quarta-feira, 24 de outubro de 2012

SOBRE A INTIMIDADE DA FELICIDADE


São tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo que o blog foi deixado, ultimamente, meio que de lado, até porque em alguns momentos é preciso reservar-se ao direito de silenciar, de curtir a intimidade de si, de compartilhar o nada que diz tudo, de tornar público apenas o necessário, de cutucar a si mesmo para novas experiências, de comentar fatos apenas com as pessoas que são importantes para a nossa vida.

Pode parecer até incoerência falar sobre intimidade - ainda mais intimidade da felicidade - em um blog público, e certamente é incoerente. Mas quem disse que precisamos mesmo ser coerentes todo o tempo? Até porque o blog é meu e, parafraseando o dito popular, escreve quem pode e lê - nesse caso - quem NÃO tem juízo. Contudo, eu não estou aqui para descrever o santo, apenas o milagre. Então até a publicidade, é uma publicização (esta palavra existe? :P ) íntima, particular.

O milagre que traz felicidade em forma de música que toca de repente, não mais do que de repente, no rádio do carro.

Conto o sentimento, não conto a música, pois é íntima demais.

O milagre que traz felicidade em forma de ligação telefônica, onde as coisas do dia-a-dia se transformam em sorrisos e até erros ortográficos viram motivo de alegria.

Conto a ligação recebida, não conto de quem, pois é íntimo demais.

O milagre que traz felicidade em forma de corrida à beira mar, onde a ideia de perder um dado número de quilos se transforma em sopro de esperança.

Conto o exercício, mas não conto a meta do desafio dado, pois é íntimo demais.

O milagre que traz felicidade em forma de conversa sobre um determinado livro onde o autor (um cientista!) fala que é preciso entregar-se à vida, relaxar um pouco mais, não contrair-se, não ter medo, viver e viver em plenitude, em abundância, correndo riscos, experimentando o novo.

Contaria até o livro se me lembrasse agora do título, mas não conto com quem tive a conversa, pois é íntimo demais.

O milagre que traz felicidade em forma de livro de histórias em que ao abri-lo aleatoriamente descobre-se em seu conteúdo o seguinte trecho:
"A sociedade prossegue lhe dizendo, 'isso está certo, e aquilo está errado'. Chamam a isso de consciência. Ela se fixa, fica implantada em você. Você fica repetindo-o. Isso não tem valor; não é verdadeiro. A coisa real é sua própria consciência. Esta não carrega respostas predefinidas sobre o que é errado e o que é certo, não. Mas instantaneamente, seja qual for a situação que surja, ela lhe traz a luz – você entende imediatamente o que deve ser feito."

Conto a citação, mas não conto o que percebi que deve ser feito imediatamente, pois é íntimo demais.

Provavelmente esta é, em todo o blog, a postagem menos compreensível e, até por isso mesmo, mais sujeita a todo tipo de interpretação.

Interpretem como queiram, o sentido real dela é íntimo demais.

Mas traz a tal da felicidade!

sábado, 29 de setembro de 2012

CONTOS DA LUA #4: Primavera, Verão, Outono, Inverno, Primavera... (setembro, 2012)


Continuando a série "Contos da Lua": lua cheia no céu; postagem nova da série no blog.

E essa é uma lua especial, a primeira lua cheia dessa primavera. Penso que algumas pessoas têm fases como as determinadas pela lua, enquanto outras têm estações como as determinadas pelo sol. Umas se guiam pela rotação, outras pela translação. Mas todas estão sempre em movimento. Não podemos dizer que tudo no mundo gira em torno de encontrar alguma coisa, mas algumas coisas, quando encontradas, fazem o mundo da gente girar, se movimentar, e a partir daí, nada mais é como foi antes. Passamos a enxergar o mundo com os olhos da alma, do coração. E nesse momento tudo fica muito claro, iluminado, vivo...

Este preâmbulo não é aleatório, desconexo ou acidental. É uma reflexão minha a partir de uma das histórias que a lua me contou e que escolhi hoje, propositadamente, para homenagear esse início de primavera, tempo de vida nova, de renascimento, de perdão, de busca pela felicidade. Mas não a felicidade vazia vendida pelas propagandas de produtos mil, mas aquela felicidade que faz nosso coração vibrar, felicidade que preenche nossos vazios. Felicidade até inconsequente. Mas, e daí? Por que mesmo pensar tanto nas consequências se tudo passa tão rápido? Até porque toda decisão tem sempre consequências queiramos ou não.

