo pode não mudar, mas algo dentro de nós sempre muda e, parafraseando Nietszche, ninguém tira da vida mais do que tem dentro de si. Assim, "quando não houver saída, quando não houver mais solução", "quando não houver esperança, quando não restar nem ilusão", como na música, é o momento de dizer pra si mesmo que "ainda há de haver saída, nem uma ideia vale uma vida", "ainda há de haver esperança, em cada um nós, algo de uma criança", algo de palhaço, palhaço triste que reconhece no picadeiro da vida, a sua verdadeira felicidade, sua "melhor" felicidade.

Trailer do filme O Palhaço

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