domingo, 20 de novembro de 2011

Memória Alvirrubra


Fazer memória é intrínseco à natureza humana. Na etimologia da palavra, memória está associada àquilo que "marca", que deixa marcas. O povo judeu sempre foi mestre na arte de fazer memória, tanto que conseguiu com esse artifício se manter enquanto um povo, uma nação, mesmo sem uma terra para chamar de sua. Não foi à toa que Jesus Cristo, um judeu, encerrou sua última ceia com seus amigos dizendo: "fazei isto em minha memória!" Fazer memória não é, portanto, lembrar do passado, é viver novamente o fato memorado, marcado, é trazer para o hoje o que foi vivido e vivê-lo novamente com intensidade. Comemorar, co-memorar é portanto, fazer memória junto, estar em comunhão na alegria, na lembrança, na recordação, no viver de novo o fato, celebrando, que por sua vez significa tornar célebre, marcante, memorável.

Essa crônica de hoje é um memorial particular que compartilho com os amigos, especialmente aqueles que são, como eu, torcedores do Clube Náutico Capibaribe, ou que lhe tem simpatia, ou mesmo os torcedores de times rivais que entendem que faz parte da competição reconhecer a vitória do opositor, até porque o futebol é um elemento da vida e não um instrumento para a guerra, como muitos infelizmente parecem ver. Mas a memória que faço é da primeira crônica que escrevi quando resolvi me aventurar no mundo dos blogs, ou na "blogosfera" como muitos chamam.

Naquela ocasião, cinco anos atrás, eu escrevia sobre o acesso do time alvirrubro para a Série A. Vínhamos de uma dramática derrota no ano anterior para o Grêmio, que nos impediu naquele momento  de voltar à elite do futebol brasileiro, e na crônica eu comentava que, da forma como aquela sofrível derrota aconteceu, dificilmente um clube se reergueria. Confessava eu na crônica, que cheguei a ter receio do futuro do meu time. Mas torcer pelo Náutico tem dessas coisas. Por mais que escutemos dos torcedores rivais que estamos "acabados", somos capazes de reviravoltas inesperadas, mesmo sem acesso equivalente aos recursos financeiros que acabam por definir, infelizmente, os times que conseguem competir dignamente. O que não deixa de ser, como gosto de brincar parafraseando o Roberto Carlos, quase mais um detalhe, porque conseguir fazer mais, não é nem gastando menos, é não tendo o que gastar, é algo que por si só já demonstra a natureza de fênix do time. Eu entendo esse comportamento dos torcedores rivais, principalmente os mais "endinheirados", é o instinto de defesa. Deve mesmo ser a única forma de tentar conter um time que com tão poucos recursos e sem nenhuma estrela se classifica para a série A com uma rodada de antecedência e tendo o artilheiro da competição, como aconteceu na tarde de ontem com o Náutico.

Na crônica de cinco anos atrás eu citava uma música que ficou bem popular entre nós alvirrubros naquela ocasião,  justo por expressar bem o que foi aquele momento para o time timbu. A música do Paulo Vanzolini  a certa altura diz: "ali onde eu chorei, qualquer um chorava, dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava". E foi emocionante rever nas comemorações de ontem uma faixa com esses dizeres. Quiseram nos fazer acreditar, a imprensa pernambucana inclusive não se cansava de repetir isso, que o time ia lutar para não cair para a Série C. E eis que mais uma vez os experts em futebol se enganaram, pois negligenciaram a capacidade de superação de um time, sem estrelas é verdade, mas com espírito guerreiro e detentor de uma torcida apaixonada que não o abandona nem nos momentos mais dramáticos de sua história.

Deixo meus parabéns à direção do time, à comissão técnica, aos jogadores e à torcida, que se esforçaram para dar o melhor de si. E que tomemos os bons exemplo advindos do futebol também para nossas vidas. Podemos fazer sempre mais, mesmo tendo menos. Sonhar é o primeiro passo para viver uma realidade.

Saudações alvirrubras!

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