Trecho do livro O Pequeno Príncipe do francês Antoine Saint-Exupéry:
“As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam: ‘Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que ele coleciona borboletas?’ Mas perguntam: ‘Qual é sua idade? Quantos irmãos ele tem? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?’ Somente então é que elas julgam conhecê-lo. Se dizemos às pessoas grandes: ‘Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas no telhado...’ elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma ideia da casa. É preciso dizer-lhes: ‘Vi uma casa de seiscentos contos’. Então elas exclamam: ‘Que beleza!’”
Ainda dizem que é um livro para crianças. Mas deve ser mesmo, porque parece que nós adultos não temos inteligência suficiente para entendê-lo. Aprendemos a ver o mundo apenas do nosso ponto de vista, esquecendo, como diz Leonardo Boff que todo ponto de vista é apenas a vista de um ponto. As nossas universidades têm sido construídas em cima desse “ponto”, ou melhor, desses “pontos”. Tudo é pontuação, é número, é medido, é quantificável.
Se eu digo que um aluno é divertido, interessado, disposto, curioso e questionador não conseguimos ter uma imagem nítida desse aluno. Agora quando dizemos que é um aluno nota 10, aí temos o nosso estereótipo de bom aluno.
Se falamos de professores que abstraem conceitos, que despertam o interesse pela pesquisa genuína, que agem como mentores de seus orientandos, que sorriem e compreendem que seus alunos têm emoções, sentimentos e frustrações, não conseguimos dimensionar a qualidade desse professor. Mas se dissermos que ele tem publicações Qualis A, aí sim, sabemos que estamos diante dO professor, dO pesquisador.
Damos aos alunos notas de 0 a 10, exigimos freqüência mínima de 75%, contamos a quantidade de intervenções feitas em sala, olhamos de soslaio para nossos relógios para medir o atraso. Avaliamos nossos professores pela quantidade de turmas, de alunos. Pelo número de publicações, citações, orientações, participações em congressos, encontros, seminários... esses por sua vez são divididos em categorias baseadas em rankings avaliados de forma quantitativa. Nos submetemos às exigências dos órgãos de fomento e de aperfeiçoamento em pesquisa. Vivemos em busca de conceitos maiores, de notas melhores, gravitamos em torno de indicadores quantitativos. Sinceramente, a Academia parece pouco diferente de uma franquia da McDonalds.
A moda agora são os combos de artigos. Você num artigo coloca o nome de vários pesquisadores. Cada um escreve um e põe o nome dos outros e no final cada um tem um “combo” de artigos. Para acompanhar, ainda colocam uns bolsistas “batata-frita” e uns pesquisadores “refrigerante”. E por mais alguns reais de financiamento se consegue uma porção maior de publicação internacional.
Só que às vezes esse modelo gorduroso, causa algumas indigestões, como a que aconteceu lá na USP, uma das mais respeitadas universidades brasileiras. Um professor coordenava um projeto com mais 10 pesquisadores. Na publicação copiaram descaradamente as fotos de uma bactéria tiradas e publicadas por outro grupo de pesquisa, lá da UFRJ. Ainda colocaram na legenda que as fotos eram de outro tipo de organismo. Ou seja, nem pra plagiar direito foram competentes. O professor foi demitido e alega que foi sua orientanda que cometeu o deslize. Ela teve, inclusive, seu título de doutora cassado. O professor além de coordenar esse tanto de gente, tinha suas aulas, cargos administrativos, outras pesquisas e projetos de extensão. Alega que não tinha como perceber todos os detalhes. Mas como então garantir que a publicação é confiável? A ciência usa caixas de Pandora para prender lá dentro tudo o que faz. O problema é que, de vê em quando, alguém resolve abrir a caixa. O mais interessante é ver como os jornais se referiam ao professor. Disseram que ele era um dos mais renomados professores da faculdade porque, percebam, publicou dezenas de artigos. Redundante não? E olha que Nietzsche muitas décadas atrás já nos advertia quanto a isso.
Ah, e teve também o caso de outro renomado professor, agora de química, lá da Unicamp, outra grande universidade brasileira. Ele foi acusado de fraudar 11 artigos científicos. O professor de 68 anos, está na Unicamp desde 1968.
Mas não é só no Brasil que essas coisas acontecem. Recentemente, nos Estados Unidos, um biólogo pesquisador e professor de Harvard foi acusado de distorcer dados sobre o aprendizado de pequenos macacos. Pra quem gosta de números, lá na terra do Tio Sam que possui uma agência federal para investigar casos assim, o número de fraudes científicas cresceu 161% em 16 anos. Só em 2009 foram 217 denúncias investigadas ao custo de, acreditem, 110 milhões de dólares. Fico imaginando aqui no Brasil onde há uma clara leniência na investigação de fatos assim. Uma das professoras envolvidas na pesquisa lá da USP era reitora até bem pouco tempo.
Os professores reclamam que os alunos fazem colchas de retalhos nos trabalhos, que cada um faz uma parte, que copiam da Internet, que colocam os nomes dos colegas. Mas será mesmo que eles próprios, professores, pesquisadores, não fazem isso e numa escala bem maior?
Não que devamos desmerecer a pesquisa e diminuir nossos critérios abdicando dos avanços obtidos nos últimos anos. Mas a que custo? Precisamos pensar nisso! Alunos, professores, pesquisadores, são antes de tudo seres humanos. Não adianta ficar em sala de aula criticando Taylor, Fayol, Ford e Weber e sermos no nosso dia-a-dia, tão mecânicos quanto a personagem do Chaplin em Tempos Modernos. Publicação científica não é parafuso! Universidade não é indústria. E nós não somos máquinas.
* texto originalmente elaborado como contribuição ao trabalho de um dos grupos da disciplina de Didática do Ensino Superior do PROPAD/UFPE 2011.1, gentilmente solicitado por minha "mentoranda", Bruna Guevara Bin Laden :)