Essa semana, por exemplo, fui a um mercadinho. Minha intenção: comprar uma água de coco. O dono chorava copiosamente quando lá entrei. A funcionária nos explicou que ele acabara de receber a notícia da morte do pai. A cena me comoveu, até porque duas senhoras que estavam na fila comigo conversavam entre si dizendo que ele, o dono, estava todo sorridente poucos minutos antes. A primeira coisa que pensei foi como o tempo foge, voa rápido e imediatamente pensei também no pai morto e fiz uma prece, talvez inútil dada as circunstâncias, já que a vida dele acabara, mas eu pedi que ele tivesse optado em vida pelo que fazia o coração dele vibrar. Talvez a prece nem fosse mesmo por ele, mas por mim e pelo mundo, porque certamente quando nos dermos conta do que temos feito com a vida que recebemos de presente, de certo não serão os fatos convenientes, confortáveis, respeitáveis, aceitáveis socialmente e honrosos que nos darão a certeza de plenitude, de completude, enfim, de vida. Mas de certo lembraremos daquilo que fez nosso coração vibrar, que nos deixou sem ar, que nos fez tremer, enfim, daquilo que fez a gente se movimentar, tal como o sol, tal qual como a lua. Ah, e por falar em lua, vamos enfim ao conto desta lua cheia.

A lua muito me surpreendeu com essa história que ora relato. Ela me disse: "vou te contar uma história que você já conhece, mas vou contar como tudo realmente aconteceu". Fiquei intrigado com esse comentário lunar, mas ela me explicou que eu já conhecia a história porque ela havia sido registrada na bíblia. A história de um cego de nascença, curado por Jesus com lama feita de barro e saliva. De imediato me lembrei que a passagem está no evangelho de João, o mais místico e poeta dentre os evangelistas, e que trata o fato como um dos sinais de Jesus. Para João não havia milagres, havia sinais.

Na minha espontaneidade, querendo demonstrar meus conhecimentos bíblicos citando como o fato aconteceu, acabei desobedecendo, como brinca um amigo meu, o décimo primeiro mandamento: "não te empolgarás!" A lua, complacente, sorriu maravilhosamente (o sorriso da lua é encantador) e me disse que nem sempre é possível registrar todos os detalhes na bíblia, mas que ela foi testemunha de todo o processo que levou aquele homem cego a enxergar a luz. Achei estranho a lua utilizar a palavra "processo", mas se tem uma coisa que eu aprendi com a lua, é que ela tem sempre razão, e então, com empolgação já moderada, me calei para ouvir seu conto.

A lua, inusitadamente, fez questão de pontuar o período do ano em que a cura começou a ocorrer. Era início da primavera. O homem vinha de um inverno angustiante. Ao ouvir um casal de namorados enaltecendo a beleza do mundo e que essa beleza fazia os corações apaixonados deles vibrarem em sincronia, o homem percebeu que sua vida até então era desprovida dessa vibração e, consequentemente, desprovida de sentido. O que ele via não o deixava feliz. 

Nessa hora eu interrompi a lua e a indaguei: "Como assim, 'o que ele via...'? Ele não era cego?". A lua sorriu para mim e disse: "Não foi você mesmo que afirmou que João era o mais poeta dos evangelistas? Luiz, a cegueira do homem não era nos olhos físicos, mas nos olhos da alma".

Diante agora dos meus olhos (arregalados) a lua prosseguiu triunfante. Me contou ela que o homem decidira a todo custo que iria enxergar. Foi quando ouviu falar de um nazareno poderoso que por ali passaria. Foi ao seu encontro, exausto de uma vida sem vida, e pediu ajuda a Jesus, que perguntou: "O que você quer que eu faça?" Ao que cego pediu: "Senhor, quero enxergar a alegria da vida!". Jesus então sorriu e disse que isso aconteceria, mas que não seria de imediato... Quando eu já me preparava para protestar, afinal de contas a cura, até onde eu sabia havia sido quase imediata, a lua, já conhecendo minhas "instabilidades", me explicou que o tempo bíblico é diferente, é o tempo suficiente, o tempo necessário, o tempo que tem seu próprio tempo. E assim deveria ser também o tempo da vida, pensei eu.

Prometi a mim mesmo não mais intervir, afinal de contas, ela havia presenciado tudo. A lua então continuou sua história me dizendo que Jesus ao fazer lama com barro e saliva e colocar nos olhos do "cego", estava simbolicamente dizendo para ele que a falta de visão era porque ele estava sujo e precisava se limpar, precisava tirar as máscaras que cobriam seus olhos, tudo aquilo enfim, que o impedia de enxergar. Mandou o "cego" à piscina de Siloé lavar-se, e nessa hora o homem entendeu que precisava lavar sua alma, fazer uma completa faxina em si mesmo. 

Atravessou toda aquela primavera feliz com a perspectiva da mudança, entrou no verão onde as altas temperaturas ao mesmo tempo que dão ânimo, causam insolação e no outono, quando as folhas caem, um problema de família o fez esquecer de si e quando se esquece de si, o inverno tende a ser rigoroso e triste. Mas foi só quando voltou a viver um inverno de angústia que ele percebeu enfim, completado todo um ciclo, que podia mudar, que o Cristo o tinha alertado para essa necessidade de caminhar em direção à piscina, e quem caminha está sempre sujeito as intempéries da natureza. O homem enfim compreendeu tudo. Era como se ele fosse estrangeiro em terra estranha e não compreendesse a língua falada. Com o tempo, ele aprendeu o idioma da vida e nessas horas seus olhos se abriram e ele viu enfim a luz e tudo ficou claro, muito claro. E seu coração vibrou. Nessa hora ele percebeu que era novamente primavera.

Ao enxergar as coisas tão claramente, o homem começou a provocar estranheza em muitos. Os familiares e amigos não entendiam bem, os doutores da Lei menos ainda e quiseram a todo custo provar suas teorias de que era impossível ele estar enxergando. No fundo eles estavam todos cegos e, analogamente ao que disse T.S.Eliot, "em país de fugitivos, aquele que corre no sentido contrário parece que está fugindo". Não é fácil enxergar entre cegos, mas é necessário. E o testemunho do homem chegou até nossos dias.

Lembro que ao final da história fiquei mudo, reflexivo, emocionado e com o coração vibrando forte...

...

...como agora!

sábado, 15 de setembro de 2012

SONO


Ele passou a noite no hospital para fazer um exame do sono, o que pareceu a maior das ironias pois a última coisa que ele sentiu naquela noite foi sono, até porque para quem já tem problemas crônicos de insônia e outros distúrbios do sono, passar sete horas num quarto escuro, numa maca de hospital, preso a todo tipo de fios e eletrodos na testa, orelhas, nariz, peito, pernas, dedos, sem poder se levantar, sem poder ler, sem poder assistir tv, sem poder nem ir ao banheiro, com um monitorzinho indicando números variando para cima e para baixo sem saber o que significam, tendo por única distração um smartphone quase descarregado, olhando o e-mail e o facebook e as horas que teimavam em não passar, bem, dormir era mesmo uma missão quase impossível. Ao menos resta o consolo de que os aparelhos devem ter conseguido dados o suficiente para um bom diagnóstico do não-sono.

Contudo, a experiência transcendeu a literalidade da situação. Talvez por nas últimas semanas, terapeuticamente, ele ter entrado em contato com sua criança, tudo lembrava o pesadelo que o atormentava naquela época, o de estar enterrado vivo, preso em um caixão, diante de um contador, curiosamente muito similar à tela digital de seu smartphone, contador este que registrava a passagem dos anos e que acelerava indefinidamente.

Em um dos momentos de maior angústia, Depois de pouco mais de duas horas preso ao "laboratório do sono", como chamam lá, Deus parece ter tido piedade. Ele conseguiu se acalmar instantaneamente e dar um breve cochilo. Esse consolo chegou, como chega um beijo, como chega uma prece de alguém que se ama.

Mas aí um barulho o acordou e lhe tirou daquela bem vinda letargia e as horas de angústia que se seguiram o deixaram debilitado, a sombra do pesadelo ao seu lado, a situação como uma metáfora da vida e ao final o compromisso de exorcizar esse pesadelo tão antigo. Como diz o Osho, crescer é doloroso porque passamos  a vida evitando a dor, que não some, apenas fica depositada em algum lugar de nosso inconsciente.

Ao final ele saiu do hospital cansado, sonolento, debilitado e profundamente angustiado, mas com o firme propósito de continuar a enfrentar as dores que forem necessárias para crescer e sair daquele pesadelo de criança, ser ele mesmo, sem máscaras, sem disfarces. Um passo de cada vez, mas sem voltar atrás, com a paciência de um velho eremita que sabe que ao final da jornada encontrará o que buscou a vida inteira e que terá ainda uma vida inteira para desfrutar dos resultados de sua busca, porque quando se compromete com a mudança e a torna real, se nasce novamente, se ressuscita para uma vida nova, livre dos pesos e dos pesadelos. Amém!

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

CONTOS DA LUA #3: Certas Coisas (agosto, 2012)

Lua cheia no céu, novo conto da lua no Palavrador... E em agosto desse ano, essa é a segunda lua cheia...

Meu terapêutico exercício semanal é o de contemplar mais e tentar entender menos, até porque, como me foi lembrado, segundo Clarice Lispector, "não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento".

Pensando assim, dentre tantos contos da lua, escolhi um em que a lua me contou em estado quase contemplativo. Ela me deu poucos detalhes sobre seus dois amigos, por isso os chamarei aqui apenas de "ela" e "ele".

Se conheceram em um cruzeiro rumo à Europa, daqueles cruzeiros de muitos dias e muitas noites, com muitas atividades e atrativos. Eles até se empenharam nos primeiros dias em cumprir a agenda de atividades. Assim acabaram se conhecendo. Até participaram juntos de algumas dinâmicas, tomaram parte de um mesmo grupo, mas sempre de modo muito formal.

Em uma noite, ao acaso, ficaram a sós na área externa do navio, na verdade um grandioso transatlântico. Começaram a conversar e ele percebeu que ela era de uma leveza extraordinária. Ela gostou das histórias que ele contava. Sem perceberem, mas com a lua sob testemunha, avançaram na conversa madrugada a dentro e só deram conta do passar do tempo, quando no horizonte um sol preguiçoso começou a nascer, um sol que parecia querer demorar a raiar, apenas para deixar sua amiga lua presenciar mais daquela conversa.

E o encanto surgiu aos poucos mas de forma intensa. O apaixonar-se entre eles foi tão natural que não sabiam ao certo quando tudo começou. A lua afirma que foi quando ela olhou pela primeira vez no fundo dos olhos dele e quando ele olhou pela primeira vez nos olhos dela. A sensação de encaixe foi perfeita.

Mas não se declararam imediatamente um ao outro. Foram conversando, se olhando, até escrevendo bilhetinhos. Ela deixou o trecho da música "Certas Coisas" do Lulu Santos escrito em um guardanapo por baixo da porta do quarto dele. Ele, exagerado, escreveu até cartas para ela. E os dias e as noites no cruzeiro foram se passando. O tempo não era relativo, o tempo era eterno.

Na lua cheia se beijaram pela primeira vez. E ela falou a ele sobre os defeitos que tinha e sobre seu medo de que eles fizessem ele desistir dela. Ele se apaixonou ainda mais por ela. Não um apaixonar-se, exceto pelos defeitos. Não um apaixonar-se apesar dos defeitos. Mas um apaixonar-se pelo que ela chamava de "defeitos" e prometeu que nunca desistiria dela. Ele, pela primeira vez em toda vida foi ele mesmo. Contou-lhe coisas que nunca imaginou que contaria a alguém e ficou com medo que ela desistisse dele por ele ser tão complexo. Ela sorriu e disse que já o observava muito antes, que muito do que ele disse não lhe era novidade e que o amava do jeito que ele era. E ele chorou pela primeira vez em muito tempo, pois se sentiu amado pelo que ele era de fato, sem máscaras, sem interpretações.

A presença de um bastava tanto ao outro que não foram mais a nenhuma das atividades do navio até a última noite da viagem. Contudo, ele sugeriu participarem da última festa, queria lhe fazer uma surpresa. Chegando ao salão de festas, ele vestido em um elegante terno, a viu de longe, próxima a um piano. Vestido comprido e elegante em um tom de rosa mais escuro, com um decote provocante, costas nuas e alças que se amarravam ao pescoço. Ele se aproximou dela, ela sorriu e, virando-se de costas pediu que ele desse um laço melhor nas alças e ele, com as mãos trêmulas, fez o melhor que pôde. Ele então pediu licença a ela e disse que voltava rápido. Ela achou meio estranho, mas ficou observando-o se dirigir até a orquestra, falar com o cantor e sorrir de longe para ela. Foi quando a orquestra começou a solar uma música que ela conheceu antes mesmo da letra começar... "Certas Coisas"... Ele a convidou para dançar. Ela disse que não sabia e ele disse que era mais uma coincidência entre eles. Ele completou então dizendo que aquilo não seria uma dança, seria uma vida e seria para sempre...

Não existiria som
Se não houvesse o silêncio
Não haveria luz
Se não fosse a escuridão
A vida é mesmo assim,
Dia e noite, não e sim...

Cada voz que canta o amor não diz
Tudo o que quer dizer,
Tudo o que cala fala
Mais alto ao coração.
Silenciosamente eu te falo com paixão...

Eu te amo calado,
Como quem ouve uma sinfonia
De silêncios e de luz.
Nós somos medo e desejo,
Somos feitos de silêncio e som,
Tem certas coisas que eu não sei dizer...

A vida é mesmo assim,
Dia e noite, não e sim...

Cada voz que canta o amor não diz
Tudo o que quer dizer,
Tudo o que cala fala
Mais alto ao coração.
Silenciosamente eu te falo com paixão...

Eu te amo calado,
Como quem ouve uma sinfonia
De silêncios e de luz,
Nós somos medo e desejo,
Somos feitos de silêncio e som,
Tem certas coisas que eu não sei dizer...


A lua parou de me contar a história nesse instante e antes que eu dissesse qualquer coisa ela simplesmente me disse: "contemple! não tente entender! apenas contemple!"

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Excesso de Passado... Excesso de Futuro...


Um amigo meu, psicólogo, colocou dia desses em seu facebook, que "depressão é excesso de passado e ansiedade é excesso de futuro". Por falar em psicólogos, deixo neste dia a eles dedicado, dia 27 de agosto, meus parabéns a todos os profissionais que trabalham com a psicologia humana. Hoje, respeito ainda mais o trabalho que eles realizam. A mente humana é maravilhosa mas pode se tornar um poço escuro e fundo de onde para escapar é preciso reconhecer que é necessário deixar que outras pessoas nos ajudem. Mas voltando à frase, parece mesmo fazer muito sentido... De certo, o excesso de presente deve ser o que chamam de felicidade. Na filosofia oriental é muito clara a ideia de que a infelicidade está associada a vivermos muito no passado ou no futuro.

Isso deve ser verdade, pois as sombras que me invadiram hoje tinham a ver com o passado e com o futuro. O coração estava aflito, ainda está, mas ao menos consegui viver um pouco, ainda que por alguns minutos, essa experiência do presente. Na minha última postagem comentei que estava lendo um livro, que estava na metade. Terminei-o de ler na segunda vez que o peguei. Pensei que é difícil não nos identificar com os livros que mexem com a gente, até porque, como disse Nietzsche, ninguém tira de um livro mais do que tem dentro de si. Pensando sobre o livro e sobre tantos outros livros que li, tantas outras histórias com os mais diversos fins, percebi que podemos nos identificar com uma coisa ou outra, que podemos aprender muita coisa com o que lemos, mas que nossa vida não é um livro, até porque somos muito mais que livros. Nos livros, ficamos a mercê dos desejos do escritor. Na vida, o autor dela, Deus, nos dá a chance de escrever a nossa própria história. Como diz a música, "cada um de nós compõe a sua história e cada ser em si carrega o dom de ser capaz, de ser feliz."

Pensei nisso quando me permiti, me forcei (mesmo) a viver o presente. Para resolver um pouco do que me afligia resolvi correr. Percebi apenas quando cheguei ao parque (onde fui correr), que havia esquecido o cronômetro. Fiquei um tanto quanto chateado comigo. O interessante é que era uma chateação completamente desnecessária, pois eu não pretendo me tornar atleta, não estou buscando bater recordes, apenas queria monitorar, controlar, anotar meu próprio tempo, analisando meu desempenho a cada volta de 1km etc. etc. etc. Ou seja, uma inutilidade. Mas deve ser a coisa da competitividade masculina, que leva a gente a competir paranoicamente até com a gente mesmo, no passado, pensando num futuro. Excesso de passado... excesso de futuro... Mas não foi ainda aí que eu me concentrei no presente. Tentei correr em ritmos distintos cada volta, contar as passadas, perceber como estava minha respiração e meu cansaço de uma volta para outra, tentando projetar meu desempenho para volta seguinte etc. etc. etc. E olhe que o objetivo da corrida era desanuviar a mente. Excesso de passado... excesso de futuro...

Mas aí bateu o cansaço e bateu no meio de um volta. Precisava terminar o percurso porque o carro estava no outro lado do parque. E aí, distraidamente eu fui feliz, naquele resto de caminho. Sincronicamente, acreditem, enquanto escrevo isso, começa um filme na tv onde a personagem principal diz na primeira cena: "não existe caminho para a felicidade; a felicidade é um caminho". Pois é, foi isso que eu experimentei. Li-te-ral-men-te! Quinhentos e poucos metros de plena felicidade. Já havia passado cinco vezes pelo mesmo local naquela corrida mas não havia reparado nas crianças brincando no playground, nos adolescentes fazendo manobras radicais na pista de bicicross, nos jovens apaixonados, nos demais que caminhavam buscando uma vida saudável, nas flores, nas árvores. Me deixou tocado um galho de coqueiro que lutava para sobreviver. Mas o que me comoveu mesmo foi um pinheiro, que deve estar ali há anos e eu nunca o tinha visto. Ele começa totalmente torto, mas muito torto mesmo, é até estranho. Mas em determinado momento, ele se apruma e a partir dali cresce de forma perpendicular ao solo. Fiquei ali um tempo observando o amigo pinheiro, pensando nos porquês daquela estranha formação, foi quando ampliando a visão percebi o que aconteceu na sua história. Comparado as outras árvores que o cercavam, ele era muito mais jovem que as demais e estas lhe faziam sombras. Ele ficou torto para procurar o sol, para se livrar das sombras. Ele não podia mudar suas raízes, fazia parte da sua história, mas ele pôde mudar a direção que o levaria certamente ao tombo. E ele foi em busca do sol e quando encontrou, conseguiu se livrar das sombras, se tornou maior e mais forte. Sorri, pensando que o pinheiro teria muito mais exemplo a dar do que eu mesmo. Amigo pinheiro, pensei, obrigado pela lição de hoje à tarde. Obrigado pela felicidade ainda que momentânea. Obrigado por mostrar que devemos buscar um lugar ao sol, mesmo diante das sombras que fazem parte da nossa vida. Mais uma vez a ideia de que é preciso fazer as pazes com as sombras me assaltou.

A felicidade que encheu meu coração naquele momento foi cedendo lugar a outros sentimentos não agradáveis. Realmente somos homens de pouca fé como disse Jesus. Tudo estava claro, mas meu racionalismo insistiu em aparecer e pôr em dúvida a força do exemplo do pinheiro. Numa última tentativa de não perder a magia do momento, ergui a cabeça aos céus e pedi um sinal de Deus de que eu deveria manter minha fé no que "dizia" meu pinheiro amigo. Coisa bem racional essa de pedir sinais. Fazendo experiência com Deus, com dados para compor a amostra. Eita limitação humana... Mas Deus parece mesmo entender nossas limitações. Ele deve ter sorrido e pensado: "queres um sinal? Pois bem, no Pai-Nosso você pede que seja feita a minha vontade, mas tudo bem, hoje a minha vontade é que seja feita a sua vontade". E do céu caiu uma chuva fina, chuva que abençoa, restaura e dá forças. Chuva que mostra que a felicidade está no agora. E dos meus olhos também caíram água. Lágrimas que se misturaram ao suor e à chuva. Lágrimas de felicidade. Eu sabia que em breve o passado e o futuro voltariam para me afligir, mas em breve, enquanto isso eu era feliz e a certeza dessa felicidade me mostrou que é possível (mesmo) ser feliz e quando uma certeza se instala em nosso coração, em nossa mente, em nosso corpo, em nossa alma, é para sempre.