Por que a intimidade alheia dá tanta audiência? Se isso já era verdade, fenômenos como os “reality shows” e, de maior acessibilidade, as redes sociais, acabam por maximizar esse efeito. Mas isso não é de hoje. Semana passada estávamos na semana santa e nas celebrações religiosas que fazem memória da paixão, morte e ressurreição de Jesus, isso já ficava evidente. Uma massa, ávida por novidades aclama a entrada triunfante de Jesus em Jerusalém para logo depois, ávida agora por mais novidades, novidades de sangue, levada pelas autoridades, pede a crucificação do nazareno. A crucificação é um espetáculo. Houvesse a mídia dos dias atuais, passariam não mais que uma semana falando sobre o assunto, mas essa seria O assunto dessa semana. Fariam cobertura instante a instante da crucificação, trariam depoimentos de especialistas em madeira, em dor, em espinhos, até em moda para como melhor dividir o manto. Instalariam câmeras de diversos ângulos e microfones aos pés da cruz. Entrevistariam apóstolos, autoridades e tentariam uma exclusiva com Maria. Tudo para satisfazer a audiência.
A cobertura do caso do massacre das crianças no Rio de Janeiro foi um exemplo disso. Fiquei estupefato diante de uma Ana Maria Braga perguntando no dia seguinte a uma das sobreviventes, uma menina de pouco mais de 10 anos, primeiro: “você soltou o cabelo? Ontem você estava com o cabelo preso! Ficou mais bonita!” Depois: “você conseguiu dormir de ontem pra hoje?” e o interessante foi a cara de nítido desapontamento da apresentadora diante da resposta da menina que disse que demorou um pouquinho, mas que sim, que dormiu a noite toda até o dia seguinte. Não satisfeita a Ana ainda sapecou esta pergunta: “pra você o que é a morte?”. Desculpem-me, mas foi revoltante. Não bastava o que aquela menina passou no dia anterior ser submetida àquilo. Nem condeno a mãe da menina que a levou lá, até porque, quando aquela pobre mãe teria a oportunidade de “ir ao programa da Ana Maria”. Tudo isso em busca de uns traços de ibope.
A novidade dos últimos dias foi o auê em torno do casamento dos agora duques de Cambridge. Ao menos é uma daquelas mobilizações fúteis em que nada acrescenta a nossa vida diária. Ou até acrescenta, pois os cerimoniais ficarão muito felizes em elaborar decorações, vestidos e cerimônias genéricas para os noivos da hora em troca de um maior percentual de moeda corrente. Mas ainda assim, superficialidade. Só uma coisa me incomoda: não saber onde o casal de nubentes vai passar a lua-de-mel. África, Chile, Jordânia, lá mesmo? Só sabemos que saíram de helicóptero... Mas pra onde? Por favor, quem souber, me diga!
Tenha a santa paciência!!! Sinceramente...
Mas é compreensível. Ocupar-se da vida alheia é uma excelente forma de não preocupar-se com a sua própria vida. Nessa linha recomendo as aulas iniciais de Foucault em “A hermenêutica do sujeito” sobre a epimélia heautôu, traduzindo, “o cuidado de si’, “ocupar-se consigo”. Seria mais interessante agir como numa dessas engraçadas “campanhas” que viraram moda com o facebook: “Campanha pela VIDA: cada um cuida da sua!” E já é muito!

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe seu comentário, sua sugestão, sua crítica!