Fazer memória é intrínseco à natureza humana. Na
etimologia da palavra, memória está associada àquilo que "marca", que
deixa marcas. O povo judeu sempre foi mestre na arte de fazer memória, tanto
que conseguiu com esse artifício se manter enquanto um povo, uma nação, mesmo
sem uma terra para chamar de sua. Não foi à toa que Jesus Cristo, um judeu,
encerrou sua última ceia com seus amigos dizendo: "fazei isto em minha
memória!" Fazer memória não é, portanto, lembrar do passado, é viver
novamente o fato memorado, marcado, é trazer para o hoje o que foi vivido e
vivê-lo novamente com intensidade. Comemorar, co-memorar é portanto, fazer
memória junto, estar em comunhão na alegria, na lembrança, na recordação, no
viver de novo o fato, celebrando, que por sua vez significa tornar célebre, marcante,
memorável.
Essa crônica de hoje é um memorial particular que
compartilho com os amigos, especialmente aqueles que são, como eu, torcedores
do Clube Náutico Capibaribe, ou que lhe tem simpatia, ou mesmo os torcedores de
times rivais que entendem que faz parte da competição reconhecer a vitória do
opositor, até porque o futebol é um elemento da vida e não um instrumento para
a guerra, como muitos infelizmente parecem ver. Mas a memória que faço é da
primeira crônica que escrevi quando resolvi me aventurar no mundo dos blogs, ou
na "blogosfera" como muitos chamam.
Naquela ocasião, cinco anos atrás, eu escrevia sobre o
acesso do time alvirrubro para a Série A. Vínhamos de uma dramática derrota no
ano anterior para o Grêmio, que nos impediu naquele momento de voltar à elite do futebol brasileiro, e na
crônica eu comentava que, da forma como aquela sofrível derrota aconteceu,
dificilmente um clube se reergueria. Confessava eu na crônica, que cheguei a
ter receio do futuro do meu time. Mas torcer pelo Náutico tem dessas coisas.
Por mais que escutemos dos torcedores rivais que estamos "acabados",
somos capazes de reviravoltas inesperadas, mesmo sem acesso equivalente aos
recursos financeiros que acabam por definir, infelizmente, os times que
conseguem competir dignamente. O que não deixa de ser, como gosto de brincar
parafraseando o Roberto Carlos, quase mais um detalhe, porque conseguir fazer
mais, não é nem gastando menos, é não tendo o que gastar, é algo que por si só
já demonstra a natureza de fênix do time. Eu entendo esse comportamento dos
torcedores rivais, principalmente os mais "endinheirados", é o
instinto de defesa. Deve mesmo ser a única forma de tentar conter um time que
com tão poucos recursos e sem nenhuma estrela se classifica para a série A com
uma rodada de antecedência e tendo o artilheiro da competição, como aconteceu
na tarde de ontem com o Náutico.
Na crônica de cinco anos atrás eu citava uma música que
ficou bem popular entre nós alvirrubros naquela ocasião, justo por expressar bem o que foi aquele
momento para o time timbu. A música do Paulo Vanzolini a certa altura diz: "ali onde eu chorei,
qualquer um chorava, dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem
dava". E foi emocionante rever nas comemorações de ontem uma faixa com
esses dizeres. Quiseram nos fazer acreditar, a imprensa pernambucana inclusive
não se cansava de repetir isso, que o time ia lutar para não cair para a Série
C. E eis que mais uma vez os experts em futebol se enganaram, pois
negligenciaram a capacidade de superação de um time, sem estrelas é verdade,
mas com espírito guerreiro e detentor de uma torcida apaixonada que não o abandona
nem nos momentos mais dramáticos de sua história.
Deixo meus parabéns à direção do time, à comissão
técnica, aos jogadores e à torcida, que se esforçaram para dar o melhor de si.
E que tomemos os bons exemplo advindos do futebol também para nossas vidas.
Podemos fazer sempre mais, mesmo tendo menos. Sonhar é o primeiro passo para
viver uma realidade.
Saudações alvirrubras!

